ENTREVISTA
29/03/2019 - Edição 191 - Mar/2019
Denise Delfim

ENTREVISTA: Ana Eugênia de Carvalho Campos
A nova diretora-geral do Instituto Biológico, a pesquisadora Ana Eugênia de Carvalho Campos, trabalha na instituição científica desde 1997, com especialização em formigas. Ela foi assessora do seu antecessor, Antônio Batista Filho, em 2004, e, ao seu lado, trabalhou até 2016, quando assumiu a direção do Núcleo de Inovação Tecnológica. A partir de 2016, foi a vice diretora-geral. Desde janeiro no novo posto, ela fala a seguir sobre a excelência do IB nas áreas de sanidade animal e vegetal, a proteção ambiental, o controle da praga no campo, o contato com o agricultor e sobre os planos para, enfim, restaurar o IB
 
Pedaço da Vila: A senhora acabou de assumir a função de diretora-geral do Instituto Biológico. Como foi a sua trajetória?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Em maio de 1997, assumi a função de pesquisadora científica [no IB]; a minha especialidade são as formigas. Em fevereiro de 2004, o doutor Antônio Batista tornou-se diretor-geral do Instituto Biológico com uma visão muito moderna. Eu fui assessora dele de 2004 a 2016, quando eu assumi a diretoria do Núcleo de Inovação Tecnológica. Junto com o Batista, trabalhei por 15 anos. De 2008 a 2018, fui sua vice-diretora. Como diretor, o Batista formou uma equipe muito coesa e promissora, revelando o trabalho do IB e o aproximando da sociedade. Somos uma instituição pública de pesquisa que trabalha para a população: do pequeno consumidor ao grande produtor. A nossa responsabilidade é devolver um serviço de qualidade nas áreas de sanidade animal e vegetal, e de proteção ambiental, no controle da praga no campo, na doença da planta... O instituto Biológico ensina o agricultor a trabalhar de forma correta.
 
Pedaço da Vila:  O que mudou no IB com a gestão do doutor Antônio Batista?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Para a comunidade, o Batista implantou o Instituto Biológico de Portas Abertas. É importante que a comunidade saiba o que é feito aqui. Pensando na educação, abriu o museu Planeta Inseto, que é uma inspiração para novos pesquisadores. A criança que visita o museu poderá ser um pesquisador no futuro. Ele implantou também o curso de Pós-graduação, para formação de recursos humanos com a cara do Instituto Biológico, com conhecimento aplicado na prática. Em 2009 tivemos a formação da nossa primeira turma de mestrandos; pessoas que podem trabalhar junto com o produtor, numa casa de agricultura, no Ministério de Agricultura, numa instituição de pesquisa... Os nossos projetos têm caráter inovador, produzem conhecimentos que podem ser aplicados, que podem haver transferência. Isso é um salto impressionante para o Instituto Biológico e com consequência para a agricultura Paulista.
 
Pedaço da Vila: Agrotóxicos proibidos ao redor do mundo foram liberados no Brasil. Como o Instituto Biológico trata a questão dos defensivos e o meio ambiente?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Desde o ano passado — graças ao aporte financeiro da Fapesp de quase 12 milhões de reais — o Instituto Biológico tem três grandes áreas estratégicas de trabalho: o controle biológico, a inovação na sanidade animal e a genômica. Quando digo genômica, estou falando de genética. A genômica é extremamente importante no controle biológico e na sanidade animal porque são organismos vivos que causam ou podem resolver problemas; é quando usamos o inimigo natural — seja ele patógeno, bactéria, fungo, praga, inseto, hematoide ou ácaro — para diminuir o uso de substâncias químicas e causar menos impacto no ambiente, na água e no solo. Essa é uma área que temos muita capacidade de crescimento e de transferência de tecnologia para a agricultura brasileira. Temos coleções de microrganismos que vêm sendo montadas e aumentadas em função das pesquisas. Temos aqui bancos de fungos patogênicos e benéficos, bancos de bactérias, bancos de conhecimentos de ácaros, de predadores... É uma infinidade de pesquisas aplicadas no controle biológico. Muitos desses microrganismos estão sendo mantidos há muitos anos. Esse material precisa ser estudado para saber qual é a eficiência dele contra determinada praga e determinada doença. E vemos resultados extremamente positivos, porque é necessário produzir mais alimentos. O Brasil é extremamente importante na alimentação do mundo. Temos o compromisso de aumentar a nossa produção em 40%. E, para isso, precisamos ter uma agricultura tecnificada. Ou seja, que tenha tecnologia para produzir mais alimento na mesma área utilizada hoje e com menos impactos ao ambiente e à saúde humana. Então, dentro dessa perspectiva da agricultura sustentável, estamos totalmente aderidos com as nossas pesquisas porque temos tanto material, bem como pesquisadores especialistas nessas áreas que, por meio da pesquisa científica, irá devolver à sociedade alimentos mais saudáveis. A gente pensa tanto na agricultura orgânica como na grande cultura como a soja e a cana de açúcar. É possível que, nesses casos, um organismo natural não dê conta sozinho, mas, associado a um controle químico, sim. O controle biológico é uma ferramenta importante e que não há como descartar em muitas situações, pois ajuda a diminuir os impactos. Se hoje o IB tem um conhecimento que está num determinado patamar, daqui a dois anos estaremos em outro, pois temos potencial para transferir o conhecimento para a iniciativa privada, que é a fabricante. Temos um papel social, um conhecimento que irá gerar produtos e empregos. Aqui, produzimos conhecimento aplicado. O nosso agricultor precisa muito do olhar do governo para produzir e escoar a sua produção. O controle biológico é uma das ferramentas para garantirmos um alimento seguro.
 
Pedaço da Vila: E o trabalho de prevenção no campo?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Sempre tivemos pesquisadores trabalhando no campo, entendendo e trazendo para as nossas coleções quais são os microrganismos e organismos que causam as doenças tanto no animal quanto no vegetal. No animal, a gente sabe quais são os vírus e bactérias que circulam no país e que causam as doenças que contaminam nossos rebanhos; estamos capacitados para entender quais são os riscos. Temos uma ação muito próxima com a defesa agropecuária do Estado de São Paulo e com o Ministério da Agricultura. A gente trabalha ajudando a implementar os programas de controle de doenças. Quando falo de doenças, falo também de doenças que podem passar para o homem, como brucelose, tuberculose... Trabalhamos com a defesa agropecuária para garantir um alimento seguro, tanto para o consumo interno quanto para a exportação. Como temos o conhecimento desses vírus e microrganismos que circulam, também temos grande potencial de nos associarmos às empresas para compor vacinas contra os vírus que circulam no Brasil. Hoje, o produtor, muitas vezes, tem que importar vacinas que contém cepas de vírus de outros países. Só que nem sempre todos os vírus de fora circulam no Brasil. Será que o nosso rebanho está totalmente protegido? Precisamos customizar as nossas vacinas. O Instituto Biológico tem plena capacidade de transferir todo esse conhecimento e essa tecnologia para que o produtor, desde o pequeno ao agropecuarista, tenha insumos para utilizá-lo com total segurança.
 
Pedaço da Vila: Como é o trabalho voltado aos pequenos produtores?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Temos aqui um programa, implementado na época pelo doutor Batista, chamado Prosaf — Programa de Sanidade em Agricultura Familiar. Quando falamos em agricultura, engloba a agropecuária. As casas de agricultura, junto com a defesa agropecuária, sabem quais são as demandas das regiões do estado de São Paulo. Elas nos trazem a demanda e nossos pesquisadores planejam um dia de campo com palestra e informação. Os pesquisadores também se deslocam à propriedade do produtor. O trabalho é de corpo a corpo e é muito importante para coletarmos as demandas que o produtor precisa — pois nossas pesquisas são direcionadas para eles mesmos! Então, a gente faz um trabalho de conscientização. Muitas vezes o problema é na alimentação, no manejo do animal, na vacinação. São coisas simples que evitam prejuízos para o produtor e que promovem o aumento da produção. O Prosaf é um programa extremamente eficiente que nos permite atingir o produtor.
 
Pedaço da Vila: O agronegócio foi a tábua de salvação do Brasil durante a crise econômica dos últimos anos. Isso fez com que o Instituto Biológico recebesse mais investimentos?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Houve por conta da Fapesp. Esse investimento de quase R$ 12 milhões é um aporte extremamente importante que há muito tempo não tínhamos. Foi uma consequência, inclusive, de uma ação da Secretaria Estadual de Agricultura, então sob a gestão do Arnaldo Jardim, que mostrou à Fapesp a importância desse aporte para fazermos o nosso papel. Nesse tempo, também tivemos um aporte do governo para a infraestrutura de laboratórios. A nossa deficiência com o governo são os recursos humanos, por conta da falta de concursos. Vamos trabalhar para efetivamente atingir nossos objetivos. Se você tem vários projetosem andamento sem definir as prioridades, os recursos ficam pulverizados. A partir do momento que você direciona, o secretário consegue captá-los melhor. Hoje, a gente está trabalhando efetivamente pensando em 2030. Como é que o mundo vai se alimentar em 2030? Com toda essa tecnologia, temos que estar inteiramente antenados. O doutor Batista foi promovido para ser coordenador da Agência de Pesquisa Tecnologia do Agronegócio (APTA), que abarca todos os institutos da secretaria estadual. Ele está lá, trabalhando para unificar esses institutos, o que está sendo muito interessante, com muitas reuniões entre outros diretores para conversar sobre as áreas estratégicas que a secretaria quer implantar nos institutos de pesquisas. O Secretário de Agricultura e Abastecimento [Gustavo Junqueira] é extremamente aberto e acessível. Veio aqui conhecer os laboratórios e conversar sobre as ideias. Ele é do agronegócio, mas não é pesquisador. É um administrador de empresas.
 
Pedaço da Vila: Há muitos anos a comunidade trabalha para que o Instituo Biológico seja restaurado. Como está essa situação?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Já estamos adiantados no assunto. Somos uma instituição antiga, num prédio antigo e com equipamentos muito novos. Por isso, minha maior preocupação é com incêndio. Mas não é só isso: se há uma queda de energia pode queimar um equipamento que custou, por exemplo, um milhão de reais. Imagine quanto custa fazer a manutenção de um equipamento desse valor? Já conversei com o secretário de agricultura, ele está ciente de que o Instituto Biológico precisa de restauro em tudo; mas, eu estou dando prioridades. Vamos fragmentar esse grande projeto de restauro, começando pela parte elétrica e de prevenção de incêndio e depois a parte hidráulica. Ao mesmo tempo, o corpo de bombeiros de Campinas, que está trabalhando junto com a APTA, veio aqui para saber o que precisa para a proteção de incêndio, como chuveiros, detector de fumaça, sirenes. Então, vamos fazer essa tratativa para conseguir restaurar o IB por etapas, pois é muito caro. Há laboratórios com segurança biológica máxima, que têm equipamentos moderníssimos e que precisam estar com as partes elétrica e de incêndio totalmente adaptadas. A segurança do nosso prédio é uma das maiores preocupações que eu tenho neste início da minha gestão. Dentro da área de sustentabilidade, ganhamos um edital junto com a Eletropaulo [hoje Enel] de eficiência enérgica. Iremos implantar placas solares para diminuirmos o uso de energia elétrica. Esse projeto, subsidiado por duas empresa, já está em processo de implantação. A mesma coisa na unidade de Campinas. Lá, teremos energia excedente, que será vendida.
 
Pedaço da Vila: O Instituto Biológico foi criado para combater a broca que acabava com os cafezais no início do século 1920. A senhora
assume o Instituto Biológico em que momento?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Eu assumo a diretoria do Instituto Biológico num momento novo: de mudanças da secretaria sobre as áreas estratégicas. São os pesquisadores que irão compor essas áreas estratégicas, porque somos nós que fazemos. Hoje,  precisamos pensar em conjunto para um Instituto Biológico totalmente inserido e que tenha uma ação muito efetiva no agronegócio do futuro, devolvendo para o consumidor um alimento mais saudável e dando ao produtor mais segurança. Estamos próximos ao corpo técnico, pois eu, como diretora, não conheço todas as áreas. Quero uma administração totalmente participativa.
 
Pedaço da Vila: E qual é a sua expectativa como diretora do Instituto Biológico?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Acho muito importante falar que eu estou me sentindo muito segura como diretora, pois tenho o apoio da população do Instituto Biológico; isso é muito importante! Mesmo estando na diretoria eu não tirei o pé do laboratório e do campus. Sou professora do nosso curso de pós-graduação. Em todas as reuniões, tenho agradecido esse apoio, pois andorinha sozinha não faz verão. Temos uma equipe maravilhosa! Hoje contamos com nove unidades. Antes tínhamos Instituto Biológico em Campinas, São Paulo, Descalvado e Bastos. Na última reforma do decreto da APTA, o IB foi ampliado para Ribeirão Preto, Votuporanga, Sorocaba, Pindamonhangaba e Araçatuba. Então, hoje temos ações que antes não tínhamos, como sanidade das abelhas. O nosso laboratório em Pindamonhangaba trabalha com sanidade apícula. Com essas unidades, a nossa capilaridade aumentou e essa integração com as outras coordenadorias da secretaria é de fundamental importância para colocarmos em campo todo o nosso conhecimento. Outra parte importante do nosso trabalho é a proximidade com a coordenadoria de defesa agropecuária. Temos tudo para dar um passo dentro dessa agricultura do futuro. É esse o nosso olhar.
 
Pedaço da Vila: Como a senhora vê a relação do Instituto Biológico com a comunidade?
Ana Eugênia de Carvalho Campos: Eu acho, e isso eu até falei para o secretário, que a comunidade precisa estar conosco, pois é ela o nosso consumidor. E a gente trabalha tanto para a comunidade que mora aqui na rua do Instituto Biológico até aquela que está lá na fazenda produzindo. O doutor Batista começou a ação Corredor Verde de Polinizador [na Av. Dante Pazzanese], o Plantio Global, que será dia 17 de março (veja página 11), o Museu Aberto, a Festa Junina. Então, vamos continuar com esse contato e queremos ampliá-lo, estando totalmente abertos à comunidade e ao jornal Pedaço da Vila. Neste mês eu recebi, pelas mãos do Ministro da República de Vila Mariana, Sr. Walter Taverna, o título de Ministra de inovação. E o secretário estadual de agricultura recebeu o título de Ministro da Agricultura. Como Ministra da Inovação, já quero a proximidade da nossa comunidade, pois eu preciso ouvi-la. 

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