PEDRAS QUE CONTAM HISTÓRIAS

Para quem notou que, na edição do mês passado, não assinei a coluna “Vila Reclama”: eu estava na Europa, pesquisando sítios arqueológicos extraordinários na Grécia e na Turquia. Mas, como jornalista não para nem nas férias, trouxe dois desses lugares para vocês: Olímpia, na Grécia, onde se realizaram os primeiros Jogos Olímpicos da História, e Éfeso, na Turquia, com seus extraordinários vestígios de uma civilização de antes de Cristo – de dar inveja até hoje.

Em Olímpia, os primeiros jogos

Segundo a lenda, Olímpia foi, na origem, uma aldeia de pastores, que Zeus, o rei dos deuses, escolheu para ser venerado, e que se transformou no sítio de culto mais importante da Grécia tradicional. E ali nasceram os Jogos Olímpicos.

As Olimpíadas se realizavam de quatro em quatro anos, no solstício de verão. No começo, consistiam em algumas competições de corrida, que duravam apenas um dia e eram interrompidas por cerimônias religiosas. Mais tarde os jogos foram se ampliando, chegando a durar semanas, durante as quais todos os conflitos eram suspensos. O cerimonial dos jogos era muito estrito: mulheres, por exemplo, não eram admitidas, exceto a sacerdotisa da deusa Hera. E se alguma mulher ousasse desobedecer, era condenada à morte. A única que ousou desafiar essa regra, mãe de um jovem atleta que venceu a maioria das provas, foi condenada — mas perdoada.

Aliás, para evitar que mulheres disfarçadas de homem participassem das provas, os meninos corriam totalmente nus. E só podiam competir cidadãos gregos.

Os vencedores eram reconhecidos publicamente, coroados com coroas de folhas, tinham os nomes gravados em placa de ouro e ganhavam uma estátua em tamanho natural. Uma pena: poucas sobreviveram à fúria dos terremotos ou dos muitos invasores ao longo dos séculos. A própria cidade de Olímpia foi redescoberta apenas em 1776, mas as escavações mais importantes são muito recentes.

Jogos interrompidos

Depois de 1200 anos de realização sem interrupções, os jogos foram suspensos, no ano 393 d.C., pelo imperador Teodósio I, convertido ao cristianismo, sendo novamente celebrados apenas em 1896, em Atenas, graças à iniciativa do barão francês Pierre de Coubertin – que criou o lema “O importante não é vencer, é competir”.

Atualmente, a chama olímpica é acesa no estádio de Olímpia, restaurado em parte, utilizando a luz do Sol refletida por um espelho parabólico. Essa chama vai depois acender uma tocha, que é transportada por atletas até o local de realização dos jogos.

Quando foram feitas as escavações, bem recentemente, uma das maiores surpresas foi a revelação de um estádio com lugar para 45 mil pessoas, ainda hoje admirável. As linhas de partida e chegada das corridas são perfeitamente visíveis, nas muretas de pedras – e o local é uma das maravilhas de Olímpia, um lugar que nos emociona profundamente, mais ainda quando lembramos que, em 2014, os Jogos Olímpicos serão aqui, no Brasil. Em estádios tão belos quanto o de Olímpia, esperamos.

Em Éfeso, uma civilização extraordinária

Istambul, a capital da Turquia — que já foi Constantinopla, Bizâncio e Nova Roma — é uma cidade belíssima, cheia de surpresas. E uma das melhores fica a apenas 30 km da capital.

Éfeso é uma das maiores, mais bonitas e mais bem preservadas cidades antigas do mundo. Foi erguida por volta de 1000 anos a.C. como centro de veneração de Cibele, a deusa-mãe da Anatólia, depois substituída por Ártemis. 

Éfeso foi fundada por Lisímaco, sucessor de Alexandre, o Grande, mas sob o domínio romano tornou-se  o porto mais importante do mar Egeu. No ano de 133 a.C. a cidade foi declarada capital da província romana e ganhou esplêndidos monumentos arquitetônicos, orgulho da população, já então de mais de 400 mil habitantes. Mais tarde, a cidade, grande centro comercial e cultural, entrou em declínio devido ao assoreamento do porto.

Nos tempos apostólicos, Éfeso foi uma das cidades do Império Romano em que  o cristianismo mais se difundiu, devido às pregações dos apóstolos Paulo e João. A igreja existente em Éfeso no fim do século I d.C. foi a primeira e principal comunidade das Sete Igrejas da Ásia Menor mencionadas na Revelação de São João (o livro conhecido como Apocalipse).  

Éfeso foi a quinta cidade mais populosa do império, chegando a ter quase 500 mil habitantes. A população era formada na maioria por pessoas bastante ricas e instruídas — e região foi berço de muitos filósofos, entre eles Thales e Heráclito (séc. V a.C.) e Isidoro (séc. VI d.C.). Foi encontrada por arqueólogos uma inscrição em pedra que consagrava Éfeso como “a cidade mais ilustre de toda a Ásia”.

Alexandre, o Grande, Cleópatra, Sta. Isabel, São João e São Paulo e até a Virgem Maria, que lá, segundo a tradição, passou seus últimos anos na Terra, foram algumas das “celebridades” que visitavam Éfeso ou lá passaram um largo tempo. 

O local da cidade, como se vê hoje, tem sido escavado por mais de 100 anos; a maioria das edificações que restaram datam do período romano, e muitas estão magnificamente preservadas, como a Biblioteca de Celso, o Portão de Adriano, um bordel famoso, casas e o teatro, além de fontes, ruas, estátuas, banhos romanos e praças comerciais.