ENTREVISTA
- Edição 61 - Mai/2007
Denise Delfim

Maria Sylvia de Souza Vitalle

A médica pediatra, assistente do Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Disciplina de Especialidades Pediátricas da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina -, nutróloga, com formação em Acupuntura, fala sobre os dilemas da mãe moderna em amamentar e as verdades e mentiras que envolvem este processo

 

 

Pedaço da Vila: A amamentação é uma prática inerente a todos os mamíferos, no entanto, mães modernas sofrem grandes dilemas na hora de amamentar. Quais são os seus maiores problemas?

Maria Sylvia de Souza Vitalle: Embora inerente a todos os mamíferos a amamentação, para as mães, não é propriamente um processo meramente instintivo, sendo parcialmente baseado em processo de aprendizagem. É um comportamento aprendido por meio de informações de outras mulheres mais experientes e principalmente através do exemplo e da observação. Faz parte, atualmente, da cultura médica, pois algumas recomendações técnicas devem ser ensinadas às mães, diminuindo assim as dificuldades do período inicial. Atualmente, a grande questão, fora as dificuldades físicas e/ou emocionais, são as que envolvem o trabalho. Algumas mães não conseguem se ausentar do trabalho pelo período necessário para a amamentação. É importante saber que existem leis trabalhistas que protegem o trabalho materno e a amamentação, garantindo a estabilidade no emprego. Na Consolidação das Leis do Trabalho (título III, capítulo III, seção V) os artigos 391 a 400 falam sobre a proteção à Maternidade e à Amamentação a todas as trabalhadoras funcionalmente regularizadas. O artigo 392 ao rezar que “É proibido o trabalho da mulher grávida no período de quatro semanas antes e oito semanas depois do parto” está protegendo a amamentação e garantindo os 120 dias de licença. O artigo 396 diz: “Para amamentar o próprio filho, até que complete 6 meses de idade, a mulher terá direito, durante a jornada de trabalho, a 2 descansos especiais, de meia hora cada um. Parágrafo único: quando a saúde do filho exigir, o período de 6 meses poderá ser dilatado, a critério da autoridade competente”. E ainda no artigo 392, existe um parágrafo que diz que em condições excepcionais, os períodos de repouso antes e depois do parto poderão ser aumentados por mais duas semanas cada um, mediante atestado médico. Há ainda um movimento da Sociedade Brasileira de Pediatria para aumentar o período de afastamento da mãe do seu trabalho, sem perdas nos vencimentos, pelo período da amamentação (seis meses).  De qualquer modo, a orientação alimentar relacionada ao trabalho materno é individualizada, considerando-se os horários, tipo de relação de trabalho, local de trabalho, proximidade da creche, e possibilidade de ordenha e de armazenamento do leito, entre outros fatores. Enfim, a mulher precisa conhecer os mecanismos de proteção que a sociedade oferece para mãe e seu bebê nesta fase.

 

P.daVila: Tudo isso devido aos grandes benefícios da amamentação...

M.S.S.V.: Sim. Além dos problemas, com os quais toda mãe se preocupa, existem benefícios por amamentar, tanto para o bebê quanto para a mãe. O bebê terá maior proteção contra problemas nutricionais, doenças respiratórias e diarréicas, melhor maturação do sistema imune, facilitação do desenvolvimento do aparelho neuromotor. Para a mãe, amamentar favorece a involução uterina, voltando o útero rapidamente ao seu tamanho normal e, além disso, propicia o retorno do seu peso ao anterior à gravidez.

 

P.daVila: Muitas vezes amamentar se constitui em um dilema, pois há a preocupação com a estética...

M.S.S.V.: É importante frisar que as mudanças das mamas são decorrentes de fatores genéticos e da gravidez. O uso de suportes adequados para minimizar problemas deve ser orientado desde o atendimento pré-natal. A presença de fissuras também pode levar à interrupção do aleitamento. Mamilos invertidos ou planos podem ser causa de dificuldade de amamentar e se não se orientar bem a mãe lactante, pode ser causa de desmame. Outro problema é o ingurgitamento mamário, situação freqüente no início da lactação, por que a criança ainda não suga adequadamente e com a força necessária, não promovendo o completo esvaziamento da mama.

 

P.daVila: Há diferenças comportamentais em uma mãe urbana e uma mãe que mora em regiões rurais?

M.S.S.V.: Sim, decorrente do próprio modo como está estruturada a sociedade. Em zonas rurais ainda se conseguem um melhor o suporte familiar e o convívio e ajuda de outras mães, desde as mulheres da família, até amigas próximas, que colaboram neste momento. O conhecimento das mulheres mais velhas, as avós, tias, é valorizado e é fonte de segurança pelo saber que propiciam. Mesmo em cidades pequenas, na zona urbana, o grupo de apoio está mais presente e mais participativo, interferindo de modo a aliviar tensões, mostrar que situações que uma jovem mãe está enfrentando faz parte do repertório de conhecimento e abordagem das demais, desse modo tem mais segurança e se sentem menos culpadas do que as mães de grandes cidades ou áreas urbanas, que têm que dar conta do trabalho fora do lar, da casa, das situações sociais e do novo bebê.

 

P.daVila: É verdade que existem alguns fatores que aumentam a produção de leite e outros que podem até prejudicar o bebê?

M.S.S.V.: O primeiro fator para ter leite é querer amamentar, ter mobilização interna para isso. A partir daí, o volume de leite secretado é ajustado pela necessidade da criança, que é determinado pela freqüência das mamadas solicitadas e pela inibição de um fator conhecido como “fator inibidor da lactação”. Quando o leite produzido não é removido da glândula, essa substância inibe a sua secreção, daí a importância de se amamentar, pois quanto mais se amamenta mais se produz leite.  A maior produção de leite é no período da manhã e existe uma substância, chamada prolactina, que estimula a produção do leite. E essa substância se eleva com a sucção do bebê, que promove também a ejeção do leite. Sabidamente ter “paz de espírito”, beber muita água, ter dieta balanceada, são fatores que também auxiliam. O aleitamento materno deve ser sempre em “livre demanda”, pois quando se interfere, dando horários rígidos, tempos rígidos de amamentação, isso pode ser prejudicial ao bebê, que como resposta pode ficar pela fome, irritadiço e não ganhar peso adequadamente.

 

 

P.daVila: Muitas mães dizem que seu leite é fraco, que produz pouco ou não tem leite e/ou que o bebê não quer pegar o peito. Até onde tudo isto é verdade?

M.S.S.V.: A questão do leite fraco é uma dúvida recorrente entre as mães, por que querem que seu filho cresça forte e de modo sadio e têm medo de serem incapazes de somente com o leite promoverem saúde adequada. Muitas vezes um bebê que chora muito, faz com que a mãe fique com esta angústia, de que o alimento é que não está certo. Mas o bebê que chora muito e é irritadiço, nesta fase da vida, pode ser decorrente de uma série de fatores: infecção urinária, amamentação que não está sendo feita em livre demanda, pega da mama inadequada, algum desconforto, cólicas, angústia da separação, mãe ansiosa, por que tem milhares de outros afazeres e não quer ficar muito tempo com o nenê (não por que não queira, mas se sente pressionada pelos seus outros afazeres), por exemplo.

Muitas vezes também, o que está ocorrendo é o que se chama “leite inicial”, que é diferente do leite obtido no final da mamada, e caracteristicamente, por ser mais rico em água, tem uma “aparência” mais rala. O bebê pode, de fato não querer pegar o peito, mas não que não queira, ele está ávido pelo alimento, porém tem dificuldades. Como já falamos anteriormente, o bico invertido ou plano, a posição da mãe que não oferece conforto e facilidade de pega da mama, ansiedade, são alguns dos problemas. Porém, cada caso é um caso e é necessária a observação da dupla mãe-filho neste momento da amamentação para chegar ao diagnóstico mais preciso de qual o problema. Muitas vezes pode-se ver e ouvir a deglutição do nenê. Sobre ter pouco leite, esta condição como doença (hipogalactia) é extremamente rara, na maioria das vezes o que acontece é a técnica inadequada de aleitamento, com problemas na sucção causando menor produção de leite. Há fatores que facilitam e promovem o momento das mamadas, como a postura da mãe relaxada e confortável, com o bebê próximo da mama, com cabeça e corpo alinhados e nádegas apoiadas. Qualquer que seja a posição de mamada, pois existe várias, cada uma melhor para cada caso e momento, o abdome do bebê deve estar sempre encostado ao abdome materno. O bebê em resposta procura o peito da mãe, explora o mamilo com a língua, permanece sempre calmo e alerta e fica preso ao peito, olhando nos olhos da mãe. A sucção é outro ponto: o bebê deve estar de boca aberta, lábio inferior invertido, isto é virado para fora, língua rodeando a mama, bochechas arredondadas durante a mamada e não encovadas. As sugadas devem ser profundas, lentas, com pausas.

 

P.daVila: Como prevenir ou amenizar as cólicas tão comuns nos bebês?

M.S.S.V.: De modo geral, as cólicas diminuem de intensidade a partir do terceiro ao quarto mês, desaparecendo completamente até o sexto mês. As cólicas dos lactentes são devidas à imaturidade do organismo, e o leite materno é auxiliar importante nesse processo. Medicamento, portanto, não tem um bom efeito, deve-se esperar a maturidade do organismo. Mas pode ser minimizado por massagens, por exemplo. Existem algumas técnicas para bebê, como a Shantala, que ajuda muito a aliviar tensões, o bebê fica mais calmo (os pais também), menos desconfortável, chora menos.

 

 

 

 

P.daVila: O bebê somente deve mamar no peito até que fase e quando introduzir a água e alimentos sólidos?

M.S.S.V.: O leite materno é alimento completo e eficaz, em média, até os seis meses de idade, provendo até esta época todas as necessidades de crescimento e desenvolvimento da criança. O leite materno possui células vivas, hormônios, enzimas ativas, imunoglobulinas e outros componentes específicos que nenhuma fórmula infantil conseguiu até o momento copiar. É, portanto, um produto vivo e adaptável a cada mamada. Então, protege o bebê de modo ímpar a agravos, além de não ter o inconveniente de ficar carregando sacola, a preocupação com azedar, colocar na temperatura certa, preço no mercado etc. Gosto de dizer que o leite do peito tem “arroz, feijão, carne, sobremesa, suco e cafezinho”. Portanto, criança que amamenta, não precisa tomar água. Para saber o momento de desmamar e isso não quer dizer iniciar fórmula infantil, e sim introdução de novos alimentos e água, deve-se acompanhar a criança com o pediatra. Pois observando, no acompanhamento o desenvolvimento neuropsicomotor e o ganho de peso e altura (que o pediatra coloca nas curvas de crescimento), verifica-se a evolução da criança e o momento de intervir. Algumas crianças precisam iniciar o alimento de desmame antes dos seis meses – em torno dos quatro, mas em geral o leite materno é adequado e promove o crescimento até os seis meses.

 

P.daVila: Muitas mães se preocupam em armazenar o leite para ser oferecido ao bebê enquanto estão no trabalho e assim manter a amamentação...

M.S.S.V.: Sim, o leite pode ser ordenhado manualmente pela própria lactante, aliviando assim o ingurgitamento mamário e também, nessas situações de separação manter a oferta de leite. Existem recipientes próprios no comércio, e o leite pode ser armazenado à temperatura ambiente até 12 horas. Em geladeira pode ser guardado até 24-48 horas (2 a 6 graus Celcius) e em freezer (temperatura abaixo de 20 graus Celsius) por até 3 meses. Para oferecer ao nenê pode-se reaquecer o leite em banho-maria.

 

P.daVila: Há outro problema sério para a mãe que é a hora de tirar o peito. Como deve ser este processo?

Aqui também é um processo individualizado. De qualquer modo, vale o alerta de que a mãe que está com dificuldade de retirar o bebê do peito, de modo geral a dificuldade é dela e não do bebê.  Todos nós conhecemos alguém que tem um bebê que já tem mais de dois anos e que diz “ele não quer sair do peito...”.

As crianças aprendem com os limites que lhe são impostos e dar limites também é dar afeto e amor. É preciso estar convencido da necessidade de começar novos vínculos e desfazer este da amamentação e com afeto e firmeza dizer: não, chega, acabou! Em geral, a criança chora, esperneia, faz chantagem, mas se a mãe permanece firme, em três dias a uma semana se retira do peito. Claro que vai depender da idade em que está fazendo isso, e toda a bagagem emocional da família.

 

P.daVila: Existem situações em que se contra-indica a amamentação?

M.S.S.V.: A contra-indicação absoluta da amamentação deve ser avaliada pelo pediatra que acompanha, e o uso de alguns medicamentos pela mãe também devem ser feitos sob vigilância dos efeitos no lactente.  De modo geral, contra-indica-se a amamentação em mães portadoras de HIV, HTLV-! E HTLV-2; lactantes usuárias de antineoplásicos e lítio e alguns erros inatos do metabolismo - fenilcetonúria, por exemplo.

 

P.daVila: A mãe que decide não amamentar poderá sofrer conseqüências futuras na hora de educar seu filho?

M.S.S.V.: O processo de educação é um processo amoroso e do dia-a-dia, inclusive no ato de amamentar ou não. Quantos filhos adotivos tiveram pais adotivos amorosos, continentes, sábios no lidar com os problemas do dia-a-dia e não passaram pela experiência de amamentar? Quantos outros amamentaram e transformaram este ato em um ritual físico somente, sem maiores implicações? Dar limites, orientação, apoio, saber o momento de fazer duras críticas, são parte da vida dos pais, independente de amamentar ou não.


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