ENTREVISTA
- Edição 83 - Mai/2009
Denise Delfim

Maurício Pinterich

O Pedaço da Vila foi ao encontro do Subprefeito da Vila Mariana com a pesquisa realizada com os leitores do jornal - publicada na edição de aniversário (novembro/2008). A partir dos problemas levantados no estudo, destacamos as perguntas da entrevista a seguir:

Pedaço da Vila: O senhor chegou a poucos meses na Vila Mariana. Qual sua impressão do bairro?

Maurício Pinterich: É a de um bairro extremamente adensado do ponto de vista urbano, com uma situação bastante diferente da que eu tinha quando atuava na subprefeitura do Butantã. Aqui eu tenho 2/3 da população do Butantã. Lá tinha em torno de 500 mil habitantes. Mas ao mesmo tempo, tenho pouco menos da metade da área geográfica de lá. Isso mostra o quanto aqui é mais adensado... Percebo uma região com população de nível socioeconômico muito bom e sem tantas discrepâncias e contrastes sociais, com exceção de algumas pequenas favelas e cortiços, que a gente tem, mas são poucos. A totalidade da população é de classe média, media alta e até mesmo alta. Vejo ausência de necessidade de grandes urbanizações, quase tudo está construído.

P.daVila: Por outro lado, o bairro abriga muitos moradores de rua ...

M.P.: Há um grande número que não são itinerantes, são moradores de rua que se alojam aqui na região por conta do público que circula  nas estações do Metrô, nas clínicas e hospitais. Isso é um problema sério...  Realizamos duas reuniões envolvendo todos os órgãos municipais e até alguns estaduais, como Polícia Civil e Militar, além da Guarda Civil Metropolitana, Conselho Tutelar, coordenadorias de saúde, educação e assistência social, algumas ONGs ligadas ao trabalho com moradores de rua e o pessoal da Presença Social nas Ruas. Fizemos isso buscando a formação de um grupo com representantes de todos esses órgãos, para fazer um trabalho rotineiro e sistemático com os moradores de rua. Porque a questão do morador de rua está entremeada de criminalidade ou de coisas ilícitas. O que acontece é que nem sempre é um problema só da assistente social. Então estamos buscando um grupo que trabalhe permanentemente unido. Todos estão muito entusiasmados! Acredito que está faltando link entre as várias instituições do bairro e eu pretendo fazer esse link.

 P.daVila: Além dos moradores de rua, o Largo Ana Rosa e a rua Domingos de Moraes estão tomados pelo comércio ambulante que gera grandes quantidades de lixo nas calçadas e muitas reclamações.

M.P.: A forte presença do comércio irregular está me preocupando muito. Estou remanejando recursos do meu orçamento para contar com uma equipe de fiscalização terceirizada. Tenho feito um trabalho muito próximo com a Guarda Civil Metropolitana. O comando da guarda e da Secretaria de Segurança me deu a liberdade para fazer um planejamento de ações com a inspetoria regional. Comecei com a revisão do número de guardas civis que estão disponíveis e por onde eles estão atuando. Vamos fazer realocações para ter mais pessoal disponível naquilo que é prioritário. Lógico que tudo é importante, mas tem coisas que estão gritando e uma delas é a presença de muitos ambulantes na região. As equipes que estou contratando vão trabalhar junto com a Guarda Civil diariamente, rotinei-ramente, trazendo relatório com o número de apreensões, numeração de sacos, mercadorias apreendidas. A ideia é fiscalizar os ambulantes. Quanto aos moradores de rua, vamos encaminhá-los e tentar ajudá-los de alguma forma.

P.daVila: Como promover um entendimento entre os moradores prejudicados pelas novas linhas do Metrô?

M.P.: Logo que cheguei aqui recebi a notícia da implantação das linhas, que tem causado uma grande angústia na comunidade local, principalmente no trecho que será contemplado e afetado pelo Metrô, pelas estações e pelos respiros. Eu também me adiantei para organizar junto com a presidência do Metrô uma reunião no dia 6 de maio, quando os técnicos poderão esclarecer à comunidade exatamente onde ele vai passar, as áreas que serão atingidas e outras informações. Estou fazendo um esforço grande de empreender aqui uma aproximação muito forte com a comunidade.

P.daVila:É o seu estilo de gestão?

M.P.: Sempre gostei de trabalhar assim. Ao longo dos 17 anos que tenho de executivo na vida pública, aprendi que trabalhar com planejamento estratégico e tendo sempre a comunidade participando é uma das formas de errar menos, pois é a comu-nidade que sabe o que precisa e quais são os seus problemas. Nós vamos sistematizar isso, vai virar rotina, e a partir daí, com o orçamento demonstrado, com muita transparência para todos, vamos apontar o que fazer. Acho que é uma maneira muito legal de trabalhar e que deu certo na minha gestão no Butantã. Afinal de contas, ouvir a população é muito importante em qualquer lugar e aqui não vai ser diferente. Dia 25 de maio, temos agendada uma reunião aqui com 14 associações de moradores, diferentes entidades da região e a imprensa.

P.daVila: E com relação àquelas reclamações que precisam ser resolvidas fora da Subprefeitura, como por exemplo, junto à CET, e que até para conseguir uma resposta é complicado?

M.P.: Aquilo que é da nossa competência, nós podemos priorizar. Aquilo que é responsabilidade de outros órgãos, nós faremos ponte para a comunidade chegar até eles. Eu envio o ofício e colho as demandas, mesmo as de outras áreas que não são as nossas. É demanda da subprefeitura e temos de cobrar os responsáveis pelo problema. Isso, eu sei, ajuda os outros órgãos também, que têm a subprefeitura como um olhar detalhado de cada bairro.

P.daVila: Recebemos mensalmente inúmeras

reclamações sobre as calçadas: buracos,

raízes, estacionamentos do comércio irregular etc. Em um bairro com grande concentração de idosos, hospitais e entidades em prol a deficientes não é uma medida urgente?

M.P.: Há a necessidade de continuar com o trabalho de acessibilidade e melhoria dos passeios públicos. Acho que aqui isso já foi bem desenvolvido e nós temos a obrigação de continuar e ampliar principalmente nos quadriláteros onde estão os hospitais, os acessos ao Metrô e as diversas entidades que temos na região. Do ponto de vista da fiscalização o que eu posso e devo determinar é que a nossa Coordenadoria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano coloque os nossos 14 agentes vistores, cada um no seu setor, notificando os passeios irregulares. Cada agente tem 80 quadras. Estamos fazendo uma divulgação interna com algumas dicas de perfil para alguém que seja do quadro dos servidores e queira ser um assessor distrital. Esse assessor vai ser meu relações públicas, meu olheiro, em cada distrito. Para fazer contato com a comunidade, para andar e fazer fiscalização. Olhar, pesquisar, relatar os problemas. O assessor distrital foi uma experiência que fiz no Butantã e deu muito certo. Ele fica meio que cuidando das demandas que chegam de cada distrito, pois é um universo muito grande e eu não consigo seguir tudo. Tenho certeza que nós temos que aumentar a fiscalização.

P.daVila: Os moradores do pedaço convivem com a favela na rua Mário Cardim há 40 anos. Mas depois que a comunidade começou a trabalhar com o lixo reciclável, recebemos inúmeras reclamações de que a via virou um lixão a céu aberto...  

M.P.: Acredito que só existe uma maneira de resolver o problema. Preciso me aproximar de seus moradores, conhecê-los, marcar uma reunião e já levar a preocupação com a incomodidade que estão causando e ajudá-los a se organizar melhor. A gente podia pensar na urbanização da favela. Fazer ruas de acesso para caminhão de lixo, sistema de esgoto e eliminar os gatos de luz. Eu já fiz uma solicitação para ver se tem programa de urbanização para alguma favela do bairro. O importante é lembrar que as pessoas que moram lá trabalham no pedaço e são importantes para a Vila Mariana.


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