ENTREVISTA
- Edição 69 - Fev/2008
Denise Delfim

GILBERTO KASSAB

Em entrevista exclusiva ao jornal Pedaço da Vila, o prefeito da cidade de São Paulo, em seu último ano de exercício, faz um balanço de seu governo, afirma que cidades perfeitas não existem, discorda de que a lei Cidade Limpa é a marca registrada de sua gestão, destaca as AMAs como grande esforço para melhoraria da saúde, fala do meio ambiente  e defende que não houve mudanças nos Planos Regionais, embora associações de bairros ligadas ao Defenda São Paulo digam o contrário...

Pedaço da Vila: Qual seria o modelo ideal de cidade para se viver?

Gilberto Kassab: Infelizmente, cidades perfeitas não existem. Mas acho que posso citar, como um modelo ideal de cidade, aquela em que seus habitantes e seus governantes não se conformam com os problemas e as carências, e trabalham permanentemente pela melhoria da qualidade de vida de todos. É dentro dessa idéia que tenho procurado conduzir a administração de São Paulo. Sabemos, eu e toda a equipe, que não dá para resolver tudo em uma metrópole de 11 milhões de habitantes e tantas dificuldades. Mas temos certeza de que dá para avançar um pouco a cada dia. Ao final deste mandato, quero entregar aos paulistanos uma cidade melhor do que aquela que recebemos para administrar. E tenho certeza de que já avançamos muito nesses três anos de governo que acabamos de completar.

P.daVila: Nesse sentido, o sr. considera que a lei Cidade Limpa foi o maior avanço?

G.K.: Não. E muitos estranham quando digo isso. Talvez em razão do sucesso do programa Cidade Limpa, vários paulistanos têm a impressão de que nosso maior esforço está sendo dedicado ao combate à poluição visual na cidade. É engano. As principais ações de meu governo estão voltadas para a solução de problemas na educação e na saúde, porque é aí que estão as maiores carências da população de toda a cidade. Aí é que estão as bases para um desenvolvimento socialmente mais justo. Investir em educação e saúde é minha verdadeira prioridade.

P.daVila: Então vamos falar de saúde. As AMAs são a solução?

G.K.: Aí está outro equívoco de muitos. A situação que herdamos na rede municipal de saúde era lamentável, fruto do descaso de sucessivas administrações. As carências nessa área são enormes, como já disse. E as AMAS são apenas parte de um grande esforço desta administração para melhorar esse quadro. Já instalamos 61 AMAs e vamos chegar a pelo menos cem dessas unidades de atendimento imediato nos próximos meses. Elas estão dando à população mais humilde aquilo que ela nunca teve, isto é, a possibilidade de receber atendimento de qualidade e sem demora para aqueles problemas mais simples de saúde que acabavam levando as pessoas a lotar os pronto-socorros.
Mas, repito, nosso programa para a saúde vai muito além das AMAs. Nossa prioridade maior é a recuperação da rede básica de saúde e por isso já fizemos obras de reforma e manutenção em pelo menos 300 dos 405 postos de saúde (UBS). E acabamos de completar a informatização de todos eles. Tudo era feito na base de fichinhas de papel. Agora todos têm computador para trabalhar e atender as pessoas com mais eficiência.

P.daVila: Mas e os hospitais? As reclamações continuam...

G.K.: É verdade. Por isso mesmo, estamos reformando os hospitais municipais. Inauguramos em Cidade Tiradentes o mais moderno hospital da rede e acabamos de concluir a construção de outro do mesmo porte em M´Boi Mirim, na Zona Sul. Este entra agora na fase da compra e instalação de equipamentos e será administrado pelo Hospital Albert Einstein. As famílias que vivem nas Zonas Leste e Sul da cidade, geralmente menos favorecidas, nunca tiveram hospitais públicos tão modernos quanto estes.

Lembro ainda que regularizamos a distribuição gratuita de remédios, acabando com as reclamações de tanta gente que precisava dos remédios e não encontrava. Muita gente já esqueceu, mas quando assumimos o estoque da Prefeitura estava abaixo de dez por cento.

Outra medida importante e bem sucedida foi a criação do programa Mãe Paulistana, que acompanha a gestante na gravidez, cuida do parto e monitora os bebês em seu primeiro ano de vida, para reduzir os índices de mortalidade infantil e garantir a saúde das crianças. Cada gestante que se inscreve recebe um Bilhete Único personalizado para não perder os exames médicos. Apenas em seu primeiro ano, esse programa fez 120 mil partos e realizou 1,5 milhão de exames e consultas.

P.daVila: O sr. já pode afirmar que a Educação melhorou?

G.K.: Ah, disso eu não tenho dúvida. E vou dar alguns exemplos concretos dessa melhoria. Além de várias medidas que tomamos para valorizar os professores e profissionais da área, já construímos e entregamos mais de 80 novos prédios escolares e estamos construindo outros 70. Sem contar, é claro, que já inauguramos cinco novos CEUs e estamos construindo mais vinte. Com isso, acabamos com aquelas 54 famosas escolas de lata, todas trocadas por novas escolas de alvenaria. Além disso, construímos mais 135 salas de alvenaria nas escolas já existentes, para substituir as antigas salas de lata.

Mais importante ainda, das nossas 1.100 escolas atuais, mais de 600 já passaram por obras de reforma e manutenção. E vamos reformar todas.

P.daVila: Para que tantas obras?

G.K.: Com elas, estamos criando vagas para acabar com o terceiro turno diurno, aquele em que milhares de crianças entram às 11 da manhã e saem às três da tarde, e por isso têm poucas horas de aula. Todas as escolas vão ter apenas dois turnos, e as crianças terão mais tempo para estudar e aprender melhor. Muitas escolas já estão nesse esquema. E o aprendizado tem sido reforçado pelo programa "Ler e Escrever", que já conseguiu reduzir bastante o índice de analfabetismo de alunos que, por incrível que pareça, chegavam à quarta série sem saber ler e escrever.

P.daVila: De qualquer maneira, acabar com a poluição visual continua sendo a marca mais visível de seu governo...

G.K.: Sim, porque todo mundo percebe como ela mudou a cara da cidade. Mas quero lembrar que a lei Cidade Limpa é apenas parte de um projeto maior de combate à poluição de todos os tipos – visual, sonora, do ar e das águas. Proibimos a barulheira dos carros de som e a atuação do PSIU em bares e casas noturnas tem sido rigorosa a ponto de mudar a rotina da vida noturna em vários bairros. A Operação Defesa das Águas está atuando na proteção de nossas represas e mananciais, inclusive com a criação da Guarda Civil Ambiental, para impedir as invasões de áreas de proteção ambiental. A Operação Córrego Limpo, com a Sabesp, está retirando esgotos e despoluindo 42 córregos de São Paulo. Estamos fiscalizando a emissão de gases poluentes pela frota de ônibus e vem aí a Inspeção Veicular, para a frota de automóveis. Isso tudo é para termos mais qualidade de vida.

P.daVila: Segundo o doutor em Climatologia Ailton Pinto Motta, a Vila Mariana é um dos bairros face Norte e por isso um dos mais quentes de São Paulo. Além disso, a verticalização do bairro impede a ventilação e, portanto, a troca de calor. Para piorar, o parque Ibirapuera e o Instituto Biológico estão cada vez mais circundados por prédios que bloqueiam a ventilação. Isto por si só não é motivo para proibir a verticalização nesta região?

G.K.: Modelar o microclima resultante da sinergia das superfícies aquecidas com o regime dos ventos, a volumetria das edificações, a cobertura vegetal, a topografia, a concentração de tráfego e a poluição atmosférica é tarefa bastante complexa. Ainda estamos longe disso aqui em São Paulo. Por enquanto, os fatores microclimáticos vêm sendo observados na elaboração dos Planos Diretores Estratégicos e Regionais. Algumas cidades no mundo, como Berlim, fizeram um zoneamento ambiental baseado na altura dos prédios, presença de cannyons urbanos, vegetação etc. Esse zoneamento é importante para a vida nas cidades e São Paulo terá de fazer o seu, para ter parâmetros mais precisos na definição do uso do solo. Mas não estamos esperando para agir, porque temos de ampliar imediatamente nossas áreas verdes. Por isso, a Secretaria do Verde já plantou, em três anos, 320 mil árvores em toda a cidade, sem contar aquelas que foram plantadas diretamente pelas Subprefeituras. Já entregamos oito novos parques e vamos entregar mais 25 até o final deste ano. Sabe o que isso significa? Que teremos dobrado a quantidade de parques na cidade. Não é pouco para três anos de governo.

P.daVila: Segundo às Associações de bairros, o projeto do Plano Diretor Estratégico enviado à Câmara Municipal alterou os Planos Regionais - uma conquista da população. Que poderes o Prefeito tem para manter a conquista da população?

G.K.: Há um engano. O Projeto de Revisão encaminhado à Câmara não altera os Planos Regionais, nem trata de zoneamento. Por outro lado, esse projeto de revisão foi amplamente debatido, desde 2005, com a realização de duas audiências em cada subprefeitura, mais quatro audiências específicas sobre o tema, bem como diversas reuniões no Conselho Municipal de Política Urbana (CMPU). Esse Conselho, neste ano, teve oito reuniões específicas sobre o tema.


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