EM TEMPO
22/08/2019 - Edição 196 - Ago/2019
Da Redação

Ao deus-dará
As ondas de frio que atingem São Paulo nas últimas semanas têm castigado quem vive em situação de rua. Desde junho, ao menos cinco pessoas foram encontradas mortas na cidade como causas prováveis das baixas temperaturas, que chegaram a 9°C.
Para amenizar a grave situação, a prefeitura intensificou o serviço da assistência social e orientou os subprefeitos a irem às ruas acompanhar. “Encontramos um morador ‘sem roupa’ em plena madrugada fria”, conta o subprefeito VM Fabrício Arbex.
Ao lado de subprefeitos da região, Arbex percorreu as ruas do bairro durante duas madrugadas. Na ação, chamada Operação Baixas Temperaturas, que se estenderá até 20 de setembro, foram distribuídos cobertores e chocolate quente.
“O objetivo dessas incursões é convidar as pessoas a passarem a noite nos Centros de Acolhimento da prefeitura. A distribuição de cobertores e chocolate quente fez parte de uma ação emergencial, dado o frio desses dias”, explica o subprefeito.
Arbex esclarece que o trabalho de amparo aos moradores de rua compete à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) por meio dos núcleos regionais SEAS. “A subprefeitura dá todo o apoio necessário, mas a sua função é apenas a limpeza dos locais”.
Os dados das abordagens no bairro revelam um perfil majoritariamente masculino de quem está em situação de rua: 70%. A idade de maior concentração é entre 26 e 59 anos, com uma média de 20 idosos acima de 60 anos. De janeiro a junho deste ano, foram atendidas 34 crianças, 3 delas em situação de rua e 31 em trabalho infantil.
A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social não sabe informar o número de pessoas em situação de rua na cidade nem no bairro. “É um trabalho complexo em razão da migração das pessoas e de muitas não possuírem documentos”, diz. A referência da pasta é o censo realizado em 2015 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE). Naquele ano foram identificados 15.905 moradores de rua em São Paulo. “A prefeitura antecipará o próximo censo para 2019”, assegura a SMADS.
De acordo com os registros de atendimentos na Vila Mariana, o número de moradores de rua no bairro cresceu 15% de 2014 a 2017. Em 2017, segundo a assistência social VM em entrevista ao Pedaço da Vila, haviam 450 pessoas desamparadas.
Em agosto de 2017 o bairro ganhou um reforço para atender a essa demanda: o Centro Temporário de Acolhimento (CTA). Instalado na Av. José Maria Whitaker, 2.000, ele dispõe de 100 leitos para homens e 20 para mulheres.
Nele, o usuário pode passar a noite, lavar as roupas, tomar banho, fazer três refeições e encontrar um apoio para tirar documentos e começar a sua batalha para deixar as ruas. No local, também há um espaço de convivência, bagageiro e espaço para duas carroças.
O Centro Temporário de Acolhimento funciona 24h. O usuário pode procurar o serviço de forma espontânea ou ser encaminhado pelo Serviço de Abordagem Social (SEAS). O Serviço também atende ao chamado do munícipe pelo telefone 156.
Nesses dois anos, mais de 2 mil pessoas passaram pelo CTA VM. “No caso de preenchimento total das vagas, é realizado um encaminhamento para outra unidade disponível mais próxima da região”, diz a SMADS.
Muitos moradores de rua recusam-se a dormir nos abrigos. Entre os motivos, eles apontam as condições precárias desses locais, o tratamento ríspido, a impossibilidade de levar os animais de estimação e a distância.
Desde o começo do ano, a pasta passa por uma reestruturação. Em março, o secretário de Assistência Social José Castro pediu demissão após denúncias de irregularidades nos contratos da pasta com ONGs e denúncias de precariedade nos CTAs. No da Brigadeiro Galvão, na Barra Funda, foram encontrados percevejos nos colchões.
A SMADS afirma que “tem intensificado vistoria nos serviços de acordo com as necessidades apontadas pelos usuários” e informa que “treinamentos e ações de humanização fazem parte da iniciativa adotada pelo trabalho da prefeitura”.
Rompimento dos vínculos
A condição de rua é resultado de uma série de fatores. De acordo com a Assistência Social, as principais causas para a pessoa chegar até ali são o rompimento de vínculos familiares, o desemprego, o alcoolismo e a drogadição.
Pedro, 56 anos, se viu na rua após perder o emprego e não conseguir mais arcar com o aluguel da pensão. Há três anos nessa situação, ele não bebe, não fuma, e prefere não praticar a mendicância. Ele sobrevive fazendo pequenos bicos de artesão e reciclagem.
Consigo, carrega apenas uma mochila com as roupas e um exemplar da Bíblia. A família, uma filha e um filho, moram numa cidade do interior de São Paulo e não sabem da sua situação. Quando telefona, diz estar tudo bem e que os visitará em breve. “Eu penso neles todos os dias. Sei o número deles de cabeça e sempre ligo. Não consigo falar que estou na rua, não quero preocupá-los. Sei que em breve eu deixarei essa vida”, almeja.
Cristiano, 47 anos, vive drama semelhante. Perdeu o emprego, o teto, e mora na rua há cinco anos. Durante o dia, faz bicos e pratica a mendicância. À noite, rende-se ao crack. “Não vejo a hora de parar, arrumar um emprego e ter o meu cantinho novamente”.
A autonomia financeira é o passo primordial para deixar as ruas. Na região, há ONGS especializadas nesse trabalho, como o Instituto Mudavidas, que ajuda a recolar moradores de rua no mercado de trabalho por meio de oficinas de capacitação em CTAs.
No CTA Vila Mariana, é oferecido o Projeto Solidariedade Com Arte, que capacita os usuários por meio de oficinas de mosaicos.
Uma das principais barreiras nessa jornada é o preconceito de muitas empresas, que se recusam a dar oportunidade a quem não tem uma residência, mesmo que a pessoa tenha a plena competência para assumir a função.
Para reinserir o morador de rua no mercado de trabalho, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho mantém o projeto POP Rua. “O objetivo é reduzir o índice de evasão escolar e oferecer cursos profissionalizantes. A iniciativa oferece 30 vagas e conta com capacitação na área têxtil”.
Cuidado com os oportunistas!
Em muitas partes do bairro, principalmente na Rua Domingos de Morais e Largo Ana Rosa, há muitas pessoas que se passam de desabrigados apenas para praticar a mendicância. Elas se enquadram em outro perfil: os oportunistas.
Essas pessoas possuem residências em outras áreas da cidade e se instalam no bairro apenas para se aproveitar da boa vontade alheia. Elas passam o dia pedindo dinheiro e, à noite, retornam às suas casas.
“As abordagens para pedir dinheiro costumam ser violentas. Usam crianças, ameaçam. Uma amiga, que mora no Sapopemba e trabalhava no bairro, foi ameaçada após identificar uma vizinha do bairro dela praticando mendicância no Largo Ana Rosa”, relata uma moradora que prefere não identificar.
Ela afirma que já informou a subprefeitura, a Polícia Militar e apresentou uma proposta ao Conselho Participativo Municipal VM para que se pense numa ação para identificar essas pessoas. “São pessoas aproveitadoras”.
Um comerciante do entorno do Largo Ana Rosa conta que até ofereceu emprego a um dos jovens acampados. “Ele me disse que ganha mais na rua”, diz, inconformado.
No primeiro semestre deste ano, a Secretaria de Assistência Social realizou mais de 2 mil abordagens às pessoas em situação de rua no bairro. “Foram “173 acolhimentos, 31 encaminhamentos para Núcleos de Convivência, 35 para atendimentos de saúde e 16 para outras redes”, sem especificar quais redes.
O número de pessoas que retornaram às suas famílias ainda é muito pequeno. Neste ano, de acordo com a pasta, 4 moradores conseguiram retomar os vínculos familiares e deixar as ruas.
No bairro, a rede de amparo aos moradores de rua conta com 20 serviços assistenciais. Para idosos, há uma instituição de longa permanência e um núcleo de convivência. Para crianças e adolescentes são quatro serviços de acolhimentos institucional, três centros para crianças e adolescentes, e um serviço de proteção social às vítimas de violência”.
Embora não existam dados atuais, o número de pessoas em situação de rua no bairro cresceu. A gravidade da situação costuma ser abordada pelas consequências: pela violência, pelo incômodo... É preciso ir além e compreender a causa. Ela é humana, é da sociedade e reflete a crise econômca. Conscientes disso ou não, todos somos responsáveis. Contudo, para não alimentar oportunistas e ajudar realmente a quem precisa, a SMADS alerta: “As doações devem ser feitas diretamente à Prefeitura. Se encontrar alguém em situação de rua, ligue para 156”.
 

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