Nossa casa

Algumas atitudes que discordam da bruta realidade podem transformar muitas vidas. ]
A história da Associação Beneficente Santa Fé é um exemplo 

Em 1993, indignada com a situação das mais de duzentas crianças que viviam na Praça da Sé, a artista plástica Lílian Bomeny procurou um grupo de oito amigos, ex-conselheiros tutelares da 1º gestão da cidade de São Paulo. O primeiro passo foi saber o as crianças pensavam: “Fomos até à Praça da Sé e descobrimos que elas não queriam ficar ali”, diz Fátima, Colares Alarcon, coordenadora da casa “Vó Ilza”, onde moram as mães adolescentes. Buscaram, então, uma forma para mudar aquela situação e mostrar à sociedade que as crianças não queriam e não mereciam aquela vida. A primeira ação foi o evento “Árvore de Natal”, em parceria com a Pastoral do Menor.

Durante todo mês de dezembro, as cerca de duzentas crianças eram levadas, diariamente, por um ônibus fornecido pela Polícia Militar para um terreno próximo ao parque Ibirapuera, de propriedade da fundadora. No local, foram montados um circo e uma imensa árvore de Natal e promovidas inúmeras atividades artístico-culturais: “Logo na entrada tinha um ces- tinho onde as crianças deixavam a cola e o esmalte”. Ali, elas tomavam banho, colocavam roupa limpa, faziam as refeições e produziam os enfeites de Natal para a imensa árvore. À noite, voltavam para a Praça.

No final de dezembro, a árvore estava montada e, graças a uma empresa, a ceia de Natal garantida: “Aí , quando tudo acabou , as crianças sentaram no chão e não quiseram ir embora…”, conta Fátima emocionada. Neste momento, os responsáveis pela ação perceberam que depois de todo afeto e atenção dispensados às crianças, a vida de todos os envolvidos nunca mais seria a mesma: “Quase enlouquecemos!”. A partir daí, não houve mais sossego até que encontrarssem um abrigo para todas aquelas crianças, que queriam apenas amor e proteção. Com o apoio do Metrô, o grupo conseguiu as instalações – um barraco que servia às obras – e que montado no terreno serviu de abrigo: “O barraco improvisado era um horror, mas as crianças fizeram de lá sua casa”, lembra Fátima. O procedimento chamou a atenção da Prefeitura que firmou o primeiro convênio e possibilitou alugar a primeira casa. Doze anos depois, a Associação Beneficente Santa Fé cuida de três casas na região – com cheiro, rotina e conforto de casa – onde moram cerca de 60 crianças/adolescentes.

A Casa da Vó Ilza, à rua França Pinto, 174, estão as grávidas, entre 13 a 21 anos, acompanhadas de seus filhos. Meninas que foram vítimas de abusos domésticos, prostituição e ex- moradoras de rua que recebem, além do processo terapêutico, preparação para a vivência da maternidade precoce de forma construtiva e harmoniosa para mãe e filho. As meninas/mães são preparadas para uma vida autônoma e emancipada, que inclui a escolarização e atividades profissionalizantes.Na casa estão atualmente 9 mães e 13 crianças: “Nossa experiência demonstrou que era preciso focar cada uma das questões. A adolescente grávida, dependente de droga, ao lado de outras crianças não era sadio”, conta. A Minha Casa, à rua Frontino Guimarães, 245, abriga 21 crianças de 0 a 13 anos com graves problemas familiares, vítimas de abuso e violência doméstica.

No local, é desenvolvido trabalho terapêutico para resignificação de suas vidas e de seus familiares nos âmbitos social e pessoal. As crianças que não são reintegradas à família, são encaminhadas para a adoção ou recebem formação até chegarem a idade de 13 anos quando encaminhadas para a Casa da Juventude: “A casa precisava ter um nome e pensamos: mas casa da gente tem nome?” , conta Cláudia Magalhães, coordenadora de Parcerias e Alianças. Depois de uma votação com a criançada, chegaram ao nome: Minha Casa! A Casa da Juventude, à av. Indianópolis, 3186, abriga adolescentes com idades que variam de 13 a 18 anos, que viviam nas ruas, drogadictos com passagens pela Febem e diversas outras instituições e que são formados através da educação, esporte, cultura, saúde e lazer. Eles passam por estágios e entram para o mercado de trabalho. Moram na Casa da Juventude 20 adolescentes.

Outros dois programas de sucesso também são desenvolvidos pela Associação. O Escola Ambulante: escolas temporárias em praças públicas com a realização de oficinas, o que possibilitam o conhecimento aprofundado e ações que resgatem individualmente a criança/adolescente. E o Usina Cultural que visa uma rede de ação solidária aos jovens, que ao completarem 18 anos, perdem o direito de proteção. O projeto prevê a continuidade da capacitação para que mesmo emancipado, o jovem – principalmente as mães – possa alcançar autonomia e educar seu filho. A Associação Santa Fé, desde então, vem salvando vidas e recebendo prêmios pelo feito. Reconhecida pela ONU, foi destacada como um dos trabalhos mais importantes da cidade em 2001, pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social.

Recentemente, recebeu o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, concedido a cada dois anos – e que teve 658 inscritos – na Categoria Direitos da Criança e do Adolescente – Projeto Escola , firmando-se como uma das oito melhores do Brasil. A Santa Fé mudou a histórias de muitas crianças. Crianças como as nossas: filhos, irmãos, sobrinhos… Tão iguais, mas tão diferentes diante da indiferença de muitos e a coragem e determinação de alguns: “É preciso que a sociedade entenda que as crianças que foram privadas de cuidados, não adquiriram repertório outro que não o da brutalidade vivida. A realidade é construída por todos nós, portanto mudá-la também é nossa responsabilidade. A Santa Fé é a nossa tentativa.”, ensina, a presidente da entidade, Márcia Ventura Dias.

SÓ TEM SEDE QUEM NÃO É UMA FONTE

Os convênios que a Associação Santa Fé tem com a Prefeitura cobrem 50% das despesas. “Mesmo assim, falta leite, açúcar, ovos…”, informa Fátima. Só para termos uma idéia, ela conta que quando aparece um leite condensado é uma festa: “Como qualquer criança, elas amam doce!”. Faltam também mantimentos, principalmente enlatados, medicamentos, material de limpeza e de higiene: “Absorvente, por exemplo, é muito caro!”. Muitas voluntárias ajudam no que é possível, mas não é o suficiente. Seu Luiz, zelador do prédio vizinho, conserta o que quebra e fornece a água do poço artesiano. Dona Sueli, dona de um pequeno cabelereiro, na rua Major Maragliano, corta o cabelo das crianças: “Não posso fazer muito, mas faço o que posso. São crianças bem-educadas, como se fossem meus filhos”, diz. Algumas vizinhas, da rua Frontino Guimarães, fazem bolo ou lanchinho, de vez em quando.

Mas tudo isso é muito pouco diante do potencial que o bairro tem a oferecer. Os postos de gasolina, por exemplo, poderiam doar combustível, o que facilitaria os passeios com as crianças, dando-lhes um pouco de cultura e lazer. Aulas de reforço escolar seriam bem-vindas, como também material pedagógico: “E vovós , muitas vovós para estragar as crianças!”. Há ainda a necessidade de médicos de várias especialidades e de dentistas – alguém se habilita? De acordo com a Física Quântica, se uma borboleta bate as asas do outro lado do mundo poderá provocar um maremoto deste lado da Terra. Então, por que não começarmos a suprir as deficiências do entorno e plantar uma semente para que as gerações futuras possam colhê-la? Se cada morador puder ajudar um pouquinho – nem que seja com carinho – com certeza, estas crianças irão viver melhor, serão mais felizes e seguras e se tornarão adultos plenos e solidários. Mesmo sendo só a ponta do iceberg, esta atitude refletirá no futuro de todos nós e servirá de exemplo para outras pessoas, outros bairros e outras cidades.

Os convênios que a Associação Santa Fé tem com a Prefeitura cobrem 50% das despesas. “Mesmo assim, falta leite, açúcar, ovos…”, informa Fátima. Só para termos uma idéia, ela conta que quando aparece um leite condensado é uma festa: “Como qualquer criança, elas amam doce!”. Faltam também mantimentos, principalmente enlatados, medicamentos, material de limpeza e de higiene: “Absorvente, por exemplo, é muito caro!”. Muitas voluntárias ajudam no que é possível, mas não é o suficiente. Seu Luiz, zelador do prédio vizinho, conserta o que quebra e fornece a água do poço artesiano. 

Dona Sueli, dona de um pequeno cabelereiro, na rua Major Maragliano, corta o cabelo das crianças: “Não posso fazer muito, mas faço o que posso. São crianças bem-educadas, como se fossem meus filhos”, diz. Algumas vizinhas, da rua Frontino Guimarães, fazem bolo ou lanchinho, de vez em quando. Mas tudo isso é muito pouco diante do potencial que o bairro tem a oferecer. Os postos de gasolina, por exemplo, poderiam doar combustível, o que facilitaria os passeios com as crianças, dando-lhes um pouco de cultura e lazer. Aulas de reforço escolar seriam bem-vindas, como também material pedagógico: “E vovós , muitas vovós para estragar as crianças!”. 

Há ainda a necessidade de médicos de várias especialidades e de dentistas – alguém se habilita? De acordo com a Física Quântica, se uma borboleta bate as asas do outro lado do mundo poderá provocar um maremoto deste lado da Terra. Então, por que não começarmos a suprir as deficiências do entorno e plantar uma semente para que as gerações futuras possam colhê-la? Se cada morador puder ajudar um pouquinho – nem que seja com carinho – com certeza, estas crianças irão viver melhor, serão mais felizes e seguras e se tornarão adultos plenos e solidários. 

Mesmo sendo só a ponta do iceberg, esta atitude refletirá no futuro de todos nós e servirá de exemplo para outras pessoas, outros bairros e outras cidades. Então, o jornal Pedaço da Vila propõe: vamos iniciar esta rede de solidariedade? Comece quando for arrumar o guarda-roupa ou os brinquedos das crianças, ou mesmo ao ir ao supermercado. O importante é lembrar que aqui ao lado está a Santa Fé. Se não quiser entrar, é só colocar a feliz lembrança do lado de dentro do portão. Se tiver a curiosidade de conhecer as crianças, é só marcar uma visita e ter o prazer de ver o sorriso do Thiago, da Fernanda, do Gustavo, do Lucas, do Daniel, da Andrezza… E, o melhor, estar em paz e consciente de que você está fazendo a sua parte!

Então, o jornal Pedaço da Vila propõe: vamos iniciar esta rede de solidariedade? Comece quando for arrumar o guarda-roupa ou os brinquedos das crianças, ou mesmo ao ir ao supermercado. O importante é lembrar que aqui ao lado está a Santa Fé. Se não quiser entrar, é só colocar a feliz lembrança do lado de dentro do portão. Se tiver a curiosidade de conhecer as crianças, é só marcar uma visita e ter o prazer de ver o sorriso do Thiago, da Fernanda, do Gustavo, do Lucas, do Daniel, da Andrezza… E, o melhor, estar em paz e consciente de que você está fazendo a sua parte!

Edição 46 – Dez/2005

2 comentários sobre “Nossa casa

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