O mapa da águas

A Vila Mariana surgiu numa suave colina, em cujo topo foi instalada a caixa d’água da Vila Mariana..Hoje a maioria dos moradores da Vila Mariana não consegue ver a caixa d’água porque a urbanização encobre a visão. E, mais, hoje em dia não existe muito interesse em apreciá-la, pois o que importa é a água na torneira. Isso é mesmo muito sério, pois não é só a caixa d’água que fica no esquecimento, mas também outras coisas, as estrelas, por exemplo, que só admiramos no planetário.

Rio é aquilo que existe no meio da mata, porque rios que correm numa cidade viram marginais, para proporcionar trânsito rápido. Assim, só lembramos dos rios de São Paulo quando tem enchente ou quando há algo para jogar fora e o lixeiro não leva. Além dos rios, aqui existem córregos, os filhotes dos rios, ou os geradores dos rios. Esses também são ignorados, aprisionados em canais imundos, recebendo esgotos. Alguns ainda correm soltos, mas quase todos têm uma coisa em comum: fedem pra dedéu. E, é claro – ia esquecendo – são lembrados quando provocam enchentes.

Antigamente, na época dos índios, os rios eram amados, e mesmo os padres tinham um bem querer por eles. A escolha do local para o colégio dos jesuítas, por exemplo, levou em conta o rio Tamanduateí, que corria ali por perto.

Na época dos índios a região da Paulista era chamada de caaguaçú, que quer dizer “mata grande”, e lá havia muitas árvores e pinheiros. De lá podia se apreciar os campos de Piratininga onde predominava uma mistura de cerrados, brejos, colinas e morros, com pouca mata atlântica. Na parte baixa espraiavam-se os rios Tamanduateí, Pinheiros e Tietê, muito mais largos do que hoje, com águas sinuosas, atrevidas, que pulavam para fora do leito e deitavam e rolavam à vontade pelas suas várzeas. Atrevidas são essas águas até hoje.

Nos campos de Piratininga, há milhões de anos, existia um lago que foi desaparecendo, afogado pelas areias trazidas pelas águas. E desse lago assoreado surgiram as várzeas de Piratininga. Sim, senhor: tudo o que está aí existe por causa das águas. E se os jesuítas fundaram o colégio, a construção das casas só foi possível graças ao barro, à areia e às pedras arrancadas do seio dos rios.

Muita água, muito peixe, nenhuma escarpa intransponível, nenhuma vegetação impenetrável; este era um lugar muito bom para se morar. Segundo o padre Manoel da Nóbrega, o lugar era “o milhor da terra“. E foi mesmo um bom lugar para os índios nativos e os padres, assim como para os bandeirantes. Foi bom para os barões do café e acolheu imigrantes e migrantes. Claro, nada é perfeito – e coisas ruins aconteceram para os índios e para os escravos.

O rio Tamanduateí era muito importante por causa dos seus peixes e rãs. E também porque atraía aves e pássaros. Nele, as pessoas podiam navegar, nadar, brincar, pescar, lavar roupa e até namorar. O rio ligava os lados da Serra do Mar ao centro de São Paulo, e no lugar onde hoje se agita a Rua 25 de Março, instalou-se um porto para receber as mercadorias que chegavam a cidade. Daí o nome de Porto Geral à ladeira que lhe dava acesso, e a explicação da vocação mercantil daquela região. E por que o mercadão está lá.

Quando a Vila Mariana surgiu, nós também tínhamos córregos. Hoje eles estão enterrados, nem todos mortos, e isso quer dizer que foram enterrados vivos. Existem registros de cerca de seis córregos aqui na região.

O córrego Caaguaçu descia pela Rua Teixeira da Silva, passava pelo ginásio do Ibirapuera, pelo quartel do Segundo Exército e desaguava num lago onde fica hoje o estacionamento da Assembleia Legislativa. Um segundo córrego ficava na pista da Avenida 23 de Maio e juntava-se a um terceiro, na Rua Maestro Callia – que, acredita-se, chamava-se córrego Boa Vista.

O mais falado dos córregos da Vila Mariana é o córrego do Sapateiro, perto do Matadouro, atual Cinemateca Brasileira. Mapas antigos mostram-no na Rua Mario Cardim, e que se juntava com as águas de outro, que descia pela rua Estado de Israel.

Esses rios e córregos da Vila Mariana e de São Paulo de Piratininga foram usados, abusados, aproveitados. Hoje achamos que não precisamos mais deles, porque a água sai da torneira. Mas eles deságuam no rio Pinheiros, que, apesar de semimorto, ainda consegue alimentar o Tietê, a Billings, a Guarapiranga.

A Guarapiranga fornece água para as estações de tratamento da SABESP, que, por sua vez, enche a caixa d’água da Vila Mariana. Por isso, podemos dizer que bebemos a água dos córregos Caaguaçú, Boa Vista, Sapateiro e outros, cujos nomes foram esquecidos por conta da nossa ingratidão.

O córrego Boa Vista, repito, está enterrado.

Está sob a rua Maestro Callia e, devidamente emparedado, cruza por baixo a rua Amâncio de Carvalho e segue pela Rua Astolfo Araújo. Nesse cruzamento, quando cai uma chuva mais forte, o córrego se espraia pelas calçadas, achando que a rua ainda é a sua várzea. Mas não é mais; ele não percebeu que o tempo passou e que quando aparece, incomoda, porque provoca alagamentos.

Então talvez possamos neste próximo verão, lembrar dos córregos da Vila Mariana e, numa tarde de chuva forte, dar um pulo na rua Amâncio de Carvalho, procurar a esquina com rua Maestro Callia e aguardar a água subir. Quando ela, atrevida, alagar a rua e atingir nossos tornozelos, quem sabe a gente se lembre de agradecer a sua existência, como fazem os seres civilizados, e como fizeram os índios.

Este texto foi inspirado em minhas andanças pelo bairro e na leitura do material abaixo, de onde extraí a maioria das informações:

· Os nascimentos de São Paulo, de Eduardo Bueno (Org.). Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

· Memória urbana – A Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/Emplasa: Imprensa Oficial de São Paulo, 2001.

· Cidade das águas, de Denise Bernuzzi de Sant’Anna. São Paulo: Editora SENAC, 2007.

· Mapas da cidade de São Paulo. Disponível em http://sempla.prefeitura.sp.gov.br/historico.

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