ENTREVISTA
- Edição 78 - Nov/2008
Denise Delfim

Paulo Antonio Gomes Cardim

Pedaco da Vila: A tradição da família Cardim pode ser conferida pela quantidade de ruas da cidade com este sobrenome. Qual é sua origem?

Paulo A. Gomes Cardim: A família Cardim é de procedência inglesa: Robert Cardim, inglês, casou-se com a portuguesa Joana Fernandes, dando início à linha genealógica da família. João Pedro Gomes Cardim foi o primeiro membro a estabelecer residência no Brasil, casando-se com Ana Amélia Montclaro, com quem teve três filhos, dentre eles, Pedro Augusto, fundador da Academia de Belas Artes. Mas o próprio João Pedro era homem ligado às artes: abandonou o seminário em Portugal para dedicar-se à carreira artística no Brasil e escreveu, ao longo de sua vida, peças e óperas que foram encenadas tanto em sua terra natal quanto naquela em que passou a morar. Tenho certeza de que podemos dizer que minha família esteve sempre ligada às artes, de forma que me parece muito natural que a história dos Cardim não possa ser contada sem que se conte também um pouco da história da arte.

 

P.daVila: O surgimento do Belas Artes foi uma consequência da ligação da família Cardim com a arte?

P.A.G.C.: Pedro Augusto, o fundador da Academia de Belas Artes (que viria a se tornar Centro Universitário em 2002), era um homem intimamente ligado à vida artística de São Paulo. Foi ele quem apoiou, entre outras coisas, a construção do Teatro Municipal e a criação da Academia Paulista de Letras. Foi natural, portanto, que ele fundasse uma academia de ensino de artes em 1925. Inicialmente, a Belas Artes oferecia apenas três cursos: Pintura, Escultura e Gravura (hoje reunidos em um único curso de graduação, Artes Visuais), mas ao longo dos anos, com a qualidade do ensino consolidada, foi possível passar a oferecer outros cursos. Hoje, quando vemos o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, é possível ainda reconhecer os ideais de Pedro Augusto preservados – a nossa tradição-, mas adaptados à nova realidade e contexto atual – as nossas inovações.

P.daVila: Qual o desafio, atualmente, de uma instituição de ensino voltada à área de humanas?

P.A.G.C.: Refletir, repensar, questionar, propor novas atitudes e visões é essencial para a formação do aluno-cidadão, principalmente em um momento de mudanças tão acentuadas e aceleradas como o que vivemos atualmente. A valorização da máquina diante do homem faz com que muitos percam de vista o valor mais importante que nos permite o convívio social: nossa humanidade. Para uma instituição de ensino como o Belas Artes, este é o grande desafio, ou seja, lembrar aos alunos e à comunidade que, independente do que acontece ao nosso redor, não podemos perder de vista conceitos que vêm de longa data e são responsáveis por grandes conquistas do homem.

P.daVila: A instituição de ensino trabalha a Educação apenas internamente ou existe uma relação mais ampla com seu entorno?

P.A.G.C.: Não há mais modelos de instituição de ensino que possam ser completamente separados da sociedade, porque formar um aluno é, também, formar um cidadão, o que não se atinge se houver isolamento. Desta forma, o Belas Artes possui uma política de "mão dupla": ao mesmo tempo em que busca abrir sempre seus eventos para a comunidade, quer sejam exposições, palestras etc., vai até a comunidade de forma ativa, promovendo campanhas de conscientização e responsabilidade social, tanto na forma de promotor como apoiador. Ao mesmo tempo, como instituição de ensino superior, não precisa limitar-se somente ao ensino universitário e pós-universitário: a Central de Extensão oferece cursos livres, dentre os quais vale citar "Arte na Maior Idade", que, mais do que simplesmente um passatempo, desperta nos alunos conceitos estéticos da arte que podem utilizar em suas vidas.

 

P.daVila: O Centro Universitário Belas Artes desenvolve vários projetos sociais. Quais são eles?

P.A.G.C.: Ao falarmos de projetos sociais, é essencial mencionar o Projeto Belas Artes – Arte e Inclusão, iniciado há uma década e que prova, a cada dia, seu sucesso ao promover a inclusão de jovens deficientes por meio das artes; nem poderia ser de outra maneira, tendo-se em vista a história de nossa instituição. Há alguns anos, também, o Trote Solidário Belas Artes tornou-se uma importante iniciativa para conscientizar os alunos de sua formação como cidadãos.

Por fim, não posso deixar de citar a Biblioteca Cidadã, que, além de promover coleta de alimentos, roupas e brinquedos para instituições carentes, recentemente passou por uma grande mudança para ampliar seu atendimento a deficientes. Diversos equipamentos e softwares foram adquiridos para atender a este público com necessidades específicas.

 

P.daVila: E o Centro de Capacitação ao Trabalho da Pessoa com Deficiência?

P.A.G.C.: Ele foi inaugurado recentemente e é parte do Projeto Belas Artes – Arte e Inclusão, que vem expandindo sua atuação devido ao sucesso de suas ações. É um espaço destinado à profissionalização e inserção no mercado de trabalho de pessoas com deficiências. Esta iniciativa é muito importante porque hoje, apesar da legislação prever espaço para deficientes no mercado de trabalho, muitos ainda não estão qualificados para assumir os cargos oferecidos. Como o início das atividades deste Centro deu-se apenas no dia 16 de outubro deste ano, ainda não podemos falar em resultados concretos, mas estou certo de que em breve o Belas Artes poderá comemorar. Aliás, a simples criação deste Centro é uma grande conquista para todos nós, que trabalhamos durante muito tempo para conseguir montar um projeto que pudesse sair do papel com grandes possibilidades de sucesso.

 

P.daVila: Como presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), que avaliação o sr. faz do atual sistema de ensino superior no país e quais são os principais desafios do setor?

P.A.G.C.: O maior problema do sistema de ensino atualmente é que educação ainda não está entre as prioridades do governo. Ela está sendo usada como ferramenta política eleitoral, sem que resultados concretos possam ser vistos. Ou seja, é preciso que Estado e sociedade tomem consciência do impacto futuro provocado e tomar atitudes imediatas para reverter este cenário. Isto gera uma série de obstáculos que as instituições precisam superar para que consigam oferecer um ensino de qualidade e acessível à população.

Também é preciso ter em vista os mecanismos de avaliação criados para classificar o ensino das instituições de ensino superior, que, no intuito de buscar uma solução rápida para satisfazer a necessidade de um padrão de referência, cometeram alguns equívocos. Assim, o desafio acadêmico em busca da qualidade torna-se um esforço para atender aos padrões estabelecidos por estes mecanismos, que geram maior custo, e também para atender as expectativas dos alunos, hoje com um perfil completamente diferente, que muda em alta velocidade, resultados do fluxo de informação constante que se estabeleceu.

Certamente, estes são fatores que influenciam profundamente na educação, mas iniciativas para reverter o quadro já podem ser vistas e estou otimista que este quadro irá mudar.

 

P.daVila: O Pedaço da Vila desde o início contou com o apoio cultural do Belas Artes em seus projetos. Para o sr. qual a importância de um jornal de bairro?

P.A.G.C.: Estamos vivendo um momento de bombardeio de notícias, muitas das quais não afetam nossa vida direta ou indiretamente. Em meio a uma produção constante de conteúdos pelos veículos de imprensa, fica difícil filtrar e ler aquilo que nos interessa e está mais acessível. Acredito que o jornal Pedaço da Vila cumpra justamente este papel diante dos moradores da região, que é o de informar sobre aquilo que está próximo, ao redor, de forma que outros veículos ainda não conseguem, sem, claro, perder de vista o contexto global. Os 7 anos, agora comemorados, são a prova de que os moradores querem esta informação e celebram o êxito do Pedaço da Vila.


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