ENTREVISTA
- Edição 76 - Set/2008
Cauã Luz

Dr. Onofre Alves Neto

Médico, professor, anestesiologista e especialista numa das maiores causas de incômodo da população mundial, ele preside a Sociedade Brasileira de Estudo da Dor (SBED), sediada na Vila Mariana. Aqui, fala do trabalho e projetos da entidade, das pesquisas e avanços sobre o tema, explica os variados tipos de dor e dá dicas de como combatê-la ou atenuá-la. E avisa: ninguém sobrevive sem dor

Pedaço da Vila: O que é a dor?

Onofre Alves Neto: Atualmente, os estudiosos da dor utilizam a definição escrita pela IASP (International Association for the Study of Pain) que diz que "dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada ou descrita em termos de lesões teciduais". Ou seja, a dor é uma experiência pessoal, desde já ficando implícito que depende de cada um e que a parte emocional é importantíssima. Cada um reage ou responde diferentemente ao mesmo estímulo doloroso.

 

P.daVila: Então existem pessoas mais suscetíveis à dor do que outras...

O.A.N: Dor é um sintoma, e não uma doença, que tem a finalidade boa no sentido de "avisar", de "alertar" que alguma coisa está errada no organismo. Obviamente, existe outro tipo de dor, que geralmente é a dor crônica. Ela já não tem mais a função de "avisar", de "alertar", causando sofrimento. Então, as pessoas reagem diferentemente à dor, pela própria definição. As que sofrem de depressão, por exemplo, têm facilidade de sentir mais dor do que outras que praticam esportes regularmente.

 

P.daVila: As mulheres são mais fortes à dor do que os homens?

O.A.N: As mulheres sofrem muito mais dor do que os homens, além de sofrerem as dores próprias das mulheres, como a dor do parto, a cólica menstrual, as dores da mama, entre outras. Existem doenças como a fibromialgia que acomete quatro vezes mais mulheres do que homens. Embora não se tenha uma comprovação científica para explicar, se aceita geralmente que as mulheres ostentam a propriedade de serem mais resistentes às dores do que os homens.

 

P.daVila: Existem dores "normais", aquelas que não são patológicas?

O.A.N: Como a própria definição diz, dor é uma experiência desagradável, portanto sentir dor não é normal. Obviamente nenhum ser humano pode sobreviver sem sentir dor. Os casos de "agenesia à dor", ou seja, pessoas que nascem sem a propriedade de sentir dor, no entanto acontecem raramente. Mas essas pessoas imunes à dor morrem muito cedo, precocemente, exatamente porque não "sentem dor". Qualquer infecção, qualquer problema de saúde pode levar à morte porque a pessoa, sem sentir dor, não tem condições de procurar o médico e tentar identificar a causa do sofrimento. A dor aguda sempre tem a função biológica boa, normal, que é a de avisar, alertar e chamar a atenção para alguma coisa que possa estar errada no organismo.

 

P.daVila: Fale um pouco do trabalho da SBED.

O.A.N: A Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, fundada em 1983 - há exatos 25 anos -, na cidade de São Paulo, é composta por profissionais de diferentes áreas: médicos, enfermeiras, psicólogos, dentistas, fisioterapeutas e religiosos. Todos com o objetivo de estudar a dor e propor o tratamento possível e adequado. A SBED tem mais de 3.000 associados em todo o Brasil e uma de suas finalidades é promover um congresso brasileiro, a cada dois anos, para divulgar os mais recentes conhecimentos acerca de dor, para todos os interessados. Então, trata-se de uma entidade multiprofissional, não exclusivamente médica.

 

P.daVila: Quais prejuízos a dor traz ao homem?

O.A.N: Dor é um sintoma de sofrimento. Os prejuízos são desde pequenos até a morte por suicídio. Geralmente a dor, se não diagnosticada e tratada, pode levar a reações em vários setores do organismo. Afeta o coração, levando à pressão alta e ao infarto; o cérebro, com ruptura de vasos da cabeça e hipertensão intracraniana; os olhos, da hemorragia até a cegueira; e os rins, com hipertensão e parada de funcionamento.

 

P.daVila: Quais os tipos de dores e as mais comuns?

O.A.N: Existem a dor aguda, que acontece abruptamente, e a dor crônica, que dura mais de três ou seis meses. Há também outras três divisões de dor: a somática é a do organismo como um todo; a dor neuropática é aquela que se segue a uma lesão ou trauma de um nervo; e a dor visceral que tem origem nas vísceras do organismo, como no abdome e no caso da dor da apendicite, por infecção. Já as dores mais comuns são a dor de cabeça (cefaléia), a dor nas costas (lombalgias, hérnias de disco etc), além da dor por infecção por herpes zooster, causando o que chamamos de neuralgia pós-herpética.

 

P.daVila: Quantas doenças refletem na dor de cabeça?

O.A.N: São 270 tipos de dores de cabeça classificadas. As doenças que se manifestam pela dor de cabeça vão desde, as mais graves, aneurisma, tumor e hematoma cerebral, até as alterações menores da vista, como miopia, e problemas de dentição.

 

P.daVila: Pesquisas indicam que 30% da população mundial sofre de dor crônica...

O.A.N: Pensando que esta prevalência mundial seja igual para o Brasil, não é absurdo se pensar que mais de 50 milhões de brasileiros tenham um tipo de dor crônica. Ou seja, uma dor que dure mais dos três ou seis meses. É a dor de cabeça, a dor nas costas, a neuralgia pós-heperética, a dor do câncer etc. Todo médico procura a causa da dor, mas se não encontrar, ele tem a obrigação de tentar aliviar o sofrimento de várias maneiras. A forma mais simples é usar medicamentos chamados de coadjuvantes. São antidepressivos, anticonvulsivantes e anestésicos locais que auxiliam no alívio de um sintoma doloroso. Só o médico tem a formação para tentar descobrir a causa de toda dor. E, mesmo se não encontrá-la ou puder eliminá-la de vez, ele deve continuar tratando o paciente.

 

P.daVila: Outra indica que 80% da população sofre de dor na coluna...

O.A.N: Dados epidemiológicos registram que cerca de 70 a 80% das pessoas terão, em algum momento de sua vida, uma dor nas costas de várias origens. Desde uma simples torção, até doenças mais graves como uma hérnia de disco ou mesmo tumores "apertando" os nervos da coluna. Como toda dor, a das costas, seja de origem postural, deve ter uma consulta médica e ser bem avaliada para se achar a causa não só para tratar, mas principalmente para evitar complicações futuras.

 

P.daVila: E a dor emocional? Como tratá-la?

O.A.N: Um tipo de dor importante e freqüente é justamente a dor de origem psíquica e emocional. Ela não deixa de ser uma dor, com todas as suas conseqüências. A dor de origem psíquica é rara, mas é sempre verificada pelos médicos. Pois, diante dessa possibilidade, o tratamento já não é mais com um analgésico forte, como a morfina, mas sim pela orientação psíquica, através de várias técnicas, como o uso de cognitivo-comportamentais e análise.

 

P.daVila: Como conviver com a dor nos mais diferentes níveis? Como combatê-la?

O.A.N: O médico, diante de qualquer dor, sempre procura a causa dela. Muitas vezes não se encontra a causa específica. Mas toda dor tem um tratamento, mesmo que seja para aliviar ou diminuir. Quando não se consegue eliminar a causa que gera a dor, todo o médico tem a obrigação de promover algum alívio para ela, tornando-a suportável ao paciente. É possível combater todo tipo de dor, de diferentes maneiras: usando remédios, métodos alternativos como acupuntura, massagem, bloqueios nervosos, ou até mesmo cirurgias para "cortar" o caminho da dor.

 

P.daVila: Qual país mais sofre de dor no mundo?

O.A.N: Não se sabe, mas uma forma de se estudar e avaliar o cuidado que o país tem com quem sofre de dor é pelo consumo de remédios como os opióides, derivados do ópio. É o caso da morfina e metadona. Países como a Dinamarca e Suécia têm um consumo considerado o ideal. O Brasil é um dos países que menos utiliza remédios como a morfina no mundo, mostrando que o tratamento da dor não é completo e bem feito.

 

P.daVila: Quais os medicamentos considerados de ponta, atualmente?

O.A.N: Acabou de ser realizado na cidade de Glasgow, na Escócia, o 12º Congresso Mundial de Dor, em que mais de 5.000 pesquisadores de dor de todo o mundo estiveram presentes e apresentaram suas últimas descobertas. Não há nenhum novo"remédio milagroso" para tratar a dor, mas sabe-se cada vez mais que a prevenção e o diagnóstico precoce são o mais importante. O tratamento de qualquer dor, até o seu completo alívio, é fundamental para evitar que uma dor vire crônica, ou seja, que dure para o resto da vida. Descobriu-se, recentemente, que o nosso organismo e sistema nervoso central se alteram e se adaptam a uma situação de dor crônica quando uma dor aguda não é cuidada adequadamente.

 

P.daVila: O que é o projeto da SBED chamado "Hospital Sem Dor"?

O.A.N: É um projeto importantíssimo porque, mesmo dentro de um hospital, muita gente continua sentindo dor, freqüentemente desnecessária. Tem o objetivo de implantar nos hospitais do Brasil o projeto "Dor como 5º sinal vital". Normalmente, num hospital, todos os pacientes têm os quatro vitais medidos regularmente: pressão arterial, freqüência cardíaca, freqüência respiratória e temperatura do organismo. A idéia é implantar em todas as unidades médicas, principalmente na enfermagem, a "medição da dor". Ela seria feita no mesmo momento em que a enfermeira for medir os quatro sinais do paciente. A medição da dor se daria pelo uso de escalas da chamada Escala Análogo-Visual. Por esse método, o próprio paciente teria a oportunidade de avaliar a sua dor. A enfermeira faria o registro junto com os outros sinais, permitindo que o médico ou quem tiver a responsabilidade de analisar conheça o "tamanho" da dor do paciente em períodos marcados, geralmente a cada seis horas.

 

P.daVila: O senhor está à frente da organização do 8° Congresso Brasileiro de Dor - 2008. Quais temas serão discutidos na oportunidade?

O.A.N: O 8º Congresso Brasileiro de Dor (8º CBDor) é organizado pela SBED e será realizado no Centro de Convenções da cidade de Goiânia, de 15 a 18 de outubro deste ano, contando com a participação de cerca de 20 conferencistas internacionais e de mais 100 palestrantes de todo o Brasil. O evento abordará todos os aspectos que interessam à dor, nas mais diferentes especialidades. Temas como dor neuropática, políticas públicas no tratamento da dor, dor pós-operatória, dor na mulher, dor na AIDS serão tratados. Todas as informações referentes ao congresso podem ser obtidas pelo site: www.8cbdor.com.br.


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