Olhar pela Vida

Quando Dorina Nowill perdeu a visão, aos 17 anos, sua madrinha profetizou: “os cegos vão agradecer”. Ela conhecia muito bem a sede de saber e de ensinar da afilhada que, hoje, entusiasmada ressalta: “a todo momento estou aprendendo”. Com esses sentidos, Dorina desbravou seu caminho e o de milhões de deficientes visuais em todo mundo. Dia 28 próximo, Dorina Nowill completará 84 anos e a fundação que leva seu nome, 57. A princípio, o objetivo da instituição era divulgar o livro em sistema braille, mas com o passar do tempo começou a desenvolver inúmeros serviços nas áreas de educação, reabilitação, produção e distribuição de livros, pesquisa e prevenção à cegueira, entre muitas outras atividades consideradas necessárias ao atendimento de portadores de cegueira ou baixa visão.

Dorina é uma pessoa ativa, bem-humorada e extremamente elegante: “Eu adoro roupas e jóias, gosto de combinar. Minhas cores preferidas são o verde e o azul”, confessa. Ela conta que, em 1936, quando perdeu a visão devido a uma hemorragia nos dois olhos, aceitou o seu destino sem pesar. Enfrentou dificuldades – ficou 6 anos em tratamento que exigia repouso – mas seguiu em frente, e formou-se professora primária no Colégio Caetano de Campos e especializou-se através de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. ”Sempre fui apaixonada por história, literatura, filosofia e línguas, mas o que realmente queria ser era médica”. Na época, os livros em Braille eram raríssimos – no Brasil ainda não havia máquinas para a impressão no sistema – e os poucos que existiam eram europeus.

O primeiro livro que Dorina leu em braille foi em francês: “Olha como a vida prepara a gente, no Externato Elvira Brandão aprendi francês e datilografia, o que me ajudou muito depois que perdi a visão”, conta. O conhecimento era essencial no universo de Dorina e, cercada de pessoas interessadas, com o apoio do governo e ajuda financeira e técnica da American Founda- tion for the Over- seas Blind, organizou a Fundação para Livros de Cegos no Brasil para produzir livros e distribuí-los gratuitamente: ”Eu não fiz força para que tudo acontecesse, a vida foi me levando e favorecendo os acontecimentos”, diz. Hoje a fundação Dorina Nowill para Cegos, uma área de 7.135 m2, na na rua Diogo de Faria, 558,$$#%1% dispõe de uma moderna imprensa Braille, que distribui livros didáticos, de literatura e informação para 800 escolas e entidades de atendimento em todo país. Além disso, produz livros falados e obras literárias que são gravadas em fitas cassete no estúdio da fundação. De lá, a revista Veja sai semanalmente para seus assinantes de todo Brasil. Para se ter uma idéia do trabalho, só no ano passado a entidade produziu cerca de 9 milhões de páginas em braille e 5.600 exemplares de livro e revista falada.

A fundação realiza cerca de 1500 atendimentos por mês – foram 18 mil em 2002 – e conta com uma equipe de 79 funcionários e 270 voluntários. Os deficientes passam por uma avaliação para saber o grau de dificuldade em que se encontram e uma equipe multidisciplinar composta por profissionais de Pedagogia, Psicologia, Neuropediatria, Oftalmologia, entre outras especialidades, oferece programas individualizados para que crianças, jovens, adultos e idosos encontrem condições para uma vida independente, orientada, que inclui até colocação profissional. $$#%2% Dorina Nowill, casada há 53 anos, 5 filhos e avó de 12 netos, venceu todos os impedimentos e construiu uma instituição que é referência internacional. Ela atribui seus 57 anos de trabalho à Providência Divina, mas dedica-se diariamente à fundação. Serenamente, aceitou seu destino e com coragem e força de espírito beneficiou o destino de muitos, $$#%3%implantando uma série de mudanças nos serviços destinados às pessoas com deficiências visuais no Brasil e em outras partes do mundo.

A instituição que dirige coleciona vários prêmios nacionais e internacionais. O último, o prêmio Bem Eficiente, recebeu em maio, concorrendo com mais de 429 entidades. “Quatro palavras me acompanham: tolerância, resignação, persistência e paciência”. Esse é o conselho de uma bela senhora que está sempre pronta a aprender e ensinar. Só não a incomode às 21h: “Não perco um capítulo da novela!”

Edição 18 – Jun/2003