ENTREVISTA
07/01/2020 - Edição 200 - /
Da Redação

ENTREVISTA: Sergio Shigeeda

O filho de imigrantes japoneses e engenheiro de software Sergio Shigeeda trabalha afinado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU. Ele largou a profissão para se dedicar a espalhar hortas e árvores pela cidade e por outros municípios do estado de São Paulo. Conselheiro do CADES - Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 2030, ele vem transformando nossa paisagem e qualidade de vida: “Um trabalho de formiga!”

 

Pedaço da Vila: Como surgiu a ideia de fazer uma horta num terreno baldio esquecido pela prefeitura?
Sergio Shigeeda: Em novembro de 2013, eu participava das reuniões do Conseg da Saúde. Esse terreno baldio era ao lado de minha casa [Rua Paracatu, 66] e resolvi limpá-lo; tinha muita sujeira: escorpião, rato, mato e entulho a toda hora. Era um espaço público abandonado, onde o pessoal jogava muito lixo, o mato crescia rápido, e o lugar virou de tocaia com risco de assaltos, com pessoal usando drogas... Isso começou a gerar vários problemas, e decidimos limpá-lo e fazer uma horta. Fui pedir o espaço para a subprefeitura, foi difícil, pois eu não fazia parte de nenhuma ONG ou associação, mas, mesmo assim, foi possível — meu trabalho de conscientização na área do terreno foi reconhecido pelo subprefeito da época. A ideia da horta não foi minha, mas de algumas estudantes da USP, mas eu entendia bem do assunto. Meu sítio em Garça sempre foi sustentável — foi onde eu peguei o gosto pela natureza, onde navego, vou pescar e admiro as árvores. Por isso abracei a ideia da horta na hora, que fez recentemente 6 anos de existência.
 
Pedaço da Vila: Então você já plantava árvores em sua cidade natal?
Sergio Shigeeda: Há muito tempo! No interior já plantei milhares de árvores e trouxe essa vontade quando vim morar em São Paulo. Nem sabia o que era horta urbana, porque o consenso é uma alface bonita, pepinos, tomates... Eu já tinha na cabeça algo diferente: no interior eu uso energia limpa, com roda de água com carneiro; e sabendo como utilizar a abundância da área — isso é uma cultura. Vou dar alguns exemplos dessa cultura trazida para a horta: o telhado do vizinho servia para montar um sistema de captação da água da chuva para regá-la. Conversamos com o vizinho para a captação da água e enchemos seis mil litros de água. Há 6 anos usamos água da chuva. Também fizemos uma cerca baixa para evitar a entrada de animais. Com o tempo percebemos que os prédios chamavam os jardineiros para a realização de podas e todas elas eram jogadas fora... Aí eu pedi para que, quando não fosse usado veneno nas plantas, eles deixassem esse “lixo´´ guardado para irmos buscar, depois nosso voluntário picava tudo em uma composteira termofílica. A partir daí, evoluímos para uma compostagem com minhocas — muitas pessoas levam seus lixos orgânicos para alimentar as minhocas e conseguimos o nosso resíduo. Tudo de forma sustentável. No início o que faltava era tratar a sustentabilidade das pessoas, conscientizar o entorno. Hoje, vários prédios já fazem compostagem e levam o chorume para a gente. Quando podamos a horta ou trazemos essas podas dos prédios, nossa ferramenta é um alicate de poda para picar tudo — um trabalho de formiga! Nós cobrimos o solo com isso e geramos o adubo, além de economizarmos água, sendo necessário regar a horta somente de três em três dias. Contudo, o lucro real é a geração de uma grande biodiversidade no local ao deixar essa cobertura úmida, devolvendo para o solo bactérias e microrganismos eficientes que, quando coletados de forma correta e diluídos n’água, são usados para regar as plantas fazendo com que elas cresçam muito mais. Outra coisa que está dando muito certo na horta é o espirito de compartilhamento. A horta é um espaço pequeno, mas tem muita sabedoria chegando lá; temos que compartilhar isso como uma forma de ensinar. É preciso horizontalizar essa cultura.
 
Pedaço da Vila: A horta fez você se tornar conhecido...
Sergio Shigeeda: Hoje dou palestras em periferias e em outras instituições da região, eu compartilho um pouco dessa experiência, pois o pessoal quer saber como nós conseguimos nos movimentar nessa cidade cheia de poder de veto, já que estamos plantando , fazendo projeto piloto com a secretaria, com a prefeitura e, agora, com a CET, com o nosso quarto projeto que trata de fazer calçadas verdes, plantar árvores nas calçadas sem comprometer a acessibilidade. Quando não há possibilidade de plantar na calçada, por conta da largura insuficiente, temos um projeto, com o auxílio da CET e da prefeitura, de plantar árvores na rua em lugar de vagas de carro.
 
Pedaço da Vila: Como foi o início do plantio de árvores nativas pela cidade?
Sergio Shigeeda: Depois da horta, fui eleito para o CADES da Vila Mariana, e decidi trabalhar pela arborização. No interior, eu plantei mais de trinta e cinco mil árvores em picos de mananciais e nascentes para regenerar o local estragado pelo gado e até pelos porcos selvagens. No CADES, tínhamos uma meta de plantar de 700 a mil árvores, mas acredito que na verdade nós precisamos ‘plantar’ pessoas: se você leva 500 pessoas para plantar cem árvores, conseguimos conscientizá-las sobre resíduos, água, veneno e muitas outras coisas. Isso é o melhor! Eu tenho muitas histórias para contar de cada plantio realizado — sempre estou lá na frente dando a cara para bater. Nós pensamos durante 2 anos para as coisas acontecerem. De alguma forma, senti resistência no começo, foi difícil conseguir as aprovações necessárias — eu não era confiável, ninguém da subprefeitura me conhecia e não sabiam se eu era capaz de realizar essas coisas.  O Ricardo Cardim teve sua primeira iniciativa de plantio de árvores nativas com a floresta da Av. Hélio Pelegrino, onde foram plantadas setenta árvores. Em 2016, após plantarmos uma floresta de bolso na Praça Soichiro Honda [no baixo Cebolinha], tive a ideia do primeiro Plantio Global. Um amigo de Rio Preto, o André Nogueira, me disse que queria fazer uma ação conjunta e eu topei. Como tenho vários amigos no Brasil inteiro, no fim da noite, já havia mais de 70 pessoas dizendo que queriam plantar junto com a gente. E não só do Brasil! Se contabilizarmos quantas árvores foram plantadas no primeiro Plantio Global, que abrangeu 70 cidades brasileiras, e algumas cidades do mundo, ficaríamos impressionados. Chile e Guatemala plantaram, cada um, mais de 400 árvores!
 
Pedaço da Vila: Acredita-se que tanto a água como o solo da cidade de São Paulo estão contaminados. A horta teve esse problema?
Sergio Shigeeda: Quando nós começamos a horta, a primeira coisa que veio à minha cabeça foi ver o posto de gasolina a setenta metros dela. Fiz uma análise que só constatou que o solo era pobre, mas sem nenhum tipo de contaminação. Depois de nossa horta, outras começaram a se formar e, atualmente, são dez na cidade de São Paulo — temos até um grupo. Quando isso aconteceu, um engenheiro agrônomo da USP — onde há uma grande horta — queria fazer uma tese sobre a poluição e a contaminação pelo solo e pelo ar dessas dez hortas. Para isso, fez um teste plantando três culturas que absorvem pelo solo e pelo ar tudo que é poluente e, de mês em mês, ele levava para a faculdade para fazer a medição e com isso mapearam quais das dez hortas plantavam espécies adequadas para o consumo e quais eram esses alimentos. Nossa horta plantava coisas adequadas para a alimentação. Eu já havia previsto uma certa poluição pelo ar, por conta do grande fluxo de carros e para proteger a horta plantei nas cercas trepadeiras para servir de “barreira´´. No Ipiranga, onde há uma horta nascendo do lado do aquário, levei várias mudas, e ainda vão pegar duzentas mudas de nossa horta.
 
Pedaço da Vila: A horta inspirou outras subprefeituras?
Sergio Shigeeda: Até hoje, mais ou menos vinte subprefeitos me ligaram para pedir ajuda. Eu dou palestras pagas, mas tudo que é de iniciativa pública, eu sempre tento ajudar. Eu levo muito do que eu sei para outras cidades e até para alguns estados. A secretaria do meio ambiente de Piracicaba me chamou para fazer hortas comunitárias e há um pessoal de Brasília me convidando para concorrer a um prêmio de engenharia ambiental.  Eu sou membro do comitê de arborização da cidade de São Paulo, foi o prefeito Bruno Covas que me nomeou.  Com a horta, eu ajudo estudantes do mundo inteiro a fazerem TCC de mestrado e doutorado, recebo pessoas da Suécia, da Noruega, de Paris, estamos em blogs do mundo inteiro e, em Paris, nós saímos até em uma revista. Eu considero isso um prêmio, a matéria falava sobre a horta do Sérgio da Saúde e do Gerson das abelhas sem ferrão.
 
Pedaço da Vila: Você já pensou em escrever sobre essa experiência? 
Sergio Shigeeda: No momento não tenho tempo para escrever (risos). Em um dos plantios que realizei, veio um americano chamado James Huston que é de Boston. Eu perguntei com quem ele queria falar e ele disse: ‘quero falar com o japonês’ e perguntou se era eu que tinha a horta da Saúde. Eu respondi que sim, porém não tinha tempo para falar com ele, pois precisávamos plantar 750 árvores e marcamos para outro dia. Depois descobri que ele é um produtor de livros sobre cidadania. Ele pediu para que escrevesse tudo o que eu fazia no dia como se fosse um diário e que eu passasse para ele levar para um escritor. Porém não consegui escrever uma página sequer. Disse a ele que poderia fazer era entrar em meu perfil do Facebook, pois eu posto tudo lá e há muitas fotos que podem ser usadas. 
 
Pedaço da Vila: O que você aprendeu com a horta e plantando árvores por São Paulo?
Sergio Shigeeda: Aprendi que tudo que fazemos temos que compartilhar, temos que incluir a comunidade, pois com isso você está trabalhando pelo crescimento do seu próximo. Eu tenho muito esse lado bairrista de construção e fortalecimento local. Então as pessoas são nosso mantenedor — temos que levar todo mundo junto. Atrás de nossa camisa temos a expressão africana ‘ubunto’ que quer dizer ‘chegar todos juntos’. Temos que tomar todas as medidas paliativas possíveis: a arborização ajuda muito no impedimento dos raios solares, nas condições climáticas; a compostagem ajuda muito, pois quando você tira esse resíduo orgânico do aterro e está deixando de emitir muito CO2 — a maioria não sabe disso . Esse é o lado bom de participar das audiências públicas e seminários sobre o assunto; muitas pessoas que vão a esses eventos percebem que já faziam a compostagem mas não sabiam do bem que ela poderia trazer.

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