Açoures – Caminhos da vida e do Mundo

Açores é um arquipélago de nove ilhas que pertence a Portugal, mas possui autonomia administrativa. É a beleza selvagem. O arquipélago teve, desde sempre, uma história de perdas e de esquecimento quase total, estando sempre presentes, desconhecidos e familiares, perdidos e reencontrados. Ir ao Arquipélago dos Açores é fazer uma viagem ao centro da Terra. Camuflado sob um espesso manto verde ou, por vezes, oferecendo-se puro aos nossos olhos, reserva motivos excepcionais. Uma diversidade geológica que é a responsável pelas imensas belezas naturais das ilhas, geradas no oceano profundo, onde tudo começou há milhões de anos. Um paraíso desconhecido, um mundo entre os mundos, uma terra de que se ouvia falar mas ninguém conhece; são assim os Açores. Com uma população de 242 mil habitantes, espalhados por nove ilhas de origem vulcânica, numa superfície de 2.333 km quadrados, arquipélago fica a um terço de viagem entre a Europa e a América. Ilhas que eram desertas e foram povoadas por pessoas procedentes de Portugal, Espanha, Flandres e Bretanha, que procuravam novas terras de liberdade e esperança. O solo fértil, com o clima oceânico subtropical provocado pela influência da corrente do Golfo e do anticiclone reinante, fez dos Açores um dos paraísos da Terra. Falarei aqui da Ilha do Faial, terna e ondulante, com requebros meigos e sensuais, enfeitando-se para o seu vizinho Pico (ilha majestosa), seu companheiro inseparável de ventura, ou de desventura. Faial tem a meiguice da mulher apaixonada, expressiva e delicada, que se alinda para o inefável e másculo companheiro: o Pico. Um caso de amor que vem do início dos tempos, rumo à eternidade, porque ali já é o paraíso onde Deus derramou a sua graça numa antevisão celestial. Assim é o Faial, uma ilha de encantar, com suas duas tonalidades de azul: suave no céu, forte no mar. Tem o brilho ofuscante de suas paisagens e o fulgor refletido em suas lagoas. Ilha de paisagística, inestimável, com laivos de doçura e meiguice nos vales opulentos, ou com agressividade abismal nas vertentes dilaceradas. Uma orgia de flores onde as hortênsias brotam em magotes, ou alinhadas em bardos divisores, mas sempre deslumbrantes. Na aproximação, enquanto o sol desfalece no horizonte, a primeira impressão é o imenso verde que tudo cobre e tinge destas terras distantes no imenso Atlântico, compensando ao visitante alguns dos principais motivos por que se deixou convencer a atravessar o oceano. É toda a imensa natureza paisagística dominada pela vegetação luxuriante, endêmica e exótica que por todo lado abunda. No Faial as chuvas temperadas de sal se misturam às escorrências de lava das montanhas agrestes, na formação de novas ilhotas. Em frente à ilha do Faial está a ilha do Pico, separada por um pequeno estreito, tão pequeno que de longe se namoram. Os mapas antigos denominam esta como a ilha da aventura. A cratera do vulcão, Cabeço Gordo, é a única existente na ilha. Suas paredes caem de forma vertical, abruptamente, até uma profundidade de 400 metros, fazendo suspender o nosso fôlego quando nos aproximamos. Nessa ilha ocorreu a última atividade vulcânica dos Açores, em 1957, na ponta dos Capelinhos. Foi uma erupção submarina, bem perto da praia, acrescentando mais um pedaço de terra àquela pequena ilha. Campos e casas foram cobertos por cinzas, e o local ficou transformado numa paisagem desértica e negra. A capital da ilha é a Horta, fundada pelo flamengo Josse Van Hurter. Já nessa época a cidade tinha uma certa fama de próspera e mercantil. Registre-se a visita ilustre, em 1755, do descobridor inglês James Cook, que ancorou a sua embarcação no Porto Paim. Corsários e piratas assolaram a ilha nos primeiros anos de seu povoamento, mas, com o rodar dos anos, converteu-se em porto de escala e abastecimento das companhias baleeiras da Nova Inglaterra. Também foi repouso de missionários carmelitas, franciscanos e jesuítas da América e do Oriente. Com a desconstrução do cais do porto, em meados do século XIX, começaram a chegar os barcos a vapor. Com a instalação do cabo submarino, a Horta converteu-se no eixo de comunicação entre a América e a Europa. Hoje, os “lobos do mar desportivos” fazem da Horta a sua Meca, e para lá convergem com seus iates à vela. Por tradição, deixam uma pintura alusiva à sua embarcação no molhe da marina, que assim se converteu numa impressionante galeria de arte ao ar livre. Mas também existem por estas bandas histórias contadas e transmitidas de boca em boca. Ora vejamos: Açoriano chama os oriundos de Portugal de continentais. Pois um continental em viagem para os Açores parou em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e surpreendeu-se ao notar o sotaque afrancesado dos naturais, principalmente na pronúncia do “u” e do “s”. De volta a bordo, apressou-se em perguntar se o sotaque difícil de entender era assim em todas as ilhas. Explicaram-lhe que não e que na ilha do Faial, seu destino final, a coisa era bem melhor. Chegando à cidade de Horta, no Faial, tentou informar-se onde ficava o hotel no qual pretendia se hospedar. Abordou um senhor baixinho de farto bigode: “Por favor, onde fica o hotel Faial?” A resposta veio rápida e da seguinte forma: “É pra bochê”, indicou o sentido do centro da cidade e foi andando. (Agora a tradução: “É para baixo”). O nosso viajante logicamente não entendeu nada e, entre confuso e desapontado, o que lhe ocorreu de imediato foi pensar com seus botões: “Meu Deus do céu, se isto aqui é o melhor de que me falaram, então eu estou perdido”. Acontece que o informante era o sr. Vieira, empregado da companhia de luz, oriundo de uma freguesia de São Miguel, onde se fala um micaelense bem cerrado, daqueles que até os residentes em outras ilhas, por vezes, têm que dar voltas ao miolo para entender, e que, mesmo radicado no Faial há várias décadas, mantinha intacta a sua pronúncia de terra natal. Azarado mesmo foi este viajante, que pegou o sujeito errado no momento errado.