Impressões sobre o Irã – parte I

Chegamos no Catar no dia 28 de fevereiro, à noite, para ficar aquela e mais três noites. Na verdade, pretendíamos arrumar algum jeito de fazer um bate-e-volta para o Bahrein, mas, com a Primavera Árabe e os constantes protestos (que culminaram no envio de tropas sauditas e dos Emirados Árabes ao país), tivemos que abortar o projeto. Então, seriam três dias inteiros em Doha, meio de bobeira. Se soubéssemos, teríamos ficado mais tempo em Teerã, com muitas maravilhas para conhecer.

Catar é uma miniDubai: menor, menos extravagante, com menos construções e com uma minoria árabe que comanda o país e um monte de imigrantes, na maioria indianos e filipinos, trabalhando para eles.

A primeira impressão que o Catar nos deixou foi de extrema eficiência. Isso porque, do momento em que o avião pousou (considerando que estávamos na última fileira), até o momento em que chegamos ao nosso quarto no hotel, demoramos apenas 50 minutos. Assim, se alguém estiver planejando viajar para a Ásia, a Qatar Airways é uma excelente pedida, assim como fazer um pit-stop em Doha.

Apesar de existir indícios de que a região já era habitada em 4.000 anos a.C., quase nada ficou documentado. Na realidade, a história do Catar é a história dos nômades beduínos, de maneira que se sabe mais pelos hábitos que ainda são seguidos pelos vivos (corrida de camelos, falcoaria, hospitalidade etc.) do que pelos documentos ou monumentos — praticamente inexistentes — dos mortos. 

Os portugueses chegaram a passar por lá, mas os turcos os expulsaram no século XVI e Catar permaneceu sob o seu poder por mais de quatro séculos. Al-Khalifa, a família real que ainda controla o Bahrein, controlava a região até a chegada da família Al-Thani, que permanece no poder do Catar até hoje. Foi o terceiro emir da família que expulsou os turcos da região, depois de a Turquia ter entrado na Primeira Guerra Mundial no lado oposto ao da Inglaterra. A Inglaterra, por sua vez, garantiu proteção ao Catar em troca da promessa de que o seu governante nunca iria negociar com um poder estrangeiro sem a sua permissão, acordo esse que durou até a Independência, em 1.o de setembro de 1971. 

Até a descoberta do petróleo, nos anos 30, Catar era um país marcado pela miséria, má-nutrição e doença. Posteriormente, com a renda do petróleo, veio a se tornar o país com maior renda per capita do mundo. Isso foi conseguido a partir do controle de eventuais extravagâncias por parte da família real e com a instituição de um welfare state. O xeique atual assumiu em 1995, acelerando a modernização por meio de reformas políticas e institucionais, permitindo que as mulheres dirigissem e votassem, encorajando a educação e o treinamento e abrindo o país ao turismo.

Em suma, no espaço de 70 anos, o país saiu do completo anonimato para se tornar uma das maiores forças regionais, com direito a um canal de televisão que hoje é visto no mundo inteiro, a Al-Jazeera. Recepciona, ainda, diversos eventos internacionais e, no período em que estive lá, todos os dias o xeique e sua esposa receberam convidados proeminentes, como o ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, e o Presidente da Alemanha. O ex-Ministro Celso Amorim também estava circulando por lá, provavelmente para organizar a palestra que o Lula iria fazer dali a alguns dias.

Dos lugares que conhecemos, os pontos altos foram: o Museu de Arte Islâmica, a Al-Corniche e o Souq Waqif. O impressionante Museu de Arte Islâmica, desenhado por IM Pei (o arquiteto da pirâmide do Louvre), fica em uma plataforma no Golfo Pérsico e tem o formato de uma fortaleza pós-moderna. Por dentro, também é lindíssimo. A exposição das peças é feita de maneira elegante, de forma a valorizar cada aspecto e detalhe das obras de seu acervo. O museu abriga a maior coleção de arte islâmica do mundo, coletada em três continentes.

Para nós, que fomos ao Irã e não conseguimos visitar o Museu Arqueológico de Teerã, foi especialmente legal ver em Doha diversas obras originárias do Irã. Há, também, exposições temporárias: a que começou em 11 de março vem exibindo as obra-primas do Rijksmuseum de Amsterdã.

Ao lado do Museu de Arte Islâmica, há o Mathaf, Arab Museum of Modern Art. O prédio estava muito deserto e não conseguimos saber onde seria a sua entrada. Pensamos que ele ainda não estava aberto, mas depois li na revista da Qatar Airways que estava, sim. Pena. Ficou para uma próxima vez.

A Al-Corniche é a avenida principal de Doha, à beira-mar. Ao lado dela, um caminho de 8 km para pedestres, bem gostoso de andar ou correr pela manhã. À noite já é mais complicado, porque o caminho não está iluminado em todos os trechos. Pelo menos pudemos ver o símbolo da cidade (a concha com a pérola, já que o país era grande produtor de pérolas) e o Museu de Arte Islâmica iluminados.

Perto do Museu, fica o Souq Wakif.  Souq é o equivalente ao bazar dos persas. Há séculos já existia um souq nesse mesmo lugar, onde os beduínos levavam suas ovelhas, cabras e lã para trocar por itens essenciais para a sua sobrevivência. A forma atual surgiu no final do século XIX e o souq quase foi demolido. Por sorte, alguém enxergou o seu potencial turístico e a área inteira foi remodelada para parecer um souq do século XIX. Ali se pode encontrar de tudo, e todos o frequentam (locais e turistas). Há lojas de souvenir, de tecidos, de roupas, até de animais. Há diversos restaurantes de várias nacionalidades (iraniana, italiana, libanesa etc.). Há cafés, onde se pode fumar a shisha (como se chama o narguilé na região). 

Só não encontrei lugares que servissem álcool. Nos Emirados Árabes, pode-se comprar uma licença para vender álcool, mas ela é bem cara. Assim, os lugares que o servem costumam cobrar mais caro que os demais. Acredito que no Catar também deva ser assim. Deve ter sido por isso que paguei apenas R$ 37,00 por uma salada grega gigante, um tabule, um quibe, uma coalhada, pães árabes e uma água de 1,5l no Restaurante Al-Tawash. Aliás, ainda que não fosse barato, o restaurante valeria muito a pena, já que foi montado como uma tenda beduína. Outras dicas: para um jantar romântico, o italiano Cinque Sensi e, para fumar shisha, o Café Asherg.

Também aproveitei para tomar bastante sorvete da Häagen Dazs, que custava bem menos do que aqui no Brasil. Dei-me ao luxo até de tomar o fondue de sorvete.

E o que resulta do cruzamento entre Veneza e Bellagio (o hotel em Las Vegas)? O Shopping Villagio, que fica em um complexo esportivo com estádio e um prédio em formato de tocha, que está terminando de ser construído. No meio do Villagio, para fazer jus à inspiração veneziana, há canais e gôndolas, nas quais se pode passear. Fake total.

Para comprar, além das lojas de marcas tradicionais, maiô muçulmano e abaya.

Também fomos visitar a Cultural Village Katara, por causa de uma propaganda em um shopping em que estivemos. Não sabíamos o que era, mas, como não estávamos fazendo nada, fomos até lá. Trata-se de um complexo de entretenimento construído à beira do Golfo Pérsico, com diversos restaurantes internacionais muito bonitos, um teatro ao ar livre que lembra um anfiteatro grego, o Instituto de Cinema de Doha etc. Foi lá, inclusive, que ocorreu o último Festival Tribeca de Cinema de Doha.

Não sei se foi porque era durante o dia, mas o complexo estava quase vazio. O pior foi sair de lá: não havia ponto de táxi e tivemos que caminhar um pouco até uma avenida, onde também não estava passando nenhum táxi. Já estávamos ficando desesperados. Mas eis que, à nossa frente, entre os prédios em construção, tal qual um oásis no meio do deserto, surgiu o Hotel Intercontinental. Fomos até lá e comemos um lanche, olhando para a piscina e nos refrescando no ar-condicionado. Pena que ainda era cedo, porque parece que os bares desse hotel, principalmente o Paloma, são os hotspots da cidade.

Acho que, à medida que forem sendo construídos os prédios nas redondezas, o complexo irá ficar mais movimentado, inclusive durante o dia. Assim, se for a Doha, não deixe de checar Katara. E, se houver alguma apresentação no teatro, melhor ainda, porque o lugar é maravilhoso.

Outros lugares que podem ser interessantes para visitar: as comunidades pesqueiras de Al-Ruweis e Al-Zubara, Al-Khor e seus falcões, e, ainda em Doha, o Forte, a Heritage House e o Museu Nacional — porém, este estava fechado para reforma quando fomos. Voltamos para São Paulo no dia 3 de março.