ENTREVISTA
06/10/2019 - Edição 197 - Out/2019
Da Redação

Entrevista com Denise Rohrer
Pedaço da Vila: O que é Orientação Parental?
Denise Rohrer: Orientação Parental é uma forma de você orientar como educar atualmente os filhos diante de tantas informações. Hoje em dia há muita informação difusa. Se você jogar qualquer pergunta no Google, vão aparecer muitas respostas diferentes sobre o mesmo assunto. E, para aqueles pais que não sabem como controlar as birras dos filhos, isso os deixa ainda mais perdidos sobre qual atitude tomar; sobre qual dessas informações têm uma fonte segura. Então, fui estudar para aprender todas as teorias — ou as principais delas — buscando as mais relevantes para os pais. É importante os pais entenderem a descarga cultural que eles absorvem. As novas gerações de pais acreditam que hoje a demonstração de amor é muito diferente daquela do passado. Antigamente havia um senso comum que todos faziam igual — todo mundo sabia o que era e o que não era certo, o que podia e o que não podia fazer. Alguns pais se utilizavam do chinelo, outros não; mas, as pessoas pensavam parecido. E o senso comum dava conta de saber o que a criança podia e o que ela não podia fazer. A grande mudança é de que hoje em dia cada um dos pais educa seu filho do jeito que quiser — e esse jeito também não está muito claro. Por isso, os pais vão buscar informações.
 
Pedaço da Vila: Antigamente, um filho era criado para ter autonomia, de repente começou a ser criado para ser feliz, bem-sucedido, famoso... 
Denise Rohrer: A chuva de cultura a qual eu me referi é exatamente nesse sentido: a gente escuta a palavra felicidade o tempo todo: nas propagandas de televisão... ‘o importante é ser feliz”...numa agência de viagem — ‘quer ser feliz? Feche um pacote conosco!´; no supermercado que diz: — ‘você quer ser feliz? Venha fazer suas compras aqui’.  Está todo mundo preocupado com a felicidade, inclusive na hora de criar os filhos. Os pais pensam: ‘já que para mim ser feliz é algo importante, então para o meu filho é mais ainda’. E como eu deixo essa criança feliz? Os pais entendem que para isso é necessário atender a pedidos e demandas o tempo inteiro — de forma auto-mática. No entanto, isso tem um efeito contrário, pois não desenvolve a autonomia. Quando a pessoa tem todos os seus desejos o tempo inteiro atendidos, ela está sempre dependendo de alguém para estar satisfeito e ser feliz.
 
Pedaço da Vila: Essas crianças não são as mais sujeitas à frustação?
Denise Rohrer: Quando elas descobrem que a vida não é do jeito que pensavam, as crianças se decepcionam. Em relação à frustação, elas não terão ferramentas para lidar com esse aspecto da vida, pois nunca tiveram de passar por isso antes. É aí que a criança começa a entender que a felicidade está um pouco mais longe do seu alcance. Felicidade é algo muito abstrato para garantir aos filhos. Infelizmente uma das descobertas dos meus estudos é que isso não está nas nossas mãos... O que podemos fazer é dar a eles algumas ferramentas para ser feliz; entre elas a capacidade de lidar com a frustação, pois isso vai acontecer em algum momento. Esse padrão de comportamento está acontecendo em todas as classes sociais, não é só nas com maior poder aquisitivo;. Nas classes mais baixas é muito comum as pessoas deixarem de fazer coisas por elas mesmas para dar aquele videogame para o filho e deixá-lo feliz.
 
Pedaço da Vila: E como mudar esse comportamento? 
Denise Rohrer: A primeira orientação é que satisfazer os desejos o tempo todo não é felicidade. O que leva de fato uma pessoa ser feliz é ela conseguir realizações por ela mesma — a pessoa que já tem todos os seus desejos atendidos não vai ser feliz, isso só vai aumentar as suas necessidades. Sempre conto uma história sobre uma mãe que dizia que nunca iria dizer não para seu filho — ele não ia conhecer essa palavra vindo dela. E o filho foi criado assim. Um dia, aos 4 anos de idade, ele chegou em casa muito nervoso, chutando tudo. A mãe foi atrás para descobrir o que ela poderia fazer por ele. E o filho disse: ´eu quero ser o mais velho da turma, quero fazer aniversário antes do meu amigo´. Como resolver isso? Não dava... Sempre vai acontecer alguma coisa que teremos que explicar aos nossos filhos que não dá e, quanto mais eles estiverem acostumados com essas explicações, melhor vão reagir. Por outro lado, se ele não compreender isso, pior vai reagir — e é ai que vem as grandes birras. 
 
Pedaço da Vila: E aquela mãe que criou o filho sempre atendendo aos seus desejos e percebe não ser mais possível criá-lo dessa forma?
Denise Rohrer: São essas as mães que me procuram! São as que percebem que o filho chegou ao ponto que elas não queriam. Uma criança criada por pais superprotetores e permissivos possivelmente já está xingando os pais, batendo em tudo, mandando na casa... E é geralmente nessa hora que a mãe percebe que precisa fazer alguma coisa, pois, daqui a pouco não vai dar mais tempo. Meu trabalho é entender a dinâmica dessa família, cada uma com seu valor — uma realidade que nenhum orientador pode interferir.  Minha orientação é sempre em relação à ética, vida social, pois, todas as pessoas precisam ter ferramentas para conseguir viver em sociedade. Qual é a dinâmica dessa família? Quais são seus valores? A partir desse conhecimento, vou traçar as estratégias com os pais para conseguirmos exercitar essa criança para que consiga viver bem na sociedade. 
 
Pedaço da Vila: Então a ideia de que quanto maior o amor, mais teremos uma educação saudável, não é totalmente verdadeira? 
Denise Rohrer: Umas das vertentes para explicar o que está acontecendo hoje é exatamente essa! É uma corrida para fugir do autoritarismo e aí chegamos na outra ponta, que é extrema: a permissividade. Todos os extremos causam marcas; precisamos voltar para o caminho do meio. Meu slogan é: educação com amor e razão.  Esse é o equilíbrio. Mostro às mães essa balança e falo que o amor e razão têm de estar juntos —  se você tirar a razão os pais perdem a autoridade, que é uma necessidade para a criança se transformar em um cidadão. 
 
Pedaço da Vila: E como lidar com a birra?
Denise Rohrer: Os pais dizem que não conseguem controlar o filho. E eu pergunto: ‘como você sempre falou com ele?’. ‘Ele já teve necessidade de te ouvir? Outros pais não conhecem o filho e sentem culpa por estar longe; aí cobrem a criança de bens materiais. Mas, também há a mãe que largou tudo para se dedicar ao filho 100%. Minha orientação funciona quando os pais percebem o sofrimento da criança. E é bom deixar claro que a orientação parental não atende pais cujo filho esteja sendo assistido por um profissional de saúde mental.
 
Pedaço da Vila: Quanto tempo dura a Orientação Parental?  
Denise Rohrer: Em média três meses, com três encontros — além de uma entrevista que pode ser on-line. No primeiro encontro, eu já vou com as estratégias traçadas; no segundo, nós vamos ver o que eles conseguiram fazer e para aonde devemos ir.  E o terceiro, geralmente é o fechamento, pois varia de família para família.
 
Pedaço da Vila: Como a evolução da tecnologia tem influenciado o desenvolvimento da criança? 
Denise Rohrer: Eu converso sobre isso com aqueles pais que têm a cultura de ‘eu faço com o meu filho do jeito que eu quiser’. Tento fazer eles entenderem que, se você vê o seu vizinho colocar um bebê de oito meses na chuva, você não vai falar nada por ser o filho dele? E eles respondem que, com certeza, falariam, por se tratar de maus tratos. E eu explico que, por ter conhecimento do que acontece na cabeça — e nos olhos do bebê —, expôr uma criança dessa idade à chuva é a mesma coisa que deixá-la no celular.... Mas, o filho é dele e ele o educa como quiser... Uma das coisas que mais fazem as crianças terem respostas instantâneas é a exposição às telas, justamente por conta do tempo de troca. O cérebro se acostuma com a troca de tela a cada 5 segundos. Então, a criança fica esperando que a resposta seja muito rápida, o que causa sofrimento, pois a criança não consegue esperar. Isso não quer dizer que a ela é mal-educada, mas que seu cérebro está acostumado com respostas rápidas. Um dia eu fiz um atendimento a uma mãe muito graciosa e ela dizia: ‘eu não consigo nem fazer ele sentar à mesa para comer’. E eu perguntei quanto tempo ele passava no tablet; ela respondeu que era pouco, trinta minutos após a aula. Fui fazer as contas e constatei que ele perde, em número de horas, 2 meses por ano no tablet. Informei a essa mãe que o filho vivia na realidade dez meses ao ano, os outros dois, ele passava no tablet. Essas crianças geralmente não brincam muito e com isso não exercitam a imaginação, pois está tudo pronto na tela. Elas deixam de desenvolver a psicomotricidade ao subir, pular, rolar... Essas brincadeiras desenvolvem a ramificação neural. As crianças não estão passando por isso, o que resulta em uma pessoa que não está pronta `psicomotoramente’ para, por exemplo, ser alfabe-tizada, pois ela não teve aquela fase de sentar e desenhar. E consequentemente, a criança não vai conseguir sentar e prestar atenção no professor — o que resultará em uma pessoa que possui muita informação, mas não sabe direcioná-la.

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