CIDADÃO DO MUNDO
28/09/2018 - Edição 186 - Set/2018
Márcia Bulle

O caldeirão cultural da Espanha

Sevilha, conhecida pelos romanos como Hispalia, é a maior cidade do sudoeste da Espanha. Assim como o restante da Andaluzia, permaneceu sob domínio mouro durante séculos e o resultado disso está espalhado por toda a cidade. Talvez seja esse passado, quando mouros, cristãos, judeus e ciganos conviviam em relativa harmonia entre as muralhas da cidade, que dê o caráter peculiar da alma sevilhana, expressa no flamenco, nas touradas e na arte mudéjar, que embeleza seus edifícios. Sem dúvida, esse imenso caldeirão cultural produziu uma cidade não só agradável, mas muito instigante. E caminhar por Sevilha é uma das melhores formas de decifrá-la.

Uma de suas principais atrações e, aliás, a mais visível, é a Catedral de Santa María de la Sede. A catedral gótica está localizada no antigo bairro mouro de Alfama e foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1987. Ela ocupa o lugar de uma grande mesquita. Construída pelos mouros de 1184 a 1198, algumas de suas estruturas ainda permanecem, como La Giralda, sua torre com o campanário, o Patio de los Naranjos, onde os fiéis muçulmanos lavavam suas mãos e pés em uma fonte antes de rezar, e a Puerta del Perdón, que era a porta principal de acesso à mesquita.
 
Após a reconquista do Rei Santo Fernando III, em 1248, a mesquita foi consagrada como Catedral. Mas as obras começaram mesmo para valer em 1434 e levaram quase um século para serem concluídas. Dentro dela, na Capilla Mayor, está o Retablo Mayor com Santa María de la Sede, santa padroeira da catedral. Ao longo do tempo, elementos renascentistas, barrocos e neoclássicos foram acrescentados. Suas capelas reúnem trabalhos de Murillo, Goya, Pedro de Campaña e Zurbarán, esculturas de Martínez Montañés etc. Já no século XX, após a independência de Cuba, foi colocado, na nave principal da catedral, o túmulo de Cristóvão Colombo, cujos restos mortais haviam sido trasladados da antiga colônia espanhola. 
 
Outro ponto turístico famoso de Sevilha e que também tem a ver com seu passado sob domínio mouro é o Real Alcázar. Também patrimônio da UNESCO, trata-se do palácio real europeu mais antigo ainda em uso. A fortificação original foi construída sobre um assentamento romano e, mais tarde, visigodo. Posteriormente, passou a ser uma basílica paleocristiana, a de San Vicente Mártir, onde foi enterrado Santo Isidoro. Mas o complexo começou mesmo a tomar seu aspecto atual a partir da conquista da cidade pelos mouros, no ano de 713. Várias outras edificações foram erguidas no século X pela dinastia dos almóadas, que então governava a cidade.
 
Depois da reconquista, em 1248, o complexo pertenceu a sucessivos monarcas. Em 1364, Pedro I ordenou a construção de uma residência real dentro do mesmo complexo. Em dois anos, artesãos de Granada e Toledo criaram uma joia de pátios e salões mudéjares, incluindo o Palácio Pedro I, hoje no coração do Real Alcázar. Nele se destacam o Patio de las Doncellas, o Patio del Yeso e o Patio de las Muñecas, que serviu de locação para a série Game of Thrones e filmes como Lawrence da Arábia e Cruzada. Outra atração imperdível do Real Alcázar são seus jardins e a melhor forma de apreciá-los é do alto, percorrendo a Galeria del Grutesco.
 
Perto do Real Alcázar fica Santa Cruz, o velho bairro judeu ou Judiaria, que foi deixado ao abandono após a expulsão dos judeus em 1492. Renovado no início do século XIX, é hoje uma das principais atrações de Sevilha. Vale a pena perder-se por suas ruelas e becos, espreitar os pátios dos prédios e descansar em suas bonitas praças, como a Plaza de Doña Elvira e a Plaza de Santa Cruz, onde está enterrado o famoso pintor Bartolomé Esteban Murillo, cujo quadricentenário é comemorado neste ano de 2018.
 
Também perto dali está a Universidad de Sevilla, que incorporou a antiga Real Fábrica de Tabaco, onde trabalhavam as cigarreras que inspiraram Prosper Mérimée na criação da personagem Carmen. É o maior edifício da Espanha depois de El Escorial, próximo de Madri. O prédio começou a ser construído em 1728, tornando-se a primeira fábrica de tabacos da Europa. Quando a fábrica encerrou suas atividades, em 1950, sofreu várias transformações para adaptá-la a seu novo uso.
 
Já na parte sul da cidade encontra-se o Parque María Luísa, que, em 1929, abrigou a Exposição Ibero-Americana, cujo objetivo foi promover as relações entre Espanha, América Latina, Estados Unidos, Portugal e Brasil. Por essa razão, essa parte de Sevilha foi remodelada e uma série de edifícios foi construída para acomodar a exposição. Mas a joia da coroa mesmo são as Plazas de España e de América, projetada pelo arquiteto sevilhano Aníbal González, e que ocupa, seguramente, o meu Top 5 de praças mais bonitas do mundo. A Plaza de Américas serviu de locação para vários filmes, como Star Wars. É nela onde estão localizados o Museo Arqueologico e o Museo de Artes e Costumbres Populares.
 
Subindo-se pelo rio Guadalquivir, que corta Sevilha, chega-se ao bairro de El Arenal, em que se concentravam os armazéns de munições e os estaleiros. Uma de suas principais atrações é a Torre del Oro. Construída para proteger o porto, essa torre mourisca já foi depósito de pólvora, capela, prisão e serviço de porto. Com 36m de altura, abriga hoje um pequeno museu marítimo. Fazia parte da muralha defensiva, ligando-se ao Real Alcázar.
 
Quanto aos museus, o principal da cidade é o Museo de Bellas Artes, instalado onde antes era o Convento de La Merced Calzada. Lá está La Servilleta (1665-68), uma Virgem Maria com Menino, que teria sido pintada em um guardanapo por Murillo. Considerado o segundo melhor de Espanha em arte antiga, só superado pelo Prado, em Madri, o museu reúne obras de Zurbarán, Murillo, Ribera, Goya e Cano. 
 
Outro museu interessante é o Museo del Baile Flamenco, criado e administrado por Cristina Hoyos, uma das maiores bailaoras da história do flamenco. A sala mais bacana mostra os principais palos (passos ou estilos) do flamenco em vídeos. Lá também há shows todos os dias, que mudam sempre, porque não há um elenco fixo.
 
Percorrendo a cidade, ainda podem ser encontrados vários palecetes com lindos pátios internos. Um dos que podem ser visitados é a Casa de Pilatos. Foi cenário de vários filmes, como Lawrence da Arábia. Mas há ainda muitos outros espalhados pelo centro antigo, como o Palacio Marqueses de Algaba, mais conhecido como Centro del Múdejar. De entrada gratuita, o centro contextualiza a arte mudéjar, resul-tante da confluência de tradições artísticas e culturais distintas — a islâmica e a cristã.
 
Mas não só de construções antigas vive Sevilha. Um de seus principais cartões postais é o moderníssimo Metropol Parasol, apelidado de Las Setas (Cogumelos) de Sevilla. O projeto de Jürgen Mayer se trata da maior estrutura de madeira do mundo. No térreo do prédio está o Museo Antiquarium, com restos arqueológicos principalmente do período romano. Um mirante também pode ser acessado.
 
Por sua vez, a Alameda de Hércules, no caminho para o norte da cidade, é o parque público mais antigo da Europa e conta com uma dezena de restaurantes, bares e quiosques. É possível ouvir os mais variados gêneros musicais em seus estabelecimentos, do jazz ao pop-rock alterna-tivo, de concertos a música eletrônica. Isso sem falar nos músicos de rua, que se apresentam para os clientes que ocupam as mesas de fora.
 
Subindo-se um pouco mais, chega-se à Basílica de la Macarena, localizada no simpático bairro de mesmo nome. Além de possuir uma das imagens mais famosas de Sevilha, a Virgen de la Esperanza Macarena, a basílica também dispõe de um museu que oferece uma visão geral da famosa Semana Santa Sevilhana.  
 
Mas Sevilha não se reduz apenas às atrações na margem esquerda do Rio Guadalquivir, o quinto mais comprido rio da Península Ibérica e o maior da Andaluzia. Cruzando-o por uma das pontes da cidade (Puente del Cachorro, a Puente de Triana, a Puente de San Telmo etc.), chega-se a bairros pitorescos, que muitos dizem conter a verdadeira essência sevilhana. É o caso, por exemplo, de Triana, que deve seu nome ao imperador romano Trajano, nascido na região. Tradicional bairro operário, é famoso pelos ciganos — daí a inspiração para a Carmen —, e pelas cerâmicas, que ainda podem ser encontradas na Cerámica Santa Ana. O bairro se encontra bem preservado e possui bonitas igrejas, como a curiosa Basilica del Cachorro, onde fica a imagem de Cristo del Cachorro. Um dos points da região é o Mercado de Triana. Ao seu lado e, pasmem, embaixo dele, fica o Castillo de San Jorge. O local serviu, de 1481 a 1785, como quartel-general da Inquisição Espanhola e símbolo da instituição na Europa. Uma exposição multimídia reconta os horrores cometidos no período. 
 
Depois da meia-noite, o bairro fica super-animado. É lá onde se encontram os bares autênticos de flamenco. Não por acaso, Triana é conhecida como a “Lapa” de Sevilha. Seguindo-se para o norte de Triana, chega-se à Isla de la Cartuja, onde foi realizada a Expo’92. Vários equipamentos culturais se concentram na região. Dentre eles, o Pabellón de la Navegación, a CaixaForum, a Fundación Tres Culturas del Mediterráneo e o CAAC —Centro Andaluz de Arte Contemporáneo. Este último foi montado dentro do Monasterio de Santa María de las Cuevas, do século XV, habitado por monges até 1836. Colombo morou e trabalhou aí.
 
Vale também a pena tirar uns dias para explorar a região. Dois passeios interessantes são uma ida a Itálica, ruínas romanas que também serviram de cenário para a série Game of Thrones, e Jerez de la Frontera, com suas diversas bodegas onde pode ser degustado o maravilhoso jerez, um vinho fortificado e licoroso conhecido no mundo inteiro. Aliás, o cultivo da uva na região começou há milhares de anos, quando fenícios levaram cepas para lá. Não falei que Sevilha é um imenso caldeirão cultural? 

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