O canto dos pássaros

Em meio aos ruídos desgastantes que regem a vida na metrópole, acordar com um canto alegre de um sabiá laranjeira, ou simplesmente ser surpreendido por um periquito na janela ao entardecer, é um privilégio único para os moradores do pedaço. Essa diversidade de aves é possível graças à união do Parque Ibirapuera coma área verde do Instituto Biológico, somada ao entorno arborizado da Vila Mariana. 

Esse cinturão verde proporciona à vizinhança a convivência com 156 espécies de aves já catalogadas pela Divisão de Fauna da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. São inúmeras — e até impressionam — as aves que visitam a região: pica-paus, garças, gaviões… Mas o que vem chamando a atenção de todos, segundo a bióloga Anelisa Ferreira de Almeida Magalhães, da Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre, é a araponga, ave ameaçada de extinção, cuja existência se dá em áreas florestais. “Ela descansa durante 25 dias,  alimenta-se dos frutos da figueira e fica à procura de um território para se fixar.” Outra ave que visita a área, e também está ameaçada de extinção, é o tucano de bico verde, endêmico da Mata Atlântica e que costuma passear pelo Instituto Biológico.

Além das aves residentes, avistadas o ano todo, o Parque Ibirapuera também tem sido disputado por aves migratórias, que chegam apenas em determinadas épocas do ano.  É o caso da tesourinha, andorinha-do-temporal e  juruviara, quem foram avistadas por aqui. “Essa diversidade só é possível graças à preservação da flora ao redor da Vila Mariana”, explica a Diretora da Divisão, Vilma Clarice Geraldi. Para realizar o levantamento da fauna do Parque Ibirapuera, as biólogas Anelisa e Maria Almeida S. de Carvalho acordam de madrugada para observar os pássaros. “Entre os meses de setembro e março, as aves estão em plena reprodução. Nesse período podemos flagrar os pássaros adultos carregando gravetos e alimentos no bico para seus filhotes”, indica Anelisa. Essas cenas não se limitam ao interior do parque, podem ser vistas em todo o pedaço.

“Tem pássaro que só canta nesta época”, ressaltam as biólogas, que confessam amar a profissão. Elas fazem o levantamento dos pássaros do parque uma vez por ano e, em outubro, ministram um curso de observação das aves, uma prática popular em outros países, que estimula as caminhadas contemplativas e tem se tornado um excelente instrumento em defesa ao meio ambiente: “Os melhores horários para a observação são ao amanhecer e ao entardecer”, recomendam. Experientes observadoras das aves, elas ensinam que, para aproveitar ao máximo da prática, o observador deve usar roupas discretas e ter um binóculo com abertura de 8x40mm. “A aproximação deve ser cautelosa, aos poucos, e as características das aves, como cor, bico, cauda, alimento e habitat, devem ser anotadas sempre num caderno e; se possível, sempre levar um gravador para registrar os cantos”, orientam

Em comemoração ao Dia Mundial das Aves, de 3 a 5 de outubro, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, por meio da Divisão de Fauna Silvestre, realizou no Parque Ibirapuera a 10.ª Semana Voando com as Aves da Cidade, uma prática adotada mundialmente que, por meio da contemplação das aves, tem despertado o olhar das pessoas para a preservação da biodiversidade. Iniciada em 2002, essa prática chegou à sua décima edição com uma programação repleta de atividades ambientais somadas a cursos e palestras que ocorreram durante os três dias de comemorações. Entre munícipes, palestrantes, professores, estudantes e servidores, o evento contou com mais de mil participantes, atraindo pessoas vindas de outras cidades. “Nesta oportunidade é realizada a Contagem Anual das Aves do Parque Ibirapuera, com a participação de todos os alunos”, diz Vilma.

Nos três dias, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a importância da biodiversidade, biologia, comportamento, conservação e técnicas para a prática saudável de observação das aves. Todos os conceitos e técnicas foram colocados em prática por meio de grupos de observação, que registraram as aves do parque, monitorados por técnicos e estagiários da Divisão de Fauna. Outro momento marcante foi o contato mais próximo com as diferentes espécies, flagrando e registrando cantos e ninhos em atividade, já que neste período as aves estão em plena época reprodutiva. Este ano, foram observadas 68 espécies de aves silvestres convivendo no parque. 

Muitas dessas aves, residentes ou migratórias, podem ser atraídas pela vizinhança. Com cada vez menos árvores frutíferas, basta oferecer um cardápio diversificado de alimentos: “Tais como frutas picadas e grãos, que rapidamente atrairão as aves frutívoras e granívoras — sabiás, sanhaços, saíras e rolinhas”, indica Anelisa. Outra estratégia adotada é oferecer alguma “fonte” de água, como pequenas piscinas, onde as aves adoram se banhar. Para atrair os nectarívoros – beija- flores e cambacicas — é aconselhável oferecer mel nos bebedouros de água apropriados. Mas a bióloga alerta. “É importante manter a higienização dos utensílios, trocando a bebida e a comida oferecida.” Os incontáveis cantos das aves, que sobrevoam o pedaço, podem ser identificados em dois sites específicos: www.wikiaves.com.br e www.xeno-canto.org; neste último é possível baixar os arquivos sonoros e os nomes científicos das aves.

O Campo do Barreto, nome de uma área de 239.000 m², pouco valorizado na época, e que em 1928, foi doado ao Instituto Biológico — e depois, parte destinada ao Parque Ibirapuera —,  já era conhecido como uma várzea repleta de aves. Embora a cidade tenha crescido desordenadamente, o tombamento do IB e a proximidade do parque preservaram essa riqueza ambiental da região. 

Convivemos com as cores e os cantos de 156 espécies de aves  — já catalogadas — e podemos colaborar, seguindo os conselhos da bióloga Anelise, alimentando-as para suprir a falta de árvores frutíferas, que a cada dia estão mais escassaz, devido  à  substituição  dos  casarões, e seus quintais, por altos prédios. 

Mais informações: Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre: Parque Ibirapuera, Portão 7A – Tel. 3885-6669 e 3887-2688 ou pelo e-mail [email protected]

 Edição 111 – Nov/2011

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