Meus estudos na Rússia

Cresci na Vila Mariana, estudei, fiz amizades. Mas, na hora do vestibular, decidi estudar fora. Comecei a pesquisar e encontrei a Rússia como melhor opção. Escolhi estudar Ciências Políticas, em Moscou, e ganhei uma bolsa na Universidade Superior de Economia.

Logo que cheguei, estranhei o alfabeto, não dá para ter uma ideia do que são as letras: no supermercado, então… Vale destacar que as lojas de Moscou têm os mesmos produtos de qualquer centro comercial do mundo — embora a quantidade de marcas de caviar, a gente só encontra lá. 

Fui para Moscou com mais seis brasileiros, de Curitiba, Rio, de São Paulo e interior. Fomos recepcionados por um estudante brasileiro que a universidade destacou também para nos levar para nosso apartamento e ajudar no básico do dia a dia.  As aulas começaram 15 dias depois da minha chegada. Demorou um pouco, pois os estudantes de diversos países chegavam aos poucos: árabes, latinos, europeus, africanos, indianos, chineses… Uma verdadeira Torre de Babel.

Essa experiência de conviver com gente de todos os lugares do mundo, de culturas tão diferentes, para mim, foi a mais enriquecedora. Os árabes, por exemplo, sabem da quantidade de “primos” no Brasil, e eu informei a eles que a Vila Mariana tem muito restaurantes libaneses. Os indianos são as pessoas mais acessíveis, simpáticas, abertas e extremamente interes-sadas. Aprende com uma facilidade incrível, inclusive o português!

Descobri que a língua russa não é tão complicada na hora de falar; agora, para escrever, confundo-me até hoje com algumas letras. Mas posso dizer que depois de um ano dá para levar um papo em russo. Fiz até algumas amizades: no início, os russos parecem meio antipáticos, até eles ficarem à vontade. A partir daí, eles se transformam: são muito sinceros — falam as coisas na cara. Receber críticas de um russo é sinal de que ele é seu amigo!

Os russos são cultos, talentosos e adoram uma bebida alcoólica, principalmente cerveja, mas a quantidade de marcas de vodcas comprovam qual é a bebida preferida da população. Levei uma cachaça do Brasil e meus amigos russos adoraram! A alimentação diária tem como base uma sopa com pão, salada (de batata e repolho) e o prato principal, feito de carne de porco, com arroz ou cereais cozidos. O frango também é consumido, embora não seja a carne preferida dos russos. Já a carne de vaca é muito cara.

Notei que o povo é resistente a ideias novas, normalmente vindas do Ocidente, elas demoram a ser aceitas. A impressão que dá é que as lutas pelos direitos humanos não encontram muita repercussão na Rússia.  Mas o direito à Saúde e à Educação  gratuitas prevalece —  e são de primeira qualidade.

A arquitetura é uma mistura do antigo padrão encontrado em outras capitais da Europa com os prédios soviéticos: caixas retangulares sem muito requinte. A maioria da população mora em pequenos apartamentos que ainda preservam uma decoração soviética: com paredes forradas de carpete e piso de madeira – inclusive na cozinha. No primeiro momento, esse jeito de morar parece meio estranho, mas depois a casa vai ficando cada vez mais aconchegante.  Os russos são muito hospitaleiros e gostam de reuniões e jantares. A maioria deles é fumante e acha estranho quem não é. 

O país é muito grande, e conhecê-lo requer muitas horas de viagem. Moscou é uma grande metrópole — a segunda maior da Europa depois de Istambul.  Além dos pontos turísticos mais conhecidos, como o Kremlin, a Praça Vermelha e as igrejas ortodoxas, há muitos museus, teatros e cinemas espalhados pela cidade. O parque Gorki, inaugurado em 1928, é enorme e organizado e está ao lado do Rio Moscou. Todos os trajetos são feitos de metrô, um parágrafo à parte.

O metrô de Moscou foi inaugurado na Era Stalin, em 1935, e todas as estações são diferentes uma das outras, mas suntuosas, com lustres de cristais, mármores e obras de arte. O preço da passagem é 50 rublos, cerca de 3 reais.

Tive a oportunidade de conhecer São Petersburgo, antiga Leningrado, e capital do Império Russo. São 7 horas de viagem de trem. A paisagem tem uma topografia plana de campos e campos a perder de vista. São Petersburgo foi construída sobre um pântano e, por isso, é chamada de Veneza do Norte, pois é cortada por vários canais. É a capital cultural russa e por isso recebe muitos turistas, que se impressionam com a beleza da cidade e da Igreja do Sangue Derramado (foto).

A história das guerras já nos conta sobre o rigoroso inverno na Rússia. Pois é, a estação molda a cultura do país — a preocupação está desde a comida até a zeladoria da cidade, pois a neve traz inúmeros problemas à prefeitura e a população. Por isso, tudo é muito organizado: as pessoas permanecem bem abastecidas em casa durante os cinco meses de inverno. A proteção vem de um sistema de aquecimento muito eficiente. Nessa época de frio, os encontros entre amigos acontecem frequentemente, alternando os locais de reunião.

Quando me perguntam se aprendo a ser comunista no meu curso de ciências políticas na Rússia, respondo que é uma disciplina que sempre espelhará a cultura local. No entanto, para quem acha que a Rússia tem saudades do período soviético, posso garantir que não. Há 30 anos, desde a queda do muro de Berlim, a vida na Rússia é capitalista, ainda numa geração marcada pela experiência do socialismo. Volto para lá no final de agosto!