Uma gentil surpresa em Atibaia

Gentileza, qualidade do gentil. Ação nobre ou distinta, elegância, galantaria, formosura, amabilidade.

Nas últimas férias, estive com a família em um hotel-resort-spa em Atibaia. Como, na minha concepção de férias, cabelo, barba e vaidade ficam de fora da bagagem, decidi ir pra cidade, ver se encontrava algum salão de cabeleireiro aberto para banho e tosa.

Assim Luci e eu fomos no ¨centrin¨… algumas lojinhas, camelôs… e alguns cabeleireiros. E, espremido entre lojinhas e um estacionamento…, achei um barbeiro! Pra quem não sabe, barbearia é um local onde, antigamente, homens iam cortar os cabelos, aparar barba e bigode. Pensei comigo “Why not? Deve ser barato e rápido…”, e entrei no salão.

Logo percebi que aquele era um momento incomum, especial. Começando pelos detalhes: chão, espelhos, paredes, silêncio e jornal do dia. Cadeiras de aço e couro amaciado pelo tempo. Não tocava Madonna nem havia revista de fofoca na espera. Mas pincel de crina de cavalo, navalha afiada, limpeza de UTI, gel e trim, pente de osso. ¨Boa tarde, o cavalheiro deseja barba e cabelo?¨ Peraí… eu estava de chinelos de dedo, bermuda de surfista, camiseta do Timão, parecendo o lobisomem e cheirando a mato… ‘comassim’ cavalheiro?

Esse foi o primeiro ato da inesperada Aula de Gentileza. Ele era um senhor de 80 e altos anos, elegante e bem aprumado, gel no cabelo, mãos asseadas com loção, aparência tranquila e firme, habilidade de cirurgião, roupa impecável, sapatos brilhantes, jaleco alvo-mais-que-a-neve. E o perfume… em todo o ambiente… o inconfundível Leite de Colônia, o que me arrebatou diretamente para minha infância, onde outro mestre-barbeiro, Sr. Aderbal, na zona norte de São Paulo, fazia suas gentilezas todos os meses, por anos a fio, sobre a querida face e a cabeça de meu pai, enquanto eu ficava ali, maravilhado. Puro encantamento. A partir daí, esse senhor demonstrou, em cada toque, em cada palavra, singela conversa sobre a beleza e brevidade da vida, algo que havia muito tempo não recebia – GENTILEZA.

Em cima do balcão, uma foto em preto-e-branco, em frente da outra cadeira de barbeiro, vazia. Nela, um galã, estilo Clark Gable, velava elegantemente sobre o trabalho realizado, Fiscal de Gentileza. Informação dolorida: era o parceiro-amigo-irmão que havia falecido há poucos dias… Por quase 70 anos, trabalharam juntos naquele salão. Doeu só de pensar, sete décadas de gentilezas fraternais separadas subitamente. Num desejo infantil de tentar consolá-lo, decidi perguntar a ele, com minha presunção “emebeática” (dos que pensam que são mais do que são depois de fazerem MBA), se já não era hora de arrumar um novo sócio. Informatizar o ambiente? Climatizar? Marketing, internet, agenda on-line?

¨Veja o senhor. Trabalho há mais de 70 anos como barbeiro, sou a terceira geração. Comecei ajudando meu pai, a partir dos 10 anos de idade. Hoje corto o cabelo de bisnetos de meus clientes. Simplesmente não encontro substituto para meu irmão¨, ele me disse, entre uma gentil navalhada e outra. ¨Cabeleireiros tem muitos, mas barbeiros, meu amigo, esses não se encontram mais. Barbeiros são aqueles que amam a arte de uma barba bem-feita, com qualidade; que sabem atender o cliente; que têm orgulho da profissão. Entrevistei muitos cabeleireiros, mas não consigo achar nenhum barbeiro. Outro dia entrou um rapaz aqui querendo trabalhar, mas com os tênis sujos… como pode ser isso?¨

Filhos? Sim, dois. Bem, eles não quiseram seguir a profissão, pois infelizmente decidiram tornar-se médicos e trabalhar nos melhores hospitais de São Paulo. Cardiologistas. Uma pena. Quem seguirá este gentil legado? E quem ensinará gentileza às próximas gerações? Tentei então estender meu tempo com ele para aprender mais sobre gentileza, por isso fui inventando mais maneiras de ficar ali, absorvendo nobreza… Barba, claro! Nariz, orelhas, sobrancelhas, sim, sim!

Eu mal podia esperar para que minha esposa voltasse da feirinha para apresentá-la ao professor de gentileza. Ao chegar, Luci prontamente se encantou com o charme do mestre, e perguntou-lhe de onde vinha aquele cheiro tão gostoso. Galante, ele pediu-lhe um minuto e, saindo da sala por uns instantes, voltou trazendo um frasco novo de Leite de Colônia para presenteá-la. Puxa vida, que saudade dos tempos em que ser gentil era normal. Sem interesse, ser antes de fazer.

Tive que sair da cadeira, pagar e voltar ao hotel. Deixei minha inesperada aula de gentileza mais leve e mais humilde. Preciso aprender a ser mais gentil. Se o corte ficou bom? Não faço ideia! No final da sessão de “Imersão de Gentileza” durante as férias, perguntei ao mestre o seu nome… e… para minha surpresa, ele respondeu: ¨Gentil, às suas ordens¨. Seu nome é Gentil! Barbearia do Gentil!