Vida e Obra de Victor Brecheret

O escultor Victor Brecheret foi quem propôs e concebeu um dos maiores símbolos da cidade de São Paulo, o Monumento às Bandeiras que demorou 30 anos para ser concluído e é a obra com que o renomado artista mais se identificou

São vários os rostos esculpidos no Monumento às Bandeiras, no Parque Ibirapuera. Índios, negros, brancos e integrantes das bandeiras que desbravaram o interior do território brasileiro a partir do século XVII em busca de riquezas e que foram homenageados pelo artista Victor Brecheret (1894 – 1955), que propôs a obra e esculpiu cada um de seus detalhes, inclusive o seu próprio rosto, em uma demonstração de amor à cidade que o acolheu.

Vittorio Brecheret nasceu em Farnesi, Itália e chegou a São Paulo acompanhado da irmã, com apenas 10 anos de idade, para morar com a tia, em 1904. Nessa época já manifestava sua paixão pela escultura. Passava horas amassando barro e modelando figuras. Trabalhava para ajudar a família e decidiu ser escultor ao deparar-se com uma revista ilustrativa das obras de Rodim.

São Paulo vivia uma época de pleno desenvolvimento e foi invadida por construtores, artesãos e artíficies italianos. O ambiente incentivou o futuro artista que, levado pelo tio, que trabalhava no Liceu de Artes e Ofícios, iniciou, em 1912, sua formação técnica, artística e cultural. Foi nessa época que criou a primeira obra: a escultura de madeira Pietà.

Após quase dois anos de estudo, Brecheret foi incentivado pelos professores, entre eles Ramos de Azevedo, a ampliar seus horizontes. Com a ajuda dos tios, retornou à Itália para estudar em Roma, então um dos maiores pólos da escultura européia. Contudo, não foi habilitado a estudar na escola de Belas Artes, por não ter estudos suficientes.

Brecheret não desanimou e aproveitava os dias para conhecer as grandes obras do país. Não demorou muito, surgiu a oportunidade de trabalhar com o famoso escultor Arturo Dazzi, o preferido do rei Vittorio Emmanuelle III. Tornou-se aos 18 anos seu aprendiz: era o encarregado de amassar o barro e fazer armações em volta dos blocos de gesso do ateliê. Tempos difíceis para o jovem escultor, que dividia um sentimento de repulsa e admiração pelo mestre.
Nesse período, Brecheret começou a dominar as técnicas de escultura, do modelado de argila, das formas de gesso etc.: “Bases clássicas” para sua formação, como revelou mais tarde.

Seguro, decidiu entre 1913 a 1915 montar seu próprio ateliê no antigo endereço do artista croata Ivan Mestrovic – escultor que teve poderosa e fundamental contribuição na formação de Brecheret e de quem absorveu o gosto pela monumentalidade e à intenção alegórica e dramática que influenciaram suas esculturas de temas nativista.

Em 1919, voltou à capital paulista, mas por ser um tanto tímido e até taciturno, sentia-se desajustado, angustiado e insatisfeito com uma terra que não permitia que expandisse seu talento. Lembrou-se do antigo mestre, Ramos de Azevedo, que prontamente reservou um galpão no Palácio das Indústrias – em fase de construção – para ser seu ateliê.

E foi no Palácio das Indústrias, por volta de 1920, que o escultor teve a oportunidade de sair da marginalidade em que se debatia. Um grupo de jovens, entre eles o pintor Di Cavalcanti e o poeta e escritor Oswald de Andrade – em visita ao Palácio das Indústrias, ficou maravilhado com as obras de Victor Brecheret, consideradas inovadoras para os padrões artísticos paulistanos. O fato gerou até uma crônica de Menotti Del Picchia. A partir de então Brecheret assumiu um papel essencial na história do modernismo no Brasil, que anos depois resultou na Semana de Arte Moderna de 1922.

Para o grupo, Brecheret tornara-se “o revolucionário do dia”. Foi neste período de aproximação com os paulistas que o Monumento às Bandeiras foi concebido, suscitado pelo clima patriótico com a proximidade do Centenário da Independência do Brasil. A maquete de gesso foi considerada inovadora e atraiu grande visitação ao ser exposta ao público, na Casa Byington, em julho de 1920. A pretensão de Brecheret em realizar a obra era apoiada por uma comissão provisória comemorativa, que tinha como presidente Monteiro Lobato. No entanto, o projeto do monumento foi deixado de lado por longo tempo por não conseguir atrair patrocínio oficial ou particular – à espera da realização por 20 anos.

A Villa Kyrial (na rua Domingos de Moraes) reunia os grandes artistas e intelectuais da época e Brecheret, graças a influência do senador Freitas Valle, que estava a frente da comissão de pensionato, recebeu uma bolsa de estudos em Paris, onde, entre competidores do mundo inteiro, foi aceito no Salon d’ Automne. Destacado em várias exposições, em 1925 participou da 138º exposição oficial da Societè des Artistes Français, entidade máxima da arte acadêmica francesa.

Com o sucesso no exterior, Brecheret voltou a São Paulo para comprovar seu aproveitamento em uma exposição individual – primeira na carreira – e tornou-se merecedor de uma prorrogação da bolsa, retornando a Paris em 1927.

Tornara-se um escultor respeitado. Além das vendas em exposição, recebia encomendas oficiais do Brasil e do exterior. Em meados da década de 30, retornou ao Brasil para expor no Palace Hotel do Rio de Janeiro e iniciou a reformulação da maquete do Monumento às Bandeiras, para ele um símbolo da pujança do povo paulista. Apresentou-a ao Governo do Estado e o interventor federal em São Paulo, Armando de Salles Oliveira (nome da praça onde está o monumento) decidiu implantar o monumento à entrada do Parque Ibirapuera, que ainda estava em projeto.

A grandeza da obra – iniciada no mesmo ano – fez Brecheret abandonar seu círculo parisiense. No parque Ibirapuera foi erguido um enorme galpão especialmente para desenvolver a peças do Monumento às Bandeiras. Brecheret produzia também no local outras encomendas, pois a obra maior foi interrompida por diversas vezes devido à 2ª Guerra Mundial e por falta de recursos.

Em 1944, o Governo do Estado transferiu o projeto para a Prefeitura. E dois anos depois, foi lançada a Pedra Fundamental do Monumento. O avanço das obras, inaugurada dia 25 de janeiro de 1953, integrou-se com a nova fase de arte de Brecheret: a de criar uma escultura brasileira.

Do granito de Mauá, estendido em 527,63 m³ e disposto em blocos regulares de vários tamanhos, – surgiu 37 figuras humanas, em traços essenciais de simplicidade quase rústica, da matéria-prima dura e severa. Com cerca de 11m de altura total por 8,40m de largura e 43,80m de profundidade, a obra foi posicionada no eixo sudeste – noroeste – sentido de entrada das bandeiras sertanistas em busca de terras no interior.

Ao redor do pedestal, várias inscrições no granito. Na face frontal do pedestal, foi desenhado por Affonso de E.Taunay um mapa do Brasil para mostrar os percursos que os bandeirantes realizaram pelo interior do país. Na face lateral esquerda do pedestal, outra placa em granito recebeu a inscrição do poeta Cassiano Ricardo: “Glória aos heróis que traçaram o nosso destino na geografia do mundo livre, sem eles o Brasil não seria grande como é”. E na face lateral direita, foi a vez de Guilherme de Almeida fazer sua homenagem: “Brandiram achas e empurraram quilhas vergando a vertical de Tordesilhas”.

O Monumento às Bandeiras resume, como um testamento, todas as experiências escultórias de Brecheret, que durante a vida produziu 350 peças, geradas em vários momentos artísticos e históricos e que permanecem atual ao traduzir o apego à natureza e a preocupação do humano.

Ele dizia que era a obra com que mais se identificava, tanto que seu rosto, imortalizado no monumento, mistura-se aos dos sertanistas. É a quarta figura à direita, no bloco imediatamente seguinte ao dos cavaleiros e tem no ombro direito a inscrição: “Auto-retrato do escultor Victor Brecheret 02-10-1937”. Uma maneira de provar que a história de sua vida é semelhante a dos heróis sertanistas. Eles desbravaram caminhos em busca de riqueza; Brecheret, o mundo em busca de outra riqueza, a das formas.