ENTREVISTA
- Edição 71 - Abr/2008
Cauã Luz

THAÍS DAS NEVES FRAGA MOREIRA

 

THAÍS DAS NEVES FRAGA MOREIRA

A médica e infectologista responsável pelo Ambulatório de Viajantes da Unifesp, orienta sobre a importância de se tomar vacinas antes de seguir viagem, seja para roteiro de aventura, lazer e trabalho no Brasil ou no exterior. Fala também sobre as doenças mais comuns para quem viaja e como preveni-las e sobre a dengue, febre amarela, HIV, entre outras enfermidades que acometem o homem do século 21

Pedaço da Vila: Como surgiu o Ambulatório de Viajantes da Unifesp?

Thais das Neves Fraga Moreira: Quando realizamos uma viagem, estamos expostos a ambiente, alimentação e atividades diferentes das que fazemos no nosso dia-a-dia e isso pode nos colocar em maior risco para aquisição de doenças infecciosas e não infecciosas. Hoje, com a globalização, o número de viajantes tem crescido muito. Estima-se que mais de 650 milhões de viagens internacionais são feitas anualmente no mundo. Já havíamos observado isso em nosso setor de imunização, onde a procura pela vacina de febre amarela - que no estado de São Paulo é uma vacina de viajante -, cresce ano a ano. Muitos desses viajantes que nos procuravam iriam fazer viagens com riscos diversos e precisavam de orientações sobre outros tipos de doenças, situações e até receber outras vacinas para viajantes. Achávamos que eles necessitavam de um atendimento mais completo. Criou-se então a parceria do Departamento de Infectologia, Disciplina de Infectologia Pediátrica e o Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIE), que resultou na formação do Ambulatório dos Viajantes em julho de 2007.

 

P.daVila: Qual o objetivo do ambulatório e como ele funciona?

T.N.F.M: A proposta é fornecer atendimento gratuito a indivíduos que irão viajar para o exterior ou para qualquer local do Brasil e que estejam interessados em receber informações de saúde sobre os riscos associados à sua viagem. Atendemos também pacientes que retornam com alguma doença ou sintoma de sua viagem. Nosso atendimento é feito no setor de imunizações CRIE-Unifesp para que, após a consulta, as vacinas disponíveis sejam aplicadas no mesmo local. É necessário fazer agendamento da consulta pelo telefone 5084-5005 e levar a carteira de vacinação no dia do atendimento. O endereço é rua Borges Lagoa, 770.

 

P.daVila: Quanto tempo antes da viagem o paciente deve se consultar no Ambulatório de Viajantes?

T.N.F.M.: O tempo recomendado é de no mínimo um mês, assim dá para atualizar a carteira de vacinas e o viajante tem tempo para procurar remédios e ítens que forem indicados na consulta. Se o viajante possui algum problema de saúde ou é idoso, o ideal é que a visita seja feita alguns meses antes. Assim poderemos solicitar exames e ajustar medicações, quando necessário.

 

P.daVila: Que tipo de viajante tem procurado o ambulatório?

T.N.F.M.: Aparecem os mais variados tipos de viajantes: são caminhoneiros, famílias com crianças, estudantes, diplomatas, missionários, pessoas que pretendem praticar esportes de aventura, entre outros. Os destinos de viagem também mudam bastante: diversas regiões do Brasil, África, Ásia e Europa. Para cada um deles, fazemos uma orientação personalizada, considerando o roteiro escolhido.

 

P.daVila: Quais os tipos de doenças que podem ocorrer durante uma viagem?

T.N.F.M.: A doença mais comum dos viajantes é a diarréia. Por isso orientamos na consulta como selecionar os alimentos e líquidos que serão consumidos na viagem para diminuir a chance de contrai-la. Outras doenças são as transmitidas por insetos (febre amarela, dengue e malária), por água e alimentos contaminados (febre tifóide e hepatite A), doenças de transmissão respiratória (gripe e meningite), por mordidas de animais (raiva) e por contato sexual ou sangue/secreções (HIV e hepatite B).

 

P.daVila: Para quais dessas doenças já existe vacina?

T.N.F.M.: Existe, no Brasil, vacina para hepatite A e B, febre tifóide, raiva, febre amarela, gripe e meningite tipo A e C. Porém, não são todos os viajantes que vão precisar de todas essas vacinas. A indicação delas depende de vários fatores como o tempo e tipo de viagem e tratamentos médicos que o viajante esteja realizando no momento.

 

P.daVila: Além das doenças infecciosas, quais os outros problemas que o viajante pode ter durante seu roteiro?

T.N.F.M.: Pode ocorrer, por exemplo, agravamento de sintomas de doenças que a pessoa já possui, como asma e alergias. Nesses casos, orientamos algumas medicações que devem ser levadas na viagem. Outros aspectos que analisamos são os riscos associados a esportes de aventura, como trekking, mergulho, escaladas, roteiros com altas altitudes ou com neve.

 

P.daVila: Mesmo vacinado a pessoa pode contrair doenças? Quais?

T.N.F.M.: Sim. Em primeiro lugar, nenhuma vacina tem eficácia de 100%. Então, mesmo se a pessoa receber determinada vacina, existe o risco de desenvolver a doença, ainda que muito pequeno e, por vezes, desprezível. Vale lembrar que muitas vezes uma vacina evita formas graves de determinada doença e não todas as formas. Um exemplo disso é a BCG que evita as formas graves e disseminadas de tuberculose, como a meningite tuberculosa, mas ela não tem proteção comprovada para evitar tuberculose pulmonar.

 

P.daVila: Há casos de desenvolvimento de sintomas da doença após a aplicação de vacinas. Isto quer dizer que é possível uma criança contrair a poliomelite depois de ser vacinada?

T.N.F.M.: Existe um tipo de vacina que chamamos de vacina com vírus ou bactérias vivas atenuadas. Essas vacinas são produzidas a partir do enfraquecimento do microorganismo de tal forma que, quando aplicadas em uma pessoa, ele consigam gerar apenas anticorpos protetores, mas não a doença. A vacina contra poliomielite (do Zé Gotinha) é uma delas. No entanto, se aplicadas em pessoas que tenham problema no sistema de defesa (imunodeficiência), esse agente, mesmo muito enfraquecido, pode gerar uma doença. Para essas pessoas usamos então as vacinas com vírus "mortos" , inativados.

 

P. daVila: Todas as vacinas são realmente necessárias ao nascer? Quais benefícios e prejuízos elas eventualmente podem causar?

 

T.N.F.M.: As vacinas são meios seguros e eficazes de evitar doenças. Geralmente elas foram criadas para evitar doenças graves e muito comuns. E isso é um enorme benefício para o indivíduo e também para a saúde do país. As crianças são mais vulneráveis a bactérias e vírus circulantes no ambiente e é por isso que um grande número de vacinas deve ser feito na infância. Quanto mais cedo se inicia o calendário vacinal, melhor. Hoje, ao nascer, toda criança deve receber a BCG, que protege contra tuberculose e a Hepatite B. Quando essa vacina é aplicada ainda no berçário, ela protege contra a transmissão do vírus da mãe para a criança, caso a mãe seja portadora de Hepatite B. Todas as vacinas têm algum risco ou evento adverso, mas é importante ressaltar que eventos adversos graves são muito raros. As reações mais comuns são febre, dor e inchaço no local da aplicação.

 

P.daVila: Em cada idade (bebê, criança, adolescente, adulto e idoso), qual vacina deve-se tomar?

T.N.F.M.: O Ministério da Saúde orienta quais as vacinas recomendadas e fornecidas gratuitamente para cada idade, de acordo com os Calendários de Vacinação (veja tabela na seção VOZinhança). Além das vacinas descritas no calendário, é recomendável realizar na criança as vacinas contra pneumococo (Pneumo-7 valente), meningite (Meningocócica C conjugada), catapora (Varicela) e Hepatite A.

 

P.daVila: O calendário de vacinação é padrão em todos os países?

T.N.F.M.: Não. Os calendários de vacinação são definidos por cada país de acordo com doenças mais prevalentes na região, com suas prioridades em saúde e também situação sócio-econômica. Algumas vacinas encontram-se em todos os calendários do mundo, como a contra o tétano. Já outras existem apenas em alguns países, como a vacina contra pneumonia (Pneumo-7-Valente) ou contra a meningite (Meningocócica C conjugada). Nos Eua as crianças tomam essas duas gratuitamente, enquanto aqui no Brasil não. Já em países africanos, por exemplo, o esquema de vacinação é bem precário.

 

P.daVila:Diante do recente surto de febre amarela, devemos ou não tomar sua vacina preventiva?

T.N.F.M.: A vacina de febre amarela deve ser aplicada nas pessoas que moram ou vão viajar para áreas de risco. Pessoas que moram e vão permanecer em áreas sem risco da doença, como a cidade de São Paulo, não devem tomar a vacina. Pois, apesar de raro, existe o risco de eventos adversos graves associados à vacina de febre amarela.

 

P.daVila: Existe algum estudo para se criar futuramente alguma vacina contra a dengue?

T.N.F.M.: Sim, esse é um grande problema de saúde pública e já existe vacina em desenvolvimento contra a dengue. Está em fase avançada de estudo, mas não há previsão, pois os testes podem demorar.

 

P.daVila: A médio e longo prazo, quais doenças hoje incuráveis poderão ser prevenidas com vacinas?

T.N.F.M.: Várias doenças infecciosas estão sendo pesquisadas para desenvolvimento de novas vacinas, dentre elas: dengue, malária e o HIV. Mas ainda sem previsão. Resta aguardar.

 

P.daVila: De antigamente para hoje em dia, das áreas rurais para a vida urbana, a importância da vacina mudou? Quem vive nas grandes metrópoles está sujeito a quais doenças?

T.N.F.M.: Claro que os riscos de aquisição de doença mudam de acordo com a região e com as condições de vida que temos. Observamos o risco de febre amarela em pessoas que moram próximo a regiões de mata, por exemplo, e não dentro das grandes cidades. Porém o risco de doenças infecciosas existiu no passado e continua existindo hoje em todas as regiões. As vacinas continuam tendo um enorme papel na prevenção de doenças e, com o seu desenvolvimento e maior segurança, elas têm importância cada vez maior. As pessoas que vivem nas grandes cidades geralmente convivem com muitas pessoas, nos trens, ônibus, nas ruas, e têm um risco aumentado de doenças transmitidas por via respiratória, tais como a gripe, a catapora, entre outras. Dependendo das condições sanitárias, também há risco de adquirir doenças transmitidas por água contaminada como a Hepatite A. Por isso, é preciso se prevenir em qualquer lugar e tempo.

 


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