A criança de zero a 2 anos

Inicialmente, falaremos um pouco sobre a fase que antecede ao nascimento de uma criança e que, com certeza, influenciará diretamente o desenvolvimento infantil e a criação daquele ser, que está ligada à melhoria do mundo como um todo.

A gravidez desejada (ou não) remete a mulher a uma série de transformações, muito além das corporais. Surge um turbilhão de sentimentos. Emoções e sentimentos se mesclam à vinda daquele pequeno.

O tipo de parto, a época gestacional, tudo isso pode modificar e mesmo alterar o ciclo natural da vinda daquele bebê. Um parto prematuro, por exemplo, pode dar origem a sequelas, às vezes, irreversíveis à criança, mesmo sob boa estimulação. Uma malformação poderá provocar muitos outros problemas àquele ser que mal nasceu e já recebeu um prognóstico delicado.

Porém, a grande maioria das gestações transcorre de maneira adequada, com nascimentos tranquilos e, consequentemente, neonatos que conseguem manter uma boa amamentação; aprendem, desde logo, o que é noite e o que é dia e possibilitam um pós-parto mais tranquilo.

A diversidade entre as crianças, dependerá de vários fatores – ambientais, nutricionais, hereditários, dentre outros. Cada região e cada local, segundo costumes e hábitos, poderá diferir no trato infantil. Embora a fisiologia de uma criança responda mais ou menos igual em qualquer local, a forma como é tratada certamente repercutirá no seu desenvolvimento.

A relação dos pais, desde a barriga, refletirá sobremaneira, não só no parto em si, mas também na sua evolução. Um bebê pouco estimulado poderá demorar a andar e falar por falta de um vínculo mais afetivo.

A amamentação é uma das vinculações mais importantes que se estabelece entre mãe e filho. Contudo, não necessariamente uma criança não amamentada terá problemas de comportamento no futuro. Tudo depende da forma como se estabeleceram as mamadas, mesmo que através de uma mamadeira. Olho no olho, colinho, afeto, são pressupostos fundamentais no crescimento sadio de um bebê.

A criança pequena precisa de um cuidado integral e de uma grande disponibilidade emocional, especialmente nos primeiros meses, quando se estabelecem as ligações afetivas primárias e determinantes para o futuro.

Dentro dos limites da Medicina Antroposófica, os três primeiros anos são fundamentais no florescimento de três sentidos superiores: a fala, o pensamento e o sentido de “eu”. Esses pressupostos ajudarão no primeiro setênio (ciclo de sete anos) da criança, no qual devemos passar a ela a visão de que “o mundo é belo” – isso auxiliará e interferirá nos demais setênios de sua vida, para a formação de um “eu integral”.

Se buscarmos a visão de Freud sobre o primeiro ano na vida de uma criança, teremos a fase oral que, segundo esse autor, é a primeira fase de desenvolvimento infantil, cujo principal foco é o prazer na amamentação através da sucção. De um até três anos, temos a fase anal, que seria o segundo estágio da teoria psicossexual, onde o ânus seria a zona erógena primária e o prazer seria oriundo do controle de esfíncteres da bexiga e do intestino. É muito importante que nesse período seja respeitado o momento correto da retirada de fraldas da criança, sendo a partir dos 2 anos, o momento mais adequado, por uma questão de maturação. É muito inadequado pressionar a criança a fazê-lo antes dessa época e, mesmo após, deverá ser feito gradualmente, de preferência, iniciando-se com o dia, sem pressões sociais ou da escola.

Tem pais que gostam de falar na precocidade de seus filhos: “meu filho já faz isso, meu filho faz aquilo”. Tomemos cuidado com o que estamos impondo às crianças pequenas antes da hora. Isso acarretará problemas futuros. Não podemos tratá-las como “reis e rainhas” intocáveis, sem limites, como também o contrário não é adequado – negligenciarmos os cuidados fundamentais que a criança merece ter.

Na atualidade, a maior parte dos pais trabalha fora o dia todo, o que torna necessário cuidados de terceiros. Bons avós, ou quem os substitua, podem auxiliar, e muito. Mas não percamos o foco das funções parentais. É preciso que brinquem com a criança, cuidem do que come, o que veste; saberem dizer sim ou não, com clareza e responsabilidade.

Tudo isso cabe, primariamente, a pais atentos. E as escolinhas? Claro, que elas são necessárias, aliás auxiliam muito após os 2 anos de idade, período no qual a criança precisa socializar e conviver com outras de sua idade. Alguns pais precisam deixar seus filhos precocemente em escolas/creches e é preciso cuidado na escolha, além de não deixar de lado os cuidados efetivos, tanto emocionais quanto físicos e fisiológicos, imaginando que as professoras e a estrutura dos locais escolhidos estão ali para suprirem todas as necessidades de seus rebentos, pois isso poderá acarretar num grande problema. Entendam: a educação vem de casa, nada substitui um jantar em família, por exemplo.

Talvez um dos grandes desafios nesta época de home office junto com filhos em casa, seja exatamente não ter esse espaço que acolhe seus filhos enquanto trabalham. De um lado, a questão da subsistência, da necessidade de manutenção do trabalho e de como pagar as contas. De outro, a necessidade daquele pequeno ser, que depende integralmente de terceiros – antes, a creche/escola, agora, os pais com jornada dupla concomitante.

Uma coisa é certa: essa fase inicial da vida de nossos filhos voa e deixa muitas saudades… pobre daquele que deixa passar em branco um período tão importante.

Quando assumimos uma responsabilidade como essa, é como se Deus nos emprestasse provisoriamente um bem e pedisse que cuidássemos dele.

Os bons frutos vêm de germinações plantadas com carinho, atenção e irrigação. Para que possamos colhê-los, temos que fazer a nossa parte. Se eu não dispender um tempo no cuidado de um filho pequenino, como poderei reclamar se ele não se tornar um bom ser humano?

Os lares podem ser desfeitos, os casais podem romper, mas os filhos permanecem e isso é fundamental, mesmo em casos de separações. Quantas alienações parentais já vislumbramos? Na atualidade e em meio a pandemia, um número crescente de separações aconteceu, com filhos, muitas vezes, na mais tenra idade. É uma nova realidade que nos faz pensar nas opções dos casais e na falta de maturidade sobre como tratar as crianças.

Hoje a informação está muito mais disponível, porém, nem por isso as escolhas são as mais saudáveis – talvez fruto justamente de gerações pobres em afeto, que passam isso adiante, de pais para filhos.

Reflitamos sobre as modificações da estrutura familiar e o que podemos fazer para que nossos bebês façam a diferença no dia de amanhã. O mundo mudou, mas que não seja esse o motivo para abdicarmos do bem maior que é cuidar dos pequeninos. Deles surgirão grandes homens, que podem transformar vidas se bem-criados e educados, se forem alvo da construção de vínculos afetivos fortes e seguros.

A decisão é nossa! Só nossa!

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