EM TEMPO
10/07/2018 - Edição 183 - Mai/2018
Zaqueu Fogaça

O largo do lixão

Quem passa pelo Largo Ana Rosa não se conforma com o seu estado de abandono. Símbolo da vida cultural do bairro no século passado, hoje ele representa a decadência dos espaços públicos do bairro. Lixos e mais lixos acumulam-se no entorno, atraem pombos e os restos de alimentos espalham-se pela calçada.

Para os moradores do bairro, a situação chegou a um ponto insustentável. Na página do Facebook Vila Mariana Amo Você, a insatisfação com a limpeza pública na região é assunto recorrente. As fotografias publicadas pelos vizinhos expõem as ‘montanhas’ de lixo que passaram a fazer parte da paisagem do Largo, especialmente na esquina da Rua Domingos de Morais com a Av. Conselheiro Rodrigues Alves. E cobram solução.
 
“Não podemos desistir!”, lembra uma; “O problema é todo dia e a qualquer hora”, denuncia outro; “o bairro está um lixo”, “por onde anda a fiscalização da prefeitura?”, “falta educação aos moradores que jogam o lixo”...
 
Em seu gabinete, o prefeito regional da Vila Mariana, Benedito Mascarenhas, diz que o problema já é bem conhecido por ali e que está sendo tratado com prioridade. “Estamos cientes e buscando meios para resolver esse problema”, afirma ele, que reuniu a sua equipe para debater um plano de ação para o local.
 
Mascarenhas ainda afirma que a prefeitura regional não é responsável pela coleta do lixo descartado no entorno do Largo Ana Rosa. “A responsabilidade nesse caso é dos comerciantes que estão descumprindo a lei. Não é a prefeitura que está falhando. As pessoas criticam a prefeitura sem saber de quem é a responsabilidade; é só desgaste”.
 
No local, o chamado “lixão da esquina” não é assunto recente entre os comerciantes. O funcionário da banca de jornal, Michel Leandro Rodrigues, lembra que o descarte irregular no local é um problema que se arrasta há três anos. “Já virou hábito; jogam todo dia. Muitos comércios não respeitam. Enquanto ninguém tomar providências, o problema só piora”.
 
Já o vizinho Wanderlei Rufino Gomes, comerciante do entorno há cerca de cinquenta anos, pontua que os descartes de lixo no local se intensificaram há um ano e meio. “A situação se agravou quando a coleta municipal deixou ser diária para ser a cada dois dias”.
 
De acordo com ele, os comerciantes que trabalham com alimentos começaram a descartar os restos na esquina para não ter que estocá-los dentro do próprio comércio até o dia seguinte. A prática irregular está custando caro a todos, ressalta. “Esse lixo está repelindo as pessoas e nós, comerciantes, estamos sendo prejudicados”.
 
Questionada se a coleta de lixo foi reduzida no local, a secretaria municipal de prefeituras regionais afirmou, por meio de nota, “que o serviço de varrição passa constantemente por adequações pontuais em função das necessidades de cada região”. Disse ainda que fará, juntamente com a prefeitura regional, “uma reavaliação da necessidade de readequar a programação” no local. Mas não apresentou prazo para que isso aconteça. Hoje, a coleta no local acontece às terças, quintas e sábados. O lixo deve ser colocado na calçada a partir das 18h.
 
Para o prefeito regional, a pergunta que precisa ser feita é: quem são os comerciantes que estão jogando o lixo ali? Para identificá-los, ele afirma que irá ampliar a fiscalização no endereço. “Vamos ficar de campana para pegar os infratores em flagrante e multá-los”. E diz que vai sugerir à secretaria municipal de segurança a instalação de câmeras na área.
 
Segundo os comerciantes do entorno, a ausência de fiscalização facilita para os infratores. Eles contam que a última visita da lei no local aconteceu em fevereiro, quando panfletos alertando sobre descarte irregular foram distribuídos aos comerciantes “Deixaram e nunca mais voltaram”.
 
Hoje, a fiscalização das mais de 700 leis no setor do Largo Ana Rosa é feita por um fiscal apenas. De acordo com a prefeitura regional, a fiscalização está orientando os comerciantes do entorno quanto às regras de descarte. “Dois comércios foram multados neste mês”, informa. A multa para quem descumpre a norma de descarte é no valor inicial de R$ 900.
 
Além do famoso “lixão da esquina”, os comerciantes relatam que as áreas externas de acesso ao metrô se tornaram as ‘áreas das bitucas’. “Os fumantes têm o hábito de acender um cigarro quando saem ou antes de entrarem na estação e jogam a bituca no chão. Como as lixeiras são de plástico, já vi muitas delas queimarem por conta do cigarro”, destaca Wanderlei.
 
Aos comerciantes, a orientação é para que contratem um serviço particular para a coleta do lixo, enfatiza Benê. “O lixo do comércio é de responsabilidade do comerciante, não da prefeitura. Eles precisam, como determina a lei, providenciar a coleta”.
 
A solução do lixo no local requer a colaboração dos comerciantes e dos moradores, avalia o prefeito regional. “Não é um problema simples que só depende da prefeitura; pelo contrário. Não adianta a gente ir lá, limpar e logo em seguida sujarem. A população precisa exercer o seu papel de cidadania e não sujar e ainda ajudar a identificar os responsáveis.
 
Nas conversas entre os comerciantes do entorno do Largo Ana Rosa, os suspeitos pelo “lixão da esquina” não são poucos. Segundo um, os quiosques do terminal de ônibus e da estação de metrô costumam fazê-lo. Ao Pedaço da Vila, eles negam a acusação e afirmam que possuem cestos adequados para o descarte.
 
Outro comerciante aponta para a casa de carnes Chega Mais, na Av. Conselheiro Rodrigues Alves. Também questionado, o funcionário negou e afirmou que a casa contrata um serviço de coleta particular.
A cada vez que passa pelo entorno do Largo Ana Rosa, a vizinha Vera Scaff diz que fica horrorizada com a paisagem. “É um absurdo. Eu nunca vi tanta sujeira pelas ruas do bairro. Já solicitei providências à prefeitura regional inúmeras vezes e nunca obtive respostas”.
 
Nas reuniões do Conselho de Segurança da Vila Mariana/Paraíso (Conseg), principal instrumento de diálogo entre a prefeitura regional e os moradores, o “lixão da esquina” também é assunto frequente na pauta.No entanto, nos últimos dois meses, nenhum representante da prefeitura regional compareceu às reuniões. O prefeito regional garante que isso não irá mais acontecer.
 
O vizinho João Pereira de Miranda lembra que o “lixão da esquina” da Ana Rosa está chocante. “Ele incomoda barbaramente todos que passam pelo local e precisam desviar dos restos de comida e dos pombos pela calçada”. Morador do pedaço há 45 anos, Miranda diz que acionou o serviço 156 e a prefeitura regional para pedir providências. “Tenho mantido contato com a prefeitura regional. A resposta, apesar da boa vontade, é limitada. Discute-se o assunto, mas a solução é difícil”.
 
Pereira considera que a solução para a deterioração do Largo Ana Rosa requer a cooperação do Metrô. “Ele é responsável por esse cenário deprimente e precisa ser inserido nesse debate com os moradores, comerciantes e prefeitura regional Vila Mariana”, sugere.
 
VIROU UMA ILHA
 
Um dos endereços mais tradicionais do bairro na primeira metade do século passado, o Largo Ana Rosa, ou a pracinha, como era chamado pelos frequentadores da época, viu a sua vida cultural e comunitária serem condenadas pelo processo de urbanização.
 
Com as obras de ampliação da Rua Domingos de Morais e da Av. Conselheiro Rodrigues Alves, o tamanho do Largo foi reduzido e, pouco a pouco, foi perdendo as suas características originais. A condenação do espaço chegou na década de 1970 com a inauguração da estação de metrô.
 
Hoje, o Largo se tornou uma ilha no bairro, avalia a arquiteta e urbanista Rosana Miranda, que orientou um estudo de revitalização do espaço. “Sem integração ao metrô e ao terminal de ônibus, ele virou um local só de passagem, sem convivência”.
 
Ela explica que a degradação aconteceu por falta de visão integrada do metrô. A sua chegada ao bairro não trouxe cultura, apenas shoppings. “Nesse processo, os espaços culturais que enriqueciam a Rua Domingos de Morais foram substituídos pelos comércios”.
 
Para a arquiteta, o Largo é uma cicatriz da expansão das obras viárias no bairro sem qualquer projeto para o entorno. O descaso com o Largo Ana Rosa não se trata de um caso isolado, lembra. “Ele reflete a história dos espaços públicos da cidade durante o último século, que perderam suas identidades culturais e comunitárias”.
 
A revitalização do Largo Ana Rosa é um desejo antigo dos moradores e já inspirou campanhas como a S.O.S Largo Ana Rosa, mobilização encampada pelo vizinho Orlando Fossa, em dezembro de 2015, para chamar a atenção para a deterioração do endereço histórico.
 
O prefeito regional reconhece que o Largo Ana Rosa é um ponto crítico no bairro. Ocupado por pessoas em situação de rua, não possui uma única lixeira para o descarte e seu entorno vive abarrotado de sacos de lixo e pombos.
 
A prefeitura regional diz que, nas manhãs de terças e quintas, são realizadas ações de zeladoria no local de concentração da população em situação de rua. “Nesses dias, retiramos a sujeira, os materiais que eles abandonam e lavamos o Largo Ana Rosa”.
 
Hoje, o serviço de limpeza da cidade protagoniza um impasse. Desde o fim do ano passado, a prefeitura não consegue emplacar uma nova licitação. Para que o serviço de varrição não fosse interrompido, o prefeito Bruno Covas (PSDB) assinou, em dezembro passado, um contrato emergencial com as empresas Soma e Inova, consórcios que detém o contrato de varrição.
 
Para manter o serviço, a prefeitura trava uma batalha com Tribunal de Contas do Município (TCM), que barrou a licitação no dia 17 de maio após encontrar 19 irregularidades.
No momento, a prefeitura aguarda o sinal verde para realizar a licitação. Com um custo anual de R$ 1,2 bilhão de reais, o contrato de limpeza urbana é um dos maiores e mais importantes da cidade.
 
Um dos caminhos que o prefeito regional vislumbra para recuperar o Largo Ana Rosa vai ao encontro da iniciativa privada. A ideia é transferir a gestão do espaço por meio do programa Adote Uma Praça. “Há locais que são difíceis de serem adotados; e o Largo é um deles. Estamos em busca de parcerias junto aos comerciantes, mas ninguém se interessou”, revela.
 
Ele acredita que, com a recente alteração no decreto do programa Adote uma praça, o Largo Ana Rosa ficará mais atrativo à iniciativa privada. “O novo decreto, em fase de regulamentação, permitirá a exploração comercial, como a instalação de quiosques”.

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