UMAS E OUTRAS
23/05/2019 - Edição 192 - Abr/2019
Denise Delfim

Uma vida na Vila Mariana
Cecilia Thompson (1936-2019) foi uma mulher à frente de seu tempo. Jornalista, escritora, atriz, tradutora, colunista e pensadora brasileira, desafiou os costumes, enfrentou a ditadura, a separação de seu marido — e grande amor — Gianfrancesco Guarnieri (que morava na Rua Áurea), e a aposentadoria involuntária do Estadão, veículo em que trabalhou por mais de 30 anos. Contudo, não conseguiu aguentar a morte do filho, Flávio Guarnieri, em 2016, que a fez desenvolver uma displasia maligna severa.
 
Era uma apaixonada pela Vila Mariana, onde nasceu — na Av. Cons. Rodrigues Alves —, cresceu — nas ruas Pelotas e José Antônio Coelho —, casou-se —  na casa da Travessa Humberto I —, e viveu com seus filhos, até 1968, na antiga Rua Santo Aleixo — atual Rua Augusto de Freitas. 
 
Na Casa — com “C” maiúsculo, como ela a chamava — recebeu muitos intelectuais e artistas: Carlos Lira, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Gilberto Gil, Maria Bethânea, Caetano Veloso, .... “Gente de teatro, de cinema, pessoas com quem compartilhávamos convicções, ideais e folia!”, dizia.
 
Mais tarde mudou-se para o Condomínio Elias Assi, na Rua Bagé. Foi entrevistada pelo Pedaço da Vila em 2002 e, em 2008, contou sua vida inteira na Vila Mariana em nossas páginas, ilustrando-a com as fotos de todas as suas casas no pedaço. 
 
Ao sair do Estadão, em 2008, onde era editora da coluna São Paulo Reclama e Seus Direitos, Cecília Thompson assinou por uma década a coluna Vila Reclama no Pedaço da Vila, e criou ainda mais laços com a vizinhança ao resolver os problemas do bairro. Colaborou até 2016, quando Flávinho Guarnieri faleceu. Um grande baque emocional que culminou com sua morte no dia 18 de abril, Quinta-feira Santa, aos 82 anos, em seu apartamento na Rua Bagé.
 
No relato biográfico da edição 72, escreveu: “Nas pequenas aldeias que o amor por alguém — ou paixão por um bairro — formam mesmo dentro das grandes cidades, cinco ruas são os muros da vila em que nasci, cresci, me apaixonei, casei, tive filhos e vivo até hoje... Sai dessa minúscula aldeia apenas três vezes: quando a família mudou para a Cidade Vargas, no Jabaquara, quando casei e fomos para uma casinha de bonecas no Centro — perto do Teatro Arena — e, depois, quando fomos morar na Europa por algum tempo.”
 
Cecilia foi cremada na Vila Alpina e pediu para não ter Missa de Sétimo Dia. Mas, tinha um desejo expresso na edição 72: queria suas cinzas de volta à sua Casa na antiga rua Santo Aleixo. 
 
O filho Paulo Guarnieri, não por acaso, contou ao Pedaço da Vila que a atual proprietária da Casa, Regina Sodré, leu o relato de Cecília Thompson em 2008 no jornal. E ligou para dizer que o jardim da Casa está aberto para receber suas cinzas. A vila realizou seu último desejo.

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