Para ouvir o silêncio

Uma orquestra desencontrada de ruídos nos acompanha noite e dia.

            Trânsito caótico, comércios, obras sem parar. O desenvolvimento das economias globais apresenta uma constante taxa de crescimento da urbanização.

            Só no Brasil, o país era majoritariamente rural até meados da década de 60. Ao longo das décadas, esse panorama foi mudando de tal maneira que já está mais do que invertido. Para 2020 é estimado que mais de 87% dos brasileiros habitem áreas urbanas perante 13% de áreas rurais. E a tendência é de que ainda mais pessoas passem a morar em cidades.

            Esse avanço da urbanização expandiu gradualmente o volume e a intensidade dos sons que nos cercam. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite de 50 decibéis diários para a manutenção da saúde da audição humana, os bairros mais movimentados chegam a registrar índices médios de aproximadamente 80 decibéis em nossos ouvidos. A exposição continuada a níveis prejudiciais de ruído podem, além de provocar perda gradual da audição, ocasionar impactos no sistema nervoso causadores de dores de cabeça, estresse e dificuldade de concentração.

            Por mais que se busquem barreiras acústicas e outras proteções para abafar o incômodo, a poluição sonora nunca deixa de estar presente de alguma forma. Nosso cenário urbano torna o ruído exterior inevitável. E por isso é premente a potencialização do nosso silêncio interior.

            Não permitir que o mundo de fora perturbe a nossa própria serenidade pode soar um desafio e tanto na prática. Contudo, possuir esse autocontrole dos sentidos é essencial para que nossas emoções não sejam arrastadas conforme as ondas e nos mantenhamos donos de nossas ações assim como o Deus Shiva não se abalava nem com terremotos que ocorriam durante sua meditação.

            A exemplo disso, conta-se que certa vez um louva-a-deus enfrentava uma cigarra, esta bem maior que o primeiro e que sempre intimidava os adversários com seu potente som característico. Ainda assim, o louva-a-deus se manteve firme, aplicando golpes rápidos e precisos para derrotar a cigarra. Foi o que teria acarretado a criação do estilo louva-a-deus, famosa posição de autodefesa no kung fu.

            As distrações não vão deixar de acontecer. Portanto deixe-as virem. Contudo, permita que deixem a sua mente naturalmente da mesma forma que entraram. Pois o que realmente deve ficar é o seu objetivo, a sua missão principal.

            E, para fortalecer essa noção do verdadeiro propósito que lhe cabe trilhar, é preciso silenciar. Silenciar o corpo, silenciar o espírito. Mente que se esvazia de modo a despertar o autoconhecimento necessário para que as nossas ações se tornem equivalentes às nossas pretensões. De maneira que os golpes do louva-a-deus estejam em plena sincronia com o objetivo de preservar sua vida.

            Assim poderemos começar a controlar nossas atitudes ao invés de sermos dominados por elas. Para enfim nos tornarmos donos de nosso próprio destino.

Colunista: Leandro Duprê Cardoso

Fontes:

http://educacao.globo.com/geografia/assunto/urbanizacao/urbanizacao-brasileira.html

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/fields/349.html

https://www.senado.gov.br/noticias/jornal/cidadania/PoluicaoSonora/not03.htm