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Sucesso entre os jovens, a cultura japonesa dos animes e mangás, um mercado que movimenta milhões de dólares, conquistou definitivamente os brasileiros e tornou os dubladores de seus filmes, séries e desenhos, estrelas globais, reconhecidos e ovacionados por onde passam. É o caso do vizinho Élcio Sodré, convidado especial da J-ON CosRock, feira do setor que será realizada no final no mês na Vila Mariana

Foi no dia 18 de junho de 1908 que o navio ‘Kasato Maru’ chegou ao porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil. Muitos deles se instalaram em São Paulo, hoje a maior cidade japonesa fora do Japão, e a influência dessa cultura é parte dos costumes paulistanos, na religião ou na gastronomia.

Atualmente, podemos destacar a força cultural japonesa no sucesso dos games, animes (desenhos animados, séries de TV e filmes) e mangás (histórias em quadrinhos) que tomam conta das telinhas do computador e da televisão, além do sucesso de bandas e cantores japoneses: “Eles são bem conhecidos no Brasil por interpretar temas de abertura e encerramento de animes. Temos Hironobou Kageyama e Akira Kushida, cantores, da década de 90, de músicas de animes e tokusatsus (heróis dos filmes) antigos, como ‘Changemans’, ‘flashmans’, ‘Kamen Rider’, ‘Saint Seiya’ (Cavaleiros do Zodiaco) e ‘Maskman”, explica Camila Marotta, moradora do pedaço, e uma das produtoras da J-ON CosRock, feira da área que será realizada na Vila Mariana.

O interesse é tamanho que, de acordo com o Centro Brasileiro de Língua Japonesa (localizado na Vila Mariana), das cerca de 20 mil pessoas que estudam japonês no Brasil, 30% não possuem ascendência nipônica e, em sua maioria, são jovens interessados em entender melhor a cultura pop daquele país.

Com tanta demanda, empresas e profissionais especializados realizam feiras por todo o Brasil com o objetivo de reunir e divulgar cada vez mais esse universo.

É o caso da J-ON CosRock Fest, que, pelo segundo ano conse-cutivo, será realizada na Associação Beneficente de Osaka. O evento visa reunir em um só espaço diversos tipos de animes, mangás, games e karaokê — conhecido popularmente por AnimeKê [J-kÊ]. No local, são servidas comidas típicas, realizados workshops de caricaturas e shows de bandas tradicionais. “Os fãs, chamados de Otakus, são muitos, aproximadamente 250 mil pessoas que frequentam eventos de anime. Só para ter uma ideia, uma média de 800 mil pessoas no Brasil baixam o anime Naruto pela internet toda sexta-feira. Esse mercado fatura milhões, talvez bilhões de dólares, pois é um sucesso mundial que agrega meios de comunicação, TVs, rádios, editoras, internet, industria têxtil, comerciantes, produtoras de eventos e muitos outros setores econômicos, que são mobilizados por esse seguimento”, informa Camila.

Uma das atrações mais concorridas, não só no Brasil, mas em todo o mundo, é o concurso dos melhores cosplayers da feira. Cosplayers são fãs que têm o hobby de se vestir como os personagens dos animes para desfilarem e reproduzir uma cena preferida perante os jurados. Os vencedores ganham prêmios em dinheiro e podem ir ao Japão participar do concurso anual, que reúne os melhores cosplayers, para disputar o título de melhor do mundo!

Outra característica das feiras jovens de animes e mangás é a presença dos dubladores dos personagens de sucesso. Este ano, na J-ON CosRock Fest, o vizinho, Élcio Sodré, morador há 20 anos da Vila Mariana, é o convidado. Ele dá voz a uma série de heróis japoneses. “Meu primeiro trabalho foi uma participação no seriado Flashman. Fui tão bem que me chamaram para fazer o Sherivan,  também  oriental”, conta Élcio, que desde pequeno já gostava de dublar. “Quando era criança, adorava assistir a desenhos e imitar personagens. Modéstia à parte, eu até que fazia isso muito bem!.” Um dos desenhos a que ele assistia quando era criança e, mais tarde, veio a dublar profissionalmente, foi o Zé Colmeia.

Élcio era ator até se apaixonar por locução: “Quanto fazia a peça ‘Uma cama entre nós’, viajei com o elenco por todo o Brasil, durante um ano, passando por grandes capitais e também por pequenas cidades no interior dos estados. Nessas excursões, sempre íamos à rádio local para dar entrevistas e divulgar nosso espetáculo.” Foi quando ele se apaixonou por locução. “Eu conheci rádios; umas superequipadas, outras no meio do mato. E fui ficando cada vez com mais vontade de aprender a profissão. Quando voltei para São Paulo, no final da temporada, em 1988, fui direto ao SENAC fazer o curso. A partir daí, ingressei no mundo da dublagem”.

Com mais de 20 anos de profissão, o dublador sequer tem noção de a quantos personagens emprestou sua voz. “Muitas vezes faço 4 ou 5 filmes por dia, em estúdios diferentes. Não é sempre que dublo o papel principal. Já fiz personagens cujo filme não vi passar em nenhum lugar — mas faz parte do trabalho! Eu estou ali para fazer aquilo.” Ele conta que não sabe nem qual personagem vai dublar. “Isso só acontece quando o filme é muito importante, e o diretor liga, com antecedência, para pedir que eu o assista no cinema. Um exemplo foi Uma lição de amor, em que dublei o ator Sean Penn, um personagem muito difícil. Mas, em 99% dos trabalhos, eu só descubro o personagem quando chego ao estúdio e recebo o roteiro com as frases”. O maior desafio, segundo Élcio, foi fazer o Charada, do Batman 3: “Um personagem muito difícil e prazeroso. O ator Jim Carey é um dos mais difíceis de dublar, por ter muitas reações e expressões. Mas devo confessar que adoro dublar comédia, sou muito brincalhão no estúdio”.

Élcio assiste às cenas na língua original do filme para, depois, iniciar o trabalho de dublagem. “O diretor solta cena por cena e vamos dublando e adaptando as frases — muitas vezes, a frase dublada é muito curta para preencher toda a cena e precisamos alongá-la”. Ele destaca que a profissão é pura técnica: “Como um motorista que consegue dirigir um fusca, uma BMW e um ônibus. Já dublei desenhos como ‘Cavaleiros dos Zodíaco’, ‘Dragon Ball’ e ‘Yu-gi-oh!’, séries como ‘Lost’ e ‘24h’, e filmes como Mr. Bean e Ensaio sobre a Cegueira, e consegui fazer todos os trabalhos tranquilamente.” Mas, segundo ele, é nos trabalhos mais complexos que o bom profissional se destaca. “É aquele que sabe se doar ao personagem e colocar um pouco de suas características nele, sem nem conhecer a série ou filme.”

Diferentemente do teatro, que você faz uma peça e nem sempre sabe quando vai fazer outra, na dublagem a frequência de trabalhos é maior. Um ramo em que, quem está dentro dificilmente fica sem trabalhar. “Atualmente, estou todo dia no estúdio, seja dublando, seja dirigindo alguma dublagem. Há muito trabalho disponível”, confirma, mencionando as inúmeras feiras a que atualmente é convidado a participar em todo país.

A J-ON CosRock Fest é mais um entre os 50 eventos do tipo que ele já foi: “Já visitei cidades como Macapá, Porto Alegre e Recife, e tenho grande prazer de estar nessas feiras. No Japão, os dubladores são idolatrados como se fossem os personagens animados. Isso chegou ao Brasil há alguns anos por jovens que adoram desenhos e dão muito valor à voz dos personagens. Temos status de estrelas globais para esse público. Certa vez, entrei em um ginásio lotado em Brasília e fui ovacionado com gritos do nome de um personagem que eu dublava. Aquilo me arrepiou demais. Essa cultura dos animes e mangás vem crescendo de uma forma assustadora e tem um mercado muito bom”.

Quem não ouviu falar das bandas ‘Orange Range’, ‘Aqua Timez’, ‘FLOW’, ‘Asian Kung-fu Generation’ — ou nunca viu os personagens Naruto, One Piece, Bleach ou Death Note —, terá uma excelente oportunidade de conhecê-los na J-ON CosRock Fest, que acontecerá no dia 27 de fevereiro, das 10 às 20h, na Associação Beneficente de Osaka (rua Domingos de Morais, 1581). Ingresso antecipado por R$16 e, no dia, R$20. Informações: www.cosrockfest.com.br.

Marcelo Grimaldi