ENTREVISTA
05/11/2018 - Edição 187 - Out/2018
Zaqueu Fogaça e Denise Delfim

Leandro da Hora
Formado em engenharia civil e direito, o Capitão do 2° Subgrupamento do Corpo de Bombeiros de São Paulo, Leandro da Hora (37) fala, na entrevista a seguir, sobre as principais ocorrências na Vila Mariana,  como é a formação dos profissionais mais respeitados do país, revela de que forma a tecnologia tem sido fundamental para salvar vidas e explica os impasses em torno do Auto de Vistoria, o que dificulta a fiscalização de prédios que não atendem as determinações de segurança: “Há um decreto em fase de aprovação em São Paulo”
 
Pedaço da Vila: O senhor é Capitão do 2º Subgrupamento do Corpo de Bombeiros, na Vila Mariana. Como foi seu percurso profissional até aqui?
Leandro da Hora: Eu me formei na Academia de Polícia Militar, em 2001. Fiquei dois anos e meio no policiamento e, em 2007, vim para o Corpo de Bombeiros. Depois de oito anos trabalhando na Zona Leste, onde era Tenente, fui promovido a Capitão e transferido para São Bernardo do Campo, onde comandava as cidades vizinhas. Na minha trajetória como bombeiro participei de grandes emergências. Fui supervisor no desabamento do prédio no Largo do Paissandu e na queda do avião no Campo de Marte, em maio, entre outros. Sou formado em direito e engenharia civil e sou especialista na área operacional. Sempre gostei de estar na linha de frente do trabalho. Em 2017 vim para a Vila Mariana para assumir o comando dessa área, que mobiliza hoje 152 bombeiros e é considerada uma das mais importantes da cidade. O nosso quartel no bairro conta com 20 bombeiros em serviço diariamente.
 
Pedaço da Vila: Ao chegar no bairro, qual foi a sua primeira impressão?
Leandro da Hora: O quartel da Vila Mariana é o coração da área central da cidade e dispõe de uma estrutura de trabalho muito boa, com viaturas especializadas, como o caminhão Auto Bomba Tático, que tem capacidade para transportar seis bombeiros e jogar água em alta pressão; temos uma unidade de suporte intermediária tripulada por um enfermeiro que nos dá um recurso a mais para atender as vítimas. A população dessa região é bastante flutuante. Na parte da manhã, a movimentação é de trabalhadores; na parte da noite, de moradores. As ocorrências são bastante diversificadas em função dessa grande movimentação.
 
Pedaço da Vila: Qual é a área de abrangência do Quartel da Vila Mariana?
Leandro da Hora: A cidade de São Paulo é dividida em dois subgrupamentos. Eu comando o 2º Subgrupamento, que compreende a área da Vila Mariana, Jabaquara, Heliópolis, Campo Belo, Sacomã, Paulista e a Assembleia Legislativa. Nessa área central da cidade circulam, em média, 3 milhões de pessoas todos os dias. O volume de ocorrências é alto. Para dar conta, a gente tenta distribuir os quarteis. Hoje, a gente consegue atender a demanda, mas precisamos fazer algumas reestruturações, pois a população aumentou e, consequentemente, as ocorrências.
 
Pedaço da Vila: Quais são as principais ocorrências atendidas nessa região?
Leandro da Hora: Em razão da vida noturna da cidade, atendemos muitas vítimas de acidentes automobilísticos presas nas ferragens. Com o rigor de leis e de fiscalização, isso tende a diminuir. Em nossa área, cerca de 70% das ocorrências envolvem incêndios ou acidentes automobilísticos como atropelamento, queda de motoqueiro. Muita gente não sabe, mas temos um volume muito grande de incêndios. Em nossa área, há muitos prédios invadidos, moradias e cortiços com redes elétricas precárias. Por ser também uma região com muitas pontes, atendemos várias ocorrências de suicídio. De modo geral, as ocorrências mudam de acordo com a estação do ano. No verão, por exemplo, atendemos quase que diariamente muitas vítimas de enchentes. As nossas viaturas são equipadas com botes e os bombeiros são especializados também nesse tipo de resgate. A gente atende por terra, ar e água. O nosso problema atualmente é que aumentou o número de ocorrências por atropelamento.
 
Pedaço da Vila: A redução de velocidade nas grandes avenidas refletiu no trabalho dos Bombeiros na região?
Leandro Da Hora: Sim, diminuíram os acidentes. Para quem pensa em descolamento rápido, o radar foi ruim. Mas, para quem pensa na preservação da vida, ele foi eficaz. 
 
Pedaço da Vila: Atualmente, o que se busca na formação de um bombeiro?
Leandro da Hora: O que se espera de um bombeiro atualmente é que ele saia da formação pronto para atender as ocorrências, muito bem condicionado fisicamente e emocionalmente. No estado de São Paulo, o bombeiro pertence à Polícia Militar. Ou seja, a sua formação é militar também. Quando começa a formação, os grupos são divididos de acordo com suas preferências de carreira. Todos fazem a mesma prova do curso básico, que acontece na escola de formação de soldados da Polícia Militar, em Pirituba, e na Escola Superior de Bombeiros, em Franco da Rocha. A parte básica ensina o bombeiro a ser um militar, a marchar, a conhecer a disciplina e as regras jurídicas. Já o curso específico de bombeiro ensina matérias que vão prepará-lo para o dia a dia, como salvamentos em altura, terra e água. Do curso básico ao curso específico, a formação do bombeiro dura um ano e seis meses o de Pirituba, e seis meses o de franco da Rocha. 
 
Pedaço da Vila: Como a tecnologia ajuda no trabalho dos bombeiros?
Leandro da Hora: A maneira de o bombeiro trabalhar hoje é muito mais segura e eficiente em função da tecnologia que dispomos, dos equipamentos altamente especializados e da comunicação instantânea. Hoje, enquanto nosso caminhão sai à rua para atender a uma ocorrência, a nossa base fica em constante contato com essa equipe, visualizando no computador o local em que o carro está, se tem algum problema à frente e apontando o caminho para chegar mais rápido. Também temos tecnologia para, caso necessário, abrir e fechar os semáforos. Essa nossa região é toda monitorada por câmeras, o que nos facilita muito. Outro exemplo da importância da tecnologia em nosso trabalho é a câmera térmica, que mede a temperatura. Quando um metal de um edifício é exposto às altas temperaturas do fogo, ele perde as propriedades e coloca a estrutura em risco. Por meio da câmera térmica conseguimos saber qual a situação e o tempo que temos. Ela nos ajuda muito, principalmente para encontrar vítimas dentro dos prédios. Num prédio tomado por incêndio e fumaça, por exemplo, em que a vítima está desacordada dentro de um armário, a câmera térmica consegue identificá-la pela temperatura do corpo.
 
Pedaço da Vila: O bombeiro trabalha num ambiente de muita pressão, entre a vida e morte. Como é cuidado o aspecto emocional?
Leandro da Hora: No trabalho há, por um lado, frustrações, traumas; por outro, uma sensação plena após salvar uma vida, uma sensação ao colocar a cabeça no travesseiro que não tem preço. Muitos bombeiros passam por problemas familiares, financeiros e, mesmo assim, estão sempre prontos para socorrer quem precisa. O Corpo de Bombeiros tem um núcleo de suporte emocional ligado à PM que oferece uma rede de psicólogos especializados em ajudar bombeiros e policiais militares que sofrem traumas nas ocorrências ou que entram em depressão.
 
Pedaço da Vila: O bairro abriga muitos prédios históricos, com estruturas antigas, que carecem de restauração. A exemplo do Museu Nacional, no Rio, podem pegar fogo a qualquer momento. Há fiscalização por parte do Corpo de Bombeiros em patrimônios do bairro?
Leandro da Hora: Por lei, o Corpo de Bombeiro não pode ir num local para fiscalizar por conta própria. O bombeiro só atua em situação de emergência. Só conseguimos interditar um prédio durante uma emergência. A partir do momento em que deixamos o local com a garantia de segurança, passamos o comando para a Defesa Civil, que tem a competência para interditar. Há um decreto em fase de aprovação em São Paulo que dá a competência para o bombeiro de fazer a fiscalização de prédios que não atendem as determinações de segurança. Hoje, infelizmnte, ainda não é assim.
 
Pedaço da Vila: Na prática, como esse decreto irá impactar o trabalho do bombeiro?
Leandro da Hora: Ele permitirá que o bombeiro faça também um trabalho de prevenção, indo até uma edificação para fiscalizar e, se encontrar irregularidade, interditar. Hoje, o que o bombeiro faz? Ele emite um auto de vistoria só para dizer assim: esse local está com a prevenção de incêndio ok. Para liberar a licença de um novo imóvel, a prefeitura exige que o proprietário solicite um auto de vistoria junto ao bombeiro. Esse auto tem um prazo de 2 anos. A ideia é que o bombeiro faça esse auto de vistoria de modo preventivo também, que haja a fiscalização. É isso que o decreto estabelece. O bombeiro pode colaborar muito mais por meio dessa fiscalização de prevenção, pois poderá evitar muitas tragédias.

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