ENTREVISTA
- Edição 67 - Nov/2007
Lucélia Caseiro

Denise Delfim

Entrando no sétimo ano de circulação, o Pedaço da Vila é hoje uma referência na Vila Mariana. Embalada pelo retorno de sua publicação, a idealizadora do projeto comemora o aniversário do jornal destacando seu papel de articulador para as questões do bairro. Diz que a alma do projeto é a participação ativa das pessoas que moram e trabalham aqui e anuncia o nascimento do Espaço Cultural Pedaço da Vila, um local de resgate da relação de vizinhança, perdida nas grandes cidades.

Pedaço da Vila: Quando surgiu a idéia de fazer o jornal?
Denise Delfim: Quando nasceu meu segundo filho imaginei uma forma de trabalhar em casa, livre do trânsito e dos chefes. Um dia, quando saia da farmácia Sensitiva, peguei um jornal tablóide distribuído ali e pensei: melhor que isto eu sei fazer. Dias depois me deu um estalo: por que não fazer um jornal que traduzisse a Vila Mariana? Aqui tem muita história, moradores ilustres e equipamentos culturais de primeira. Tem muitos artistas e antigos moradores com memórias incríveis! Além disso, pensei em dar destaque ao meio ambiente, falar sobre reciclagem, sustentabilidade. Amparada pelo jornal, pude desbravar o bairro!

P.da Vila: O caminho foi fácil?
D.D.: Comecei numa época em que o mercado estava aquecido – fim de 2001. Mas logo no começo do ano seguinte vi que na realidade poucos anunciantes estavam com o mesmo gás e , por isso, desanimei um pouco. O problema maior é o custo de produção do jornal, que é muito alto! Mas não desisti! Em nenhum momento fiz contas matemáticas para ver se o projeto era viável ou não, se teria muito lucro com ele. Sabia que podia ganhar pouco, mas não tinha como perder dinheiro. Sempre gostei muito de fazer o jornal. Já na quarta edição fechei a parceria com o Unicentro Belas Artes de São Paulo, na época ainda faculdade e depois, com os anunciantes cativos – muitos moradores do pedaço.

P.da Vila: Por que um pedaço da Vila e não a Vila Mariana inteira?
D.D.:
É o pedaço do bairro onde nasci, cresci, estudei e moro até hoje. Uma parte da cidade de São Paulo que parece, literalmente, uma gotinha no mapa, entre a avenida 23 de Maio e as ruas Vergueiro e Sena Madureira. É uma região especial da cidade, com bens tombados, equipamentos culturais, muitas escolas e áreas verdes. Um filé mignon para novos empreendimentos imobiliários pela sua proximidade do parque Ibirapuera e Metrô. E, felizmente, com uma vizinhança tradicional que guarda sua história e que se interessa em defender seu patrimônio.

P.daVila: Você fez alguma pesquisa para elaborar o projeto editorial?
D.D.:
Não. Pensei num jornal de bairro diferente, com cara de revista, sem anúncio na capa. Por ser jornalista, decidi organizar os anúncios com respeito ao conteúdo, com a idéia de naturalmente trazer os leitores para o jornal para que a Vila Mariana fosse traduzida. Isto alimentaria o seu conteúdo.E foi o que aconteceu! Resolvi por curiosidade contar quantos vizinhos já apareceram no jornal: são quase oitocentos!!! O jornal existe porque o leitor interage com ele, senão não passaria de um guia. Este é o diferencial: gente, calor humano, ideal. Ele é o espaço para as histórias, os personagens e muitas bandeiras em prol da qualidade de vida. É bom ressaltar também os anunciantes - senão qualquer meio de comunicação acaba no primeiro ano! Então, na medida em que a rede de conhecimento foi crescendo, foi-se agregando maior valor ao jornal.

P.daVila: O que foi primordial para chegar aos 6 anos de vida?
D.D.:
A riqueza cultural da região e as pessoas maravilhosas que conheci durante estes seis anos. Um grande universo chamado Vila Mariana se abriu e com ele inúmeros projetos, como por exemplo, o querido "Memórias da Vila", banners que ilustram a história do bairro e que hoje estão na Subprefeitura. É uma delícia trabalhar as memórias dos antigos moradores e um privilégio ter seu Chiquinho como colunista! A rede estabelecida vem promovendo a realização de muitos projetos. O jornal é o articulador, ligando pessoas com o mesmo propósito. O lema é: a união faz a força!

P.daVila: Quem faz parte da equipe do jornal?
D.D.:
Além dos leitores e amigos, tenho uma equipe composta por colaboradores, estudantes de jornalismo e de publicidade. O legal é que todo mundo que participa do jornal vive ou trabalha na Vila Mariana, é o que dá a alma ao jornal Pedaço da Vila. Fico feliz quando encontro alguém na rua que me pergunta: como vai nosso jornal? É esta a idéia. O engraçado é que os leitores ligam também para dar bronca, para perguntar por que o jornal ainda não saiu... Um dia, no meio de um evento, um leitor me ligou muito bravo e disse: ‘vocês precisam melhorar a revisão... Onde já se viu escrever logista com j!!!’. Fiquei acabada, por mais que a gente revise, sempre saem erros. Monteiro Lobato dizia que erros de revisão, a troca de letra que pula aos olhos quando já está impressa, é o famoso saci-pererê!

P.daVila: Mas hoje Pedaço da Vila não é só jornal...
D.D.:
Pois é... Ele multiplicou-se para a Internet. O site www.pedacodavila.com.br possibilitou uma maior colaboração dos leitores, pois o jornal está engessado ainda nas 16 páginas e sempre há mais matérias do que espaço – o que é excelente! Há também o Guia do Pedaço, que é atualizado permanentemente e recebe cerca de 4 mil cliques mensais. Está prevista também uma rádio no nosso site. Estamos trabalhando sua programação com a colaboração dos leitores. E agora, a grande novidade: o Espaço Cultural Pedaço da Vila, um ponto físico na rua Áurea, que além de abrigar a redação no segundo andar da casa, pretende ser um local de encontro da vizinhança.

P.daVila: Como será este Espaço Cultural?
D.D.:
Também uma extensão do jornal, onde será possível realizar exposições, lançamentos de livros, promover palestras, reuniões para se discutir a qualidade de vida do bairro etc. Estamos fazendo um revestimento acústico em uma das salas para abrigar ensaios, programar aulas de iniciação musical para crianças. Idéias não faltam... Este ano, por exemplo, faremos um bazar de Natal. Vamos fazer devagar, buscando patrocínio para montar um local onde as pessoas sintam bem-estar. Faltava um centro cultural no pedaço e com o apoio do Unicentro Belas Artes, foi possível concretizar mais este projeto. Aliás, os amigos que conquistei com o jornal estão dando a maior força! O Genuíno cedeu mesas e cadeiras para o local, a NK doou todo o material de limpeza, o Chico, da Biológico Materiais de Construção deu até galão de tinta! As pessoas estão entusiasmadas com a idéia de um lugar de encontro, que possa trazer de volta aquela relação de vizinhança de antigamente, perdida devido ao crescimento da cidade.


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