O pulsar da obra de Leonilson

Um dos mais expressivos artistas contemporâneos do Brasil, com trabalhos expostos nas principais galerias do mundo, Leonilson cresceu e escolheu a Vila Mariana para viver até sua morte em 1993. Suas obrass estão expostas nas principais galerias do mundo e são objeto
de estudos acadêmicos pela sua arte-poesia nas mais diversas expressões

Como um portal, a entrada da singela casa, na Rua Major Maragliano, leva-nos às coisas de José Leonilson Bezerra Dias (1957-1993), um dos mais importantes artistas da arte brasileira contemporânea. Entre seus carrinhos, isqueiros, canivetes, móveis – sempre comprados no então Lar Escola São Francisco — e muitos quadros, dá para sentir sua forte presença, que hoje, por meio de suas obras, está em museus e galerias do mundo.

Nessa casa — onde cresceu com a família — e por onde Leonilson passava diariamente, pois mudou-se vizinho, está resguardada  a obra do artista. Sob a presidência da irmã Ana Lenice da Silva, a Nicinha, também moradora da Vila Mariana, o Projeto Leonilson é uma espécie de museu, e tem a finalidade de pesquisar, catalogar e divulgar sua obra, visando a realização de um catálogo geral de sua produção artística.

Cada cômodo representa um pedaço da existência do artista. A sala guarda suas ferramentas de trabalho: máquinas fotográficas, pincel, tinta, papel… Um arquivo mantém intactas as agendas pessoais do artista, com esboços de trabalhos e projetos, que não tiveram tempo de ser finalizados. Outro cômodo mantém conservada a biblioteca particular, com seus livros preferidos e outros, sobre suas obras.

Nascido em Fortaleza, em 1957, Leonilson mudou-se com a família para São Paulo com apenas 4 anos. Ao chegar à cidade, foram morar primeiramente na Rua Vergueiro e, após três anos, fixaram moradia na Rua Major Maragliano, onde hoje está instalado o Projeto Leonilson.

Filho de pai comerciante e mãe costureira, Leonilson externou desde cedo o interesse pelo trabalho artesanal. “Todo talento da família foi para ele”, brinca Nicinha. Nas idas com o pai, Theodorino, ao centro para comprar tecidos, voltava para casa cheio de retalhos, que ganhava dos comerciantes. A mãe, dona Carmen, ensinou o menino travesso a costurar. “Nesta casa há um quartinho no fundo, onde mamãe costurava. Foi nele que Leo aprendeu a costurar e bordar; para vê-lo quieto num canto, era só dar um pedaço de retalho para ele”, recorda Nicinha.

A juventude de Leonilson foi marcada pelas tentativas de andar de skate pelas ruas, a mania de colecionar tudo que encontrava pela frente e as brincadeiras com os internos do “hospital dos loucos” bem próximo à casa da família. “Naquela época, o acesso ao manicômio era livre, e os internos saíam na rua, eles eram a sensação do bairro!”, conta Nicinha

Sempre disposto a descobrir o mundo, era um eterno curioso e passava horas folheando os volumes da Enciclopédia Barsa. Leonilson analisava com olhares atentos as figuras de anatomia do livro, desenhava muito e era um apaixonado por máquinas de escrever e fotográficas. “Léo adorava datilografar e fotografava tudo que via a sua frente.”

Aluno do colégio Arquidiocesano, Leonilson era um estudante aplicado. Ainda na infância, estudou na escola Pan-americana, fez um curso técnico de turismo, mas sua entrada definitiva para o cenário das artes ocorreu em 1977, quando iniciou o curso de Artes Plásticas da FAAP.

A paixão por colecionar objetos, que começou ainda na infância, acompanhou o artista por toda a vida. “Ele colecionava de tudo, a cada ida na feira trazia um brinquedo novo”. A coleção, quando ficou adulto, contava com tíquetes de companhias aéreas, cartões de galerias que visitava e cartões de hotéis em que se hospedava. “Chegou um momento em que os amigos, sabendo o colecionador nato que era Leo, começaram a contribuir com sua coleção”, observa Nicinha. Todos esses objetos serviam como matéria-prima de suas obras.

A carreira aconteceu sem querer. Numa viagem à Europa, o artista foi apresentado a um galerista, que ficou encantado com seu trabalho e comprou as 15 obras que levara consigo. “Leonilson ficou sem saber o que fazer, disse que tinham comprado todas as obras dele.” Foi a primeira vez que teve aquela sensação de tristeza por ter de se desapegar de seus trabalhos. “Ele sentia um vazio no peito, não gostava da sensação de vender uma obra. Na primeira vez em que vendeu, me disse: — O que vou fazer agora?”, relembra Nicinha.

Sua carreira teve início na Europa e nos Estados Unidos, para depois ser reconhecido no Brasil como um artista promissor da geração 80. Foi acolhido por Thomas Cohn, na época melhor galerista do Brasil, e por Luísa Strina, melhor galerista de São Paulo. “Leonilson foi um dos raros jovens artistas que conseguiu se manter com a venda de suas obras”, destaca a irmã.

O auge da carreira ocorreu nos anos 90, com exposições na Alemanha, Itália, Holanda, Espanha, França e no Japão. Tanto que recebeu uma exposição póstuma no MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York — consagração máxima para qualquer artista.

Apaixonado por Fernando Pessoa, Leonilson enxergou na arte a possibilidade de materializar seus sentimentos. Por meio de suas criações expressou seus anseios e frustrações amorosas de maneira sensível. Num desenho de 1990, escreveu: “Eu vejo um, eu vejo o outro, não sei qual amo mais, sob o peso dos meus amores”. Dentre suas admirações figuram os nomes de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) e da francesa Louise Bourgeois (1911-2010). Um viveu a maior parte da vida num hospício, já o outro pregava um destino trágico para todo artista.

Possuidor de um repertório amplo e um olhar afiado sobre a sociedade, Leonilson sempre buscou aprimorar seus conhecimentos. Em suas viagens pelo mundo, o objetivo passava longe de fazer turismo. Viajava em busca de algo maior, viajava para conhecer museus, exposições, cinemas, teatros, entre outras manifestações artísticas.

Com uma produção diversificada — pinturas, bordados, instalações, entre outras —, Leonilson transformou-se no maior expoente de sua geração, ao retratar de maneira sensível as diversas facetas do amor. “As obras do Leonilson eram o reflexo dele, do sentimento que ele sentia naquele momento, do amor pelos amigos e pela família. A maioria de seus colecionadores são pessoas que foram presenteadas por Leo”, informa.

Artista solitário, mas rodeado de amigos, Leonilson sempre gostou de presentear amigos e familiares com sua arte. “Leo não gostava de vender suas obras; elas não eram feitas para os outros, mas para ele mesmo. Vendia apenas porque sabia que era artista. Cada obra que vendia era um pedaço dele indo embora. Ele comercializava sua arte para bancar viagens e sobreviver, nunca teve a pretensão de enriquecer”, revela Nicinha.

Apaixonado pela tranquilidade da Vila Mariana, Leonilson viveu quase a vida toda no bairro. Após se mudar da casa da família, na Rua Major Maragliano, o artista foi morar na Rua Sud Mennucci, a menos de um quarteirão da casa da mãe. Numa casa simples e toda personalizada, fez de sua garagem um ateliê e criava de forma obsessiva, sem perder tempo com reparações.

Ele viveu na Vila Mariana até 1991, quando descobriu estar com AIDS. Por conta das constantes dores de cabeça e tonturas, Leonilson passou a trabalhar exclusivamente com os bordados, pois, devido à doença, não podia aguentar o cheiro forte da tinta. O artista lutou por três anos, até falecer em 1993. Nos últimos dois anos de vida, esteve rodeado por familiares e amigos; mesmo com a doença, criou sem parar, até mesmo no leito do hospital.

Com o Projeto Leonilson, Nicinha preserva a razão de viver do irmão, consagrado em uma geração de artistas que revolucionaram o meio artístico brasileiro com a retomada do “prazer” pela pintura. Seus trabalhos pulsantes, de cores fortes e combinações inusitadas, a princípio destacaram-se pelo figurativismo pop, cheio de humor e jovialidade. Já amadurecida, foi consagrada como obra autêntica, que buscou incansavelmente a intensidade poética individual.

Sua carreira foi curta, pouco mais de uma década; mas deixou uma vida e obra singulares, que têm como meio de expressão o amor, percebido em cada canto da casa que hoje abriga suas coisas — e nas lembranças saudosas de sua irmã, que trabalha incansavelmente para eternizar suas obras: “Não temos patrocínio nenhum. Para manter o projeto, vendemos de tempo em tempo uma de suas obras, e lançamos algumas vezes a edição de uma de suas gravuras, como a “Solitário Inconformado”, de 1989.”

Projeto Leonilson: e-mail [email protected]. Tel.: 5572.1534.   www.projetoleonilson.com.br

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