ATITUDE
- Edição 69 - Fev/2008
Denise Delfim

Arte pra quê?

Falamos muito da arte e de seu destino em nosso país. E ai vem a notíaia de que arrombaram as portas do MASP e duas obras importantíssimas foram roubadas para serem vendidas no mercado negro. Falar de arte, nos dias de hoje, não é tarefa das mais fáceis. Até porque a arte hoje é menosprezada em relação às outras ciências, pois a ela somente é conferido o valor estético e, quando não, fica sob o julgo de classes de alto poder aquisitivo, que dela se apropriam. Mas afinal, Arte pra quê? Qual é, em verdade, a sua primeira função dentro de nossa sociedade?

Segundo Sri Aurobindo, o primeiro uso da Arte, e o mais baixo também, é o estético. O segundo é o intelectual ou educativo e, finalmente, o terceiro uso, e mais nobre, é o espiritual. A estética é de imensa importância, pois é através dela que o ser humano consegue expressar-se até atingir um elevado grau de refinamento, o que lhe permitirá enxergar além da estética, ou seja, a beleza. Sim a beleza! Não há viva alma neste planeta que, portando de suas faculdades normais, não goste e não se sinta bem diante do belo. Aliás, este é um ótimo termômetro para avaliarmos nosso estado interior e tudo aquilo que nos rodeia. É importante enfatizar, que não se deve confundir beleza com riqueza. Em nossa sociedade consumista, a beleza está sempre associada ao luxo e esquecemos que a natureza, que é talvez, a maior expressão da beleza, está permanentemente exposta de forma gratuita e, quase sempre, revestida de simplicidade. Basta que tenhamos olhos para ver! Quantas vezes, engarrafados em nossas ruas, olhamos para o esplendor e para a beleza de uma antiga e majestosa árvore, cimentada em nossas calçadas? Quantas vezes olhamos para o céu e enxergamos o brilho das estrelas ou acompanhamos as fases da lua? Há muitas expressões artísticas que fazem parte da natureza, que estão ao alcance de nossos olhos, que são oferecidas pela mãe terra de forma gratuita e generosa, porém, quase sempre, não notamos sua existência. Deixamos que elas passem desapercebidas, perdidas no meio de nossas tarefas cotidianas.

A arte, que é ministrada no currículo escolar serve para que possamos aprender a enxergar a vida de forma bela. Esta é, em primeira instância, o significado da arte na educação. Olhar o mundo e senti-lo belo é uma das tarefas a que a arte se propõe dentro das escolas. A segunda instância, que é de uma importância ímpar, consiste em desenvolver os dois lados do cérebro e ampliar nossa visão de mundo.

Cultivar o belo em nossas vidas é uma atividade importantíssima. A arte e a cultura andam de mãos dadas e, numa cidade como São Paulo, é necessário resgatarmos os traços culturais impressos em sua paisagem urbana, tais como nossos antigos prédios, praças públicas com seus monumentos, museus, parques, ruas e casas, mas eles deveriam estar impregnados de beleza e simplicidade. É neste ponto que conseguimos entender qual é o significado espiritual da arte. Quando nos conectamos com a beleza, automaticamente ativamos dentro de nós as chaves internas do bem estar e da conexão com todos os seres vivos e com a natureza. Passamos a enxergar o outro, não como desconhecido, mas buscamos ver neles o que há de belo e interessante. Fazemos isso com freqüência quando viajamos. Quando buscamos a cultura de outros povos, estamos nos abrindo para a diversidade. Nicholas Roerich dizia que a arte e a cultura unirão o mundo, pois só a estima e a apreciação de culturas diferentes poderá assegurar a compreensão dos povos e, consequentemente, a unidade e a paz de forma permanente. Para tanto, em 1929, ele propôs um pacto de Paz, ocasião em que adotou a bandeira da paz, a qual foi resgatada como um símbolo especial visando a proteção de todos os tesouros culturais do mundo. Esta flâmula deveria estar presente em todos os museus e instituições artísticas e culturais a serem preservados, mesmo em épocas de guerra. A proposta de criação do pacto de Nicholas Roerich venceu as barreiras políticas da época e chegou a ser assinado por várias nações em 15 de abril de 1935, na Casa Branca, Washington, USA. O Brasil também foi um dos signatários deste acordo internacional.

Hoje precisamos assegurar a preservação de nossa cultura, cuidando melhor de nossa cidade. O Ecobairro acredita que esta é uma tarefa de todos nós e que a responsabilidade não deve ser delegada somente às instituições governamentais. A preservação de nossa cultura é responsabilidade de toda a sociedade. Para tanto é preciso que entendamos que a arte vai além da simples observação. Elas nos conecta com amplos planos sutis e canaliza vibrações de harmonia e paz para dentro de nossos corações. É com certeza, através delas que os povos se unirão, integrando cultura e beleza, harmonia e paz entre todos os homens.

"Onde há Paz, há Cultura; onde há cultura, há paz."

 

Celuta Wagner

Coordenadora de Coordenadora de Cultura do Ecobairro


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