As cores, a arte e a espiritualidade da Índia

A Índia é um colorido só! É mundo de sensações, aromas, religiões, gente por todos os lados, barulhos incessantes, experiências intensas e cores vivas que colorem desde os mais requintados e suntuosos templos aos mais singelos lares — da pobreza à riqueza —; tudo é colorido e há arte e espiritualidade dando cor e vida a tudo, por todos os lados!

Tive o privilégio de estar na Índia em 2011, realizando um sonho antigo de infância, ou talvez de outras vidas. Viajei por diversos lugares – de norte a sul do país — seguindo um roteiro um tanto intuitivo, visitando lugares que sempre tive vontade de conhecer. Passei um tempo num Ashram (local de retiro e meditação) localizado em Mangarh (pequeno vilarejo próximo a Lucknow), estive em Varanasi (uma das cidades mais antigas e religiosas do mundo, localizada às margens do Rio Ganges), Agra (cidade do Taj Mahal), Rishikesh (cidade localizada ao norte da Índia, numa área onde o Ganges tem águas limpas e cristalinas), em Kerala (ao sul da Índia), no Ashram da Amma (líder espiritual mundialmente conhecida por seu caloroso e disputado abraço), onde filas quilométricas diárias se formam, de gente do mundo todo, para receber o abraço dela, e, finalmente, retornei à famosa Delhi (cidade onde tudo acontece ao mesmo tempo e onde fica localizado o aeroporto internacional, de onde retornei ao Brasil).

Nesse período em que estive na terra por lá, conheci diferentes culturas e religiões e vivi as mais diversas experiências, mergulhando no universo hinduísta e vivenciando intensamente o que cada momento e cada lugar por onde passei me ofereciam a degustar; desde as adversidades, como o desafio de ser mulher na Índia, o trânsito caótico e sem regras, a dificuldade com comida,  água e higiene (bem precários por lá); às mais ricas experiências, como a riqueza cultural (fiz aulas de dança e música clássica indiana), os Ashrams, as aventuras (fiz rafting no Rio Ganges, em Rishikesh,  as vivências (visitei indianos em suas casas, vi a vida e a morte, a riqueza e a pobreza, um caos de sons e cores, buzinas incessantes contrastando com música e rituais das mais diversas crenças e religiões), tudo ao mesmo tempo! Tudo muito intenso e mágico!

O conforto de uma vida urbana e ocidental, com higiene, tecnologia e facilidades, pode ser muito bom e prático. Mas é nas adversidades que muitas forças ocultas que vivem em nós vêm à superfície e tornam nossa vida mais rica. Ao nos libertarmos de padrões, nossa vida se expande e permite que o fluxo da vida nos leve além do conhecido, das aparências e do mundo concreto — essa é a beleza e a maior riqueza da Índia a meu ver: é onde mora a espiritualidade que o Oriente transborda sobre nós e que o Ocidente esconde, com tantos estímulos de consumo e futilidades que nos distraem da beleza e da qualidade divina que habita o interior de cada um de nós. O mais incrível é que essa espiritualidade transbordante da Índia estava disponível por todos os lados, em todas as castas e classes sociais.

E o que mais atraía meus olhos, por todos os lugares por onde passei, eram as intensas e vivas cores da Índia, parte dessa espiritualidade vívida e transbordante, cores vibrantes que procurei captar das mais diversas formas. Meus olhos pareciam olhos de criança em loja de brinquedo, atentos ao colorido em todas as suas manifestações e formas, que eu guardei em registros fotográficos, das roupas e dos objetos que comprei … eu queria trazer a Índia toda; cada pedacinho, cada detalhe. Procurei beber ao máximo daquele néctar mágico e colorido e captar ao máximo aquela energia incrivelmente caótica e ao mesmo tempo tão encantadora e apaixonante.

E os frutos de toda essa experiência foram imensos! A Índia foi como um impulso, como um gatilho para um processo de transformação interna que me trouxe de volta algo que sempre viveu em mim: a Arte! 

A Índia foi um verdadeiro resgate de alma e hoje posso dizer que — além da sensação de déjà vu que tive, como se eu já tivesse vivido lá — algo sem explicação encontrou ressonância em meu Ser e tomou forma. Telas começaram a brotar quando voltei ao Brasil, uma atrás da outra, num ritmo criativo incrível, todas com imagens e cores que tanto inspiraram a artista plástica que sempre esteve em mim, esperando por uma oportunidade para aflorar, e que a Índia, docemente, acordou!

Agradeço à Índia pela inspiração, pelo banho de cores e por ter me mostrado, através de sua simplicidade, sua beleza e espiritualidade, como a presença de espírito e a entrega permitem à vida fluir e encaixar tudo de forma tão harmônica, e tão poética, como numa melodia musical, ou numa pintura, cujas cores podem alegrar  e inspirar outros tantos olhos e almas!