ENTREVISTA
06/11/2019 - Edição 198 - /
Da Redação

Entrevista
A mais bem votada conselheira tutelar para o mandato de 2020 a 2024, com expressivos 1.497 votos, Fabiana Cristina Lopes (39 anos) viveu dos 8 aos 14 na rua. Moradora da Comunidade Mário Cardim desde então, viu-se diante de uma doença rara em sua filha menor, hoje com 12 anos. Para cuidar dela, fez um curso de enfermagem e foi à luta para garantir seus direitos à Saúde e à Educação. Foi quando conheceu a realidade de outras comunidades da Vila Mariana — “ com tanta deficiência e desassistência...”. E decidiu defender os direitos da criança e do adolescente com a promessa: “Podem confiar em mim!” 
 
Pedaço da Vila: Por que você decidiu ser conselheira participativa? 
Fabiana Cristina Lopes: Eu comecei em um trabalho voluntário dentro da comunidade, fazendo parte do Conselho Gestor de Saúde da Vila Mariana; atendia às comunidades Mário Cardim, Souza Ramos, Helen Keller e Onze de Junho. Andando por elas, percebi a deficiência de muitas famílias desassistidas pelo Conselho Tutelar. Vi que as escolas e creches do bairro estavam sem apoio. Tive prova disso quando começaram a me procurar dentro dessas comunidades — eu, que não tenho poder aquisitivo nem formação. Pediam apoio para chegar até alguma família; uma escola que precisava de um contato com a mãe de algum aluno... Foi aí que eu comecei a ver a total deficiência que essas famílias se encontravam e veio a vontade de entrar para o Conselho Tutelar, pois é ele quem faz valer os direitos da criança e do adolescente. Há muitas crianças com seus direitos negados...
 
Pedaço da Vila: Há muitas reclamações sobre moradores de rua trazerem crianças para mendigar, principalmente no Largo do Ana Rosa. Mesmo assim, o Conselho Tutelar não consegue resolver esse problema... Por quê?
Fabiana Cristina Lopes: Essa é exatamente uma das deficiências que eu falei; o empurra-empurra de responsabilidades. Vou explicar: o conselho recebe a criança que passa para o CRAS [Centro de Referência de Assistência Social], que manda ela de volta para o conselho e, assim, nada caminha... Acredito que esse impasse também seja pela falta de comunicação entre esses órgãos.
 
Pedaço da Vila: Muitas vezes a criança sofre agressão por alguém da própria família, o conselho tutelar faz seu trabalho e, quando chega à Justiça, nada acontece — e a criança volta para casa. Como resolver isso? 
Fabiana Cristina Lopes: Essa família deva ser assistida com mais proximidade. Após nada ter sido feito quando essa criança volta para casa, o conselheiro tutelar deve bater à sua porta e perguntar: ‘Você está sendo acompanhada?’ ‘O serviço social tem vindo à sua casa periodicamente?’ A resposta, geralmente, é não... Essa é a falha de comunicação; a partir do momento em que você estiver em cima da família, o abusador terá receio e não vai repetir o ato — e se fizer isso, irá responder criminalmente. Precisamos mostrar que estamos prestando atenção naquela criança, que ela não está desassistida — e cuidar para que ela não volte para a rua. Os responsáveis por crianças que mendigam pelas ruas têm o direito de fazer o que quiserem: pedir esmolas, vender bolachas, panos de prato — desde que a criança esteja na escola e, após a escola, faça alguma atividade extra. Esse acompanhamento é dever dos conselheiros tutelares: encaminhar essa criança para alguma atividade fora do horário da escola ou, até mesmo, colocá-la no período integral escolar. Dessa forma, ela não estará na rua.
 
Pedaço da Vila: Qual é a maior dificuldade que você considera na comunidade Mário Cardim?
Fabiana Cristina Lopes: Moro lá há 25 anos. Vejo a falta da conscientização de seus direitos; as pessoas são muito leigas e acomodadas com a situação. Em época de eleição, aparece gente oferecendo mundos e fundos em troca de um voto. Por não saberem que o maior tesouro é justamente o seu título de eleitor, acabam trocando o voto por uma cesta básica ou uma pintura na casa. Eu tento ensinar esse valor, pois, a partir do momento em que colocam o título de eleitor, a família e o conhecimento como seu bem maior, não há nada mais importante do que isso. Podem chegar quantos tratores ou viaturas na comunidade por você não ter votado em tal candidato, mas, a partir do momento em que você tem conhecimento dos seus direitos, sabe que tem escolha. Nós somos uma comunidade legalizada, que paga sua água e sua luz. Eu não me sinto mal quando as pessoas falam favela: favela é resistência, é força. É de lá que eu tiro minhas forças. Meu filho mais velho, de 22 anos, começou como gandula e hoje dá aulas de tênis numa academia. Assim consegue pagar seu aluguel e sustentar sua família. Fora isso, trabalha na adega de água e é muito conhecido na feira por ser um menino muito trabalhador! Tenho minha menina que, se não tivesse sido bem orientada, poderia hoje estar casada ou ser mãe solteira. Mas, não! Aos oito anos ela foi eleita delegada mirim pelo CONDECA [Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente] — lutou muito contra o trabalho infantil. Hoje faz faculdade de Direito e trabalha em uma multinacional — e só tem 18 anos! 
 
Pedaço da Vila: Sua terceira filha tem sérios problemas de saúde...
Fabiana Cristina Lopes: Sim, a Natally, que tem 12 anos. Ela nasceu prematura de oito meses, com baixo peso para a idade gestacional, e foi para a incubadora. Como não se alimentava de leite materno, precisou passar por uma fórmula e começou a apresentar epilepsia na incubadora. Devido aos meus filhos e alguns familiares terem epilepsia, ela foi diagnosticada com epilepsia genética. Até então, eram convulsões que não atrapalhavam seu crescimento: Natally começou a andar aos nove meses; com 1 ano e dois meses saiu da fralda; aos 4 já estava alfabetizada; e, aos seis anos, falava inglês fluentemente — tudo isso criada dentro da comunidade! Consegui-mos uma bolsa de estudos numa escola particular, pois, estava muito adiantada para a idade dela. Foi nessa época que a gente percebeu alguns sinais que não eram normais para uma criança de seis anos: ela começou a apresentar quedas, não conseguia mais escrever, tinha dificuldades para reconhecer a família... E descobrimos que ela sofria de uma rara doença degenerativa chamada Erro Inato Metabólico, que causa disfunções no ciclo da ureia. Imagina, eu, auxiliar de limpeza, tive que largar o emprego para me dedicar 100% à minha filha. Hoje a Natally tem sequelas gravíssimas: retardo mental de grau leve, hipermetropia e astigmatismo, redução volumétrica de cerebelo, escoliose, quadril deslocado, os pés estão entortando para dentro. Ela não deglute, se alimenta e faz as necessidades por sonda — o estágio da doença está bem adiantado. Por conta da doença de minha filha, fui fazer um curso básico de enfermagem para aprender a cuidar dela, até porque eu não queria que ninguém cuidasse. Natally foi afastada da escola por tempo indeterminado e, aí, começaram a bater na minha porta dizendo que ela precisava voltar às aulas — mas, ela não podia! Foi quando comecei a ir atrás dos órgãos públicos: fui à Promotoria da Infância, à Defensoria Pública, ao Conselho Tutelar.... A todos eu pedi uma professora domiciliar para dar continuidade aos estudos de minha filha e, em todos os lugares, o pedido foi negado. Até que num belo dia essa assistência foi aprovada por Lei, dando à criança o direito de ter uma professora domiciliar — a Natally foi a primeira criança da Vila Mariana a conseguir uma! 
 
Pedaço da Vila: E você ainda tem tempo para cuidar de outras crianças?
Fabiana Cristina Lopes: O início de tudo foi por causa da Natally; foi através dela que eu comecei a brigar pelos direitos das crianças com deficiência, doenças raras e síndromes —  em que, em muitas vezes, as mães não têm condições de cuidar. Me interessei pelos estudos sobre essa questão... E foi uma coisa apaixonante, eu não conseguia mais olhar só para as crianças deficientes. Ao adentrar nas comunidades e ver a deficiência na saúde fui parar no Conselho de Saúde e ouvi as reclamações das famílias que estavam desassistidas pelo Conselho Tutelar. Foi quando decidi me candidatar, e foi uma surpresa —
achei que eu ia ter no máximo uns 300 votos!
 
Pedaço da Vila: Como tratar o preconceito da vizinhança com as pessoas que moram na comunidade Mário Cardim? 
Fabiana Cristina Lopes: Uma das reuniões do Conselho de Saúde foi sobre a questão do Posto da Rua Santa Cruz, onde não temos médicos obstetras nem pediatras. Isso faz com que toda a população da Vila Mariana tenha que se deslocar ao Posto de Saúde da Av. Ceci — onde é possível encontrar médicos com essas especialidades. Tentamos trazer essas espcialidades para o Posto da Santa Cruz e escutamos um dos conselheiros dizer: ‘a Vila Mariana é bairro nobre, ninguém usa SUS.’  E eu falei: convido você a entrar na minha comunidade para mostrar quantas famílias estão desassistidas. Não só na Mário Cardim, mas em todas as comunidades da Vila Mariana — são várias! E, voltando à pergunta sobre o que eu acho que deveria ser feito para acabar com esse preconceito, vou explicar com uma analogia: é muito difícil uma pessoa falar que não come chuchu sem antes experimentá-lo! Para falarmos sobre algo que não gostamos, que acreditamos não estar certo ou legal, temos primeiro que presenciá-lo e vivenciá-lo, senão você não tem propriedade para falar algo. Costumo dizer a qualquer um que queira conhecer a minha comunidade ou qualquer outra — como a Mauro 1, a Mauro 2, a Hellen Kelly — que a recepção será totalmente diferente do que as pessoas imaginam. Por isso convidei os conselheiros a visitarem essas comunidades e descobrimos que mais de 3 mil pessoas estavam desassistidas de saúde. Acredito que hoje as ruas de lazer, programa da prefeitura chamado Rua da Gente, serve para isso: para que os vizinhos dos condomínios fechados e das vilinhas do bairro quebrem esse preconceito. Essas pessoas só têm contato com a doméstica, com o porteiro do prédio, com o entregador do mercado que moram aqui.  Se participarem do Rua da Gente, trazendo seu filho para andar de bicicleta com a criança que é da comunidade, ele vai ter contato com a mãe ou o pai dela e, até mesmo, terá a oportunidade de conhecê-la. Antigamente não havia todo esse preconceito entre o favelado e o morador do condomínio fechado... Por que ter hoje? É preciso parar de viver fechado atrás de grades para se proteger do vizinho favelado — um dia ele pode te socorrer ou você pode acabar socorrendo ele! Sobre a questão dos traficantes e ladrões que as pessoas acreditam que só moram na favela, na verdade eles estão em qualquer lugar de São Paulo. Eu já presenciei em pleno meio-dia, na frente das faculdades renomadas que temos no bairro, alunos fumando maconha. Aí você vai dizer: quem passa as drogas é o favelado! E as crianças da comunidade que precisam ir para a escola e têm de passar pelo meio da rua, pois os alunos estão ocupando as calçadas com o seu narguilé, seu cigarro de maconha e sua garrafa de cachaça, inutilizando a calçada não só para elas, mas, para outros moradores do bairro? Eu já tive que passar no meio da rua, empurrando uma cadeira de rodas, pois não havia acesso à calçada. Se você for à Praça da Sé, vai ver pelo caminho fóruns e mais fóruns e um monte de gente fumando maconha. Nessa semana mesmo, passei pelo Terminal Bandeira e vi dois policiais à paisana ao lado de dois engravatados, com pastas na mão, fumando maconha livremente. Não é só o favelado... Temos que parar com essa hipocrisia de dizer que maconheiro é gente que mora na favela. Essa visão da sociedade compromete o futuro das crianças que moram na comunidade, pois elas são tachadas desde pequenas.
 
Pedaço da Vila: Como aproximar as crianças da comunidade da polícia? 
Fabiana Cristina Lopes: Anos atrás, quando chegava a época de Natal e Dia das Crianças, havia uma equipe da Polícia Militar que vinha à comunidade Mário Cardim de caminhão, vestidos de Papai Noel. Eles traziam sucos, pão com salsicha e um brinquedinho. Então, as crianças da Mário Cardim, que hoje são adolescentes, tinham um contato positivo com ela. Antigamente era assim, as crianças entravam nas viaturas, pois sabiam que podiam confiar. Hoje isso está se perdendo. Apesar de ter ficado órfã muito cedo, lembro que minha mãe sempre dizia: ´No dia em que você se perder, vá até uma viatura e dê o nome da rua que você mora e o nome da sua mãe que eles te levam até em casa — e era verdade! 
 
Pedaço da Vila: Fale um pouco sobre sua vida...
Fabiana Cristina Lopes: Eu perdi minha mãe aos oito anos e fui morar na Praça da Sé, fui dormir dentro da Cracolândia... Nunca me droguei, nunca me prostitui nem roubei. Fui sair das ruas aos 14, quando me casei — já era uma moça! Falo isso para mostrar que há outro caminho, que depende da gente. Não se pode falar: ‘vou virar bandido, pois eu não tive pai nem mãe´. Não é assim: você pode ser o que você quiser, desde que não deixe que nada o influencie. Quando eu era muito pequena, eu entrava nas escolas escondida para poder aprender a fazer o A, o B, o C e, quando era descoberta, chamavam o Juizado de Menores para me mandar para a FEBEM. Quando eu percebia isso, fugia para um outro local. Mesmo com essa vida, nunca peguei nada de ninguém; entrava nos bares e pedia comida — já comi muita comida podre, mas nunca peguei dos outros. Hoje em dia eu moro na comunidade, mas, tive uma vida boa quando minha mãe era viva — tinha de tudo. Morava num apartamento na Barra Funda, cheguei a estudar em colégio particular. E, aí, quando ela morreu, de repente, em menos de 24 horas, eu estava morando na rua, sem nada nem ninguém. Eu poderia ter feito tudo de pior, poderia ter ensinado para o meu filho o que a vida me ensinou, o que aprendi na rua... Mas, não foi isso! Quando vivia na rua, eu pedi um livro e ganhei; eu pedi um pão e ganhei um pão. Por que eu não mostraria esse lado bom para a comunidade e para quem me deu seu voto de confiança? Será que se eu tivesse crescido num colégio particular, tendo de tudo e do melhor, eu poderia estar hoje lutando pelos direitos das crianças?
 
Pedaço da Vila: Quando você foi morar na Comunidade Mário Cardim?
Fabiana Cristina Lopes: Eu amo de paixão a comunidade Mário Cardim, pois foi quem me recebeu. Uma garota de 14 anos, desconhecida, vinda da rua, e eu fui acolhida pelos moradores. Não fui aceita pelo traficante falando: ´vem cá que eu vou te dar uma pedrinha’. O que escutei na época, foi: ‘ vem aqui, que eu vou te botar em uma escola´; ‘vem aqui, vou te dar um mingau de fubá com água´. Foi isso que eu comi dos 14 aos 18 anos; eu gerei uma criança me alimentando de fubá com água, mas sem ter que pegar nada de ninguém. Eu preciso que as pessoas entrem na comunidade para que assim possam entender o porquê daquela mãe estar dentro de casa ao meio-dia, compreender por que ela não foi trabalhar... Talvez ela não tenha encontrado vaga na creche ... Ou o marido foi embora e ela está em depressão. Hoje em dia o que mais causa depressão na sociedade e a pessoa não ter a capacidade de bater na porta do vizinho e perguntar como ele está, como foi o dia dele. Eu tenho esse costume e quem me ensinou foi a Natally: quando ficou doentinha, ela não aceitava a cadeira de rodas; mas, mesmo assim, ela dava bom dia e boa tarde a todos que encontrava — sempre se doando um pouquinho. Isso é uma coisa que qualquer um pode fazer. Infelizmente, é muito mais fácil a sociedade falar que dentro da favela só tem maloqueiro, trombadinha ou traficante. Vamos parar com isso!  Como conselheira tutelar, eu quero dar o melhor de mim, eu espero não decepcionar as pessoas que me deram esse voto de confiança. Não esperava tudo isso, pois falando o português bem claro: uma mulher negra, do fundo da favela, com uma graduação formada na rua, ser votada por tantas pessoas... Peço que as pessoas jamais olhem para a comunidade como o pior dos piores, vá vivenciar, conhecer, sentir e reconhecer que são pessoas que saem das suas casas às 6 ou 7 horas da manhã para trabalhar. Quero quebrar esse olhar preconceituoso que as pessoas têm da comunidade. 
 

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