ENTREVISTA
09/07/2019 - Edição 194 - Jul/2019
Denise Delfim

Entrevista: Mônica marsola
Pedaço da Vila: Como nasceu a Camerati?
Mônica Marsola: Ela nasceu dos direitos autorais que o Cláudio Lucci recebeu pelas músicas Vecchio Novo e Colagem, gravadas pela Elis Regina no disco Romaria (1977). Eu e o Cláudio nos casamos e, com esse dinheiro, compramos a escola onde trabalhávamos. No princípio ela era uma escola só de violão. Aos poucos fomos ampliando e, em 1985, época em que a escola ainda se chamava Violão e Cia, começamos a trabalhar em parceria com uma escola de Ensino Fundamental. Conosco, os alunos faziam aulas de música, teatro, expressão corporal, artes plásticas. Pouco depois, nossa escola mudou o nome para Camerati e virou um polo cultural do ABC. Por ela passaram Arrigo Barnabé, José Miguel Wisnik, Ná Ozette, Luiz Tati, Renato Teixeira, Bocato e Guilherme Arantes. Após 13 anos em Santo André, eu vim para a Vila Mariana e logo abri a unidade do bairro. A Vila sempre me atraiu. Esse aspecto de interior, com árvores, casinhas, relação de vizinhos... me encantou.
 
Pedaço da Vila: Qual é a sua metodologia de ensino?
Mônica Marsola: Quando uma criança vem estudar aqui, não importa se ela quer ser músico profissional. O que importa é como ela vai usar essa linguagem para se expressar na vida. Essa premissa nos guia desde o começo da escola, que tem uma coluna vertebral ligada mais a criação do que a esse eruditismo — que prega ao músico tocar 50 mil notas por segundo. O meu propósito aqui não é esse. Não adianta eu colocar mais de dez alunos numa sala. Quando se faz isso numa aula de canto, por exemplo, qual é a voz que se quer desse aluno? Como é que você vai ouvi-lo de verdade e ajudá-lo a encontrar a sua personalidade? O professor de música não pode achar que a criança precisa aprender apenas a partitura para saber tocar. O ouvido é primeira ferramenta musical. Eu também ensino partitura, tenho uma metodologia bem defi-nida, mas o meu maior propósito é fazer com que a criança desperte a sua identidade musical brincando. A teoria precisa ser trabalhada respeitando o limite de interesse do aluno.
 
Pedaço da Vila: A música ajuda a crianças em quais aspectos da vida?
Mônica Marsola: A música é fundamental para as crianças. Na escola, temos, por exemplo, musicalização para bebês. Nessa fase, o objetivo não é fazer a criança sair tocando, mas oferecer a ela uma infância musicalmente saudável. E como se faz isso? Quando você canta as músicas que ouviu da sua mãe para o bebê, você está aproximando ele da sua história. Essa infância musicalmente saudável inclui estimular a sua percepção por meio de objetos sonoros, diferentes tons de música, texturas... Não adianta colocar a criança sentadinha para tocar piano. Ela precisa brincar com o piano, explorar o instrumento... sem muita teoria. Antes de tocar é preciso conhecer! É muito importante estimular a criatividade das crianças, dar a elas a chance de criar. Na brincadeira você desperta a linguagem musical, o ritmo, as percussões corporais, o canto, as letras, melhora o vocabulário, a matemática...
 
Pedaço da Vila: A senhora também é profes-sora de música na escola Liceu Pasteur...
Mônica Marsola: No Liceu Pasteur eu ensino musicalização para crianças de 3 a 11 anos. Neste Carnaval eu comecei um trabalho com os alunos de 9 a 11 anos sobre como criar um samba-enredo. Logo após o anúncio da Mangueira como vencedora do Carnaval do Rio de Janeiro, realizamos uma mostra na escola com o tema Mulheres Brasileiras e Francesas. Uma amiga francesa me enviou uma versão em francês do samba-enredo da Mangueira e trabalhei isso com as crianças. Foi um processo de descobertas de palavras, de artistas. Ouvimos o samba-enredo, conversamos sobre a letra, sobre a nossa cultura... Ao fim, a gente escreveu um novo samba-enredo. 
 
Pedaço da Vila: Como é a relação dos jovens com a música depois da internet?
Mônica Marsola: Hoje, os pré-adolescentes e adolescentes não sabem mais nada sobre a música brasileira. O jeito de ouvir música se tornou individual. Quando eu era criança, ouvia com meu pai, numa vitrola. Agora as crianças ouvem as músicas no YouTube, com um fone no ouvido, isoladas. E pensam que música popular brasileira é aquela mais curtida. O meu neto, de 14 anos, me fala assim: ‘essa música tem mais de um milhão de likes. Você acha que ela não é boa?’ Estamos vivendo um momento extremamente complicado...
 
Pedaço da Vila: E o papel dos pais nisso tudo?
Mônica Marsola: Não basta apenas falar não. 
Muitos pais ouvem as músicas ‘do filho’ e se limitam a dizer que é uma porcaria. A gente precisa apresentar as nossas músicas para eles. As crianças de hoje não conhecem muita coisa porque os pais não ouvem. 
 
Pedaço da Vila: Que desafios esse cenário impõe ao ensino musical?
Mônica Marsola: A tecnologia provocou uma revolução no modo de relacionar com a música e não podemos negar isso. Precisamos nos aliar a essa tecnologia para nos aproximarmos das crianças. O educador precisa despertar a curio-sidade, fazer com paixão. O mais importante na educação é valorizar o professor. Ele é o primeiro elo da cadeia da educação. E o professor precisa mudar. A postura do professor ‘eu sei tudo’ não cabe mais. Precisamos renovar o jeito de dar aula, e urgente!
 
Pedaço da Vila: A Camerati faz intercâmbios com duas escolas na França. Como tem sido esse projeto? 
Mônica Marsola: No Liceu Pasteur, uma coordenadora francesa me passou o contato de um casal de amigos que tem duas escolas de música na França com a metodologia de ensino parecida com a da Camerati. Eu conversei com eles por dois anos até que esse casal veio conhecer a Camerati. Eles propuseram um intercambio e me convidaram para passar 15 dias lecionando para os alunos das duas escolas deles, uma em Paris e a outra no interior da França. Fiquei durante 15 dias no interior da França com os alunos das duas unidades, só fazendo música.
 
Pedaço da Vila: Há diferenças entre os alunos franceses e brasileiros?
Mônica Marsola: O que mais senti foi a dureza, no sentido de fazer só o que é permitido. Essa dureza aparece musicalmente, na falta de jogo de cintura, de se permitir ousar. As crianças francesas são bastante disciplinadas, essa é uma diferença de cultura. Por outro lado, todos sabem ler partitura. Após quinze dias no interior, fomos a Paris e apresentamos concertos. Eu fui para lá em 2016. No ano seguinte foi a vez da Camerati receber 15 anos alunos dessas escolas. Aqui, eles me ajudaram muito, principalmente com o meu coral, que é gratuito e para todas as idades. É um coral com 20 integrantes que canta músicas franco-brasileiras. Nos apresentamos uma vez ao mês. Na época, os alunos franceses pagaram para seis crianças da comunidade Mário Cardim estudarem violão na Camerati. Fomos na comunidade, chamei os pais das crianças e expliquei a proposta. Hoje eu ensino sete crianças dessa comunidade. Os jovens franceses iniciaram essas aulas de violão e eu continuei. Essa experiência tem sido bárbara! O mais importante nisso tudo é: essas crianças nunca tinham feito aula de musicalização e entraram direito no violão... Em junho do ano que vem quero levar alguns alunos da comunidade Mário Cardim para a França. 
 
Pedaço da Vila: A Camerati chega aos 40 anos. Para onde seu projeto caminha agora?
Mônica Marsola: Estamos muito felizes aos 40! A minha ideia é ampliar ainda mais a sua vocação social e projetos de intercâmbio com países de língua francesa, como Luanda. Sus-tentar esse projeto requer amor. No Brasil, tem uma coisa que é uma crueldade: se você é uma empresa particular, você não consegue apoio de ninguém. Eu, por exemplo, preciso de espa-ços para ensaiar e não consigo no bairro. Fui na Gibiteca, fui na Cinemateca... A resposta é “não”. Assim como acontece na França, preci-samos dessa integração da comunidade para desenvolvermos projetos coletivos no bairro. Fortalecer essa relação cultural com o entorno é um dos nossos objetivos daqui para frente. 
 

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