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13/08/2018 - Edição 184 - Jul/2018
Zaqueu Fogaça

A geografia da Vila
registro cartográfico mais antigo do bairro, de 1840. Acervo Instituto Geológico

A Vila Mariana está situada no topo da colina mais característica de São Paulo, como assegura o professor e geógrafo Aziz Ab’Saber na obra Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo (Ateliê Editorial). 

Essa colina alongada e estreita — que compreende o percurso Jabaquara-Domingos de Morais-Av. Paulista - Dr.Arnaldo — é, diz ele, denominada Espigão Central e considerada um “divisor de águas entre as bacias do Tietê e do Pinheiros”.
 
Esse espigão sempre foi um ponto referencial para os estudos sobre a topografia paulistana. O primeiro levantamento detalhado da topografia da cidade coube ao geógrafo baiano Teodoro Sampaio, e veio à público em 1899 no terceiro volume de “Apontamentos para o Diccionario Historico e Geographico Brasileiro”, no qual escreve:
 
“O bairro de Villa Mariana é o ponto culminante da cidade a 828 metros sobre o mar, a 105 metros acima da várzea do Tamanduatehy, e pouco mais de 109 acima das águas do Tiete, na estação seca. Dessa altura desce o terreno no qual se edificou a cidade, em rampa mais ou menos variável, quer para Norte, em direção ao Tiete; quer para Sul, para a extensa várzea do Canguassu ou de Pinheiros”.
 
Para entender essa colina e a topografia do bairro é preciso voltar ao período paleógeno, (escala de tempo geológico), há pelo menos 55 milhões de anos, conta o geólogo e pesquisador do Instituto Geológico Silvio Takashi Hiruma. “Essa colina já foi uma depressão. Toda a área do espigão está inserida na chamada Bacia Sedimentar de São Paulo e, ao longo dos anos, houve a deposição de sedimentos”. 
 
Ele explica a inversão de relevo: “A Bacia de São Paulo compreende uma boa parte da região metropolitana envolvida pelas serras do Jaraguá e da Cantareira. Junto às outras bacias, ela compõe o rifte [fraturas tectônicas] continental do Sudeste do Brasil, que vai de Curitiba ao Rio de Janeiro. “Durante a formação desse rifte, tivemos a composição de uma grande depressão circundada por falhas, o que ocasionou o rebaixamento de uma parte e o levantamento das laterais: a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira”, situa.
 
Esse desenho da paisagem foi determinante para o processo de ocupação da cidade, ressaltou em seus estudos o professor Ab’Saber. “O sistema de colinas que asilou o organismo urbano de São Paulo influiu profundamente na forma de expansão e no arranjo geral das ruas, avenidas e radiais da metrópole”.
 
Diferentes ambientes compuseram, sucessivamente, a paisagem da cidade e do bairro. Silvio pondera que, “aqui na Vila, provavelmente, era um ambiente fluvial. De acordo com os estudos de Aziz Ab’Saber, a geomorfologia do bairro é caracterizada por rochas sedimentares em seu espigão (da rua Domingos de Morais à rua Áurea); altas colinas (da rua Áurea até a Rua Alice de Castro); e Terraços Fluviais de nível intermediário (da Alice de Castro até o Parque Ibirapuera).
 
As informações sobre a qualidade do solo nesta região são escassas, ressalta a geógrafa e também pesquisadora do Instituto Geológico Viviane Dias Alves Portela. “São Paulo desconhece o solo que tem, pois, em sua maior parte é um solo construído pelo ser humano. O processo de ocupação alterou as características do solo original”.
 
CARTOGRAFIAS DA VILA
 
O mapa mais antigo da Vila foi desenhado em 1840 e encontra-se preservado até hoje no raro acervo do Instituto Geológico. “Ele é o que mais nos aproxima das características originais do bairro antes das transformações do processo de ocupação”, afirma Viviane. Nele, é possível ver uma série de rios da região correndo à céu aberto. Entre eles estão o Caaguaçu e o Sapateiro, que formam no bairro a Bacia do Sapateiro. No início do século passado eles foram canalizados e redirecionados.
 
A fartura de águas se dá nos dois lados do espigão, diz Viviane. “O espigão central é o que chamamos também de divisor topográfico, com muitos rios de ambos os lados. Ele é um dos mais importantes divisores de águas da cidade”.
 
No segundo mapa, de 1897, já é possível perceber pequenas alterações nos cursos desses rios do pedaço, sinalizando que as paisagens formadas por chácaras e fazendas começam a receber outras formas de ocupação. “Nesse período, o bairro se insere de vez na cidade”, observa a geógrafa. 
 
 
Nessa época, a paisagem do bairro já contava com escolas, delegacia, fábrica de fósforo, transporte de bondes da Ferro Carril e o Matadouro Municipal, inaugurado em 1880. A economia local viveu então uma expansão em sintonia com o resto da cidade.
 
Em 1905 destaca-se o adensamento de atividades comerciais nas ruas do pedaço, e vários cursos d’água tornam-se ‘impróprios’ à ocupação urbana. “Quando havia fazendas, as águas eram bem-vindas; mas, em seguida, começaram a ser consideradas um empecilho para a construção das casas”, ressalta Viviane.
 
Em sua coluna neste jornal, Seu Chiquinho trouxe à tona as paisagens que marcaram sua infância. Numa delas, ele escreveu: “Uma das brincadeiras preferidas era explorar a mata do Ibirapuera. Lá nadávamos nos lagos, caçávamos rãs, fazíamos trilhas e voltávamos para casa de tardezinha”.
 
Foi durante o século passado, mais precisamente depois da Segunda Guerra, que a paisagem do bairro foi modificada drasticamente. E, de 30 anos para cá, os edifícios vêm tomando lugar dos casarios que, por meio de sua arquitetura, ainda contam a história mais recente do bairro. 
 
O primeiro registro de número de habitantes no distrito da Vila Mariana foi publicado pelo IBGE em 1971. Naquele momento, o bairro era o endereço de 278.005 moradores. “Foi um dos primeiros sensos por distrito”, conta Viviane.
 
Hoje,o distrito da Vila Mariana esconde, entre concretos, a lembrança de seus rios, cachoeiras, matas e montanhas. Ainda bem que temos um Instituto de Geologia na Rua Joaquim Távora para o Pedaço da Vila trazer esta história!

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