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04/05/2018 - Edição 181 - Abr/2018
Zaqueu Fogaça

Corredor histórico

O Conpresp, órgão Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, tombou uma série de edifícios que revelam diferentes períodos da história da Vila Mariana.

Ao todo são 23 imóveis e um logradouro às margens do ‘corredor’ Vergueiro/Domingos de Morais, que foram inseridos na revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE) como Zona Especial de Preservação Cultural (Zepec).
 
Já o ‘corredor’, que segue a linha azul do metrô e avança 300m para ambos os lados, terá a sua paisagem alterada profundamente nos próximos anos, como estimula o PDE, que classificou a área como Eixo de Estrutura e Transformação Urbana (ZEU), permitindo densidades demográfica e construtiva altas, como as da Avenida Paulista.
 
O arquiteto do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e professor Valdir Arruda ressalta que todas as edificações tombadas possuem valor histórico, cultural e afetivo para a comunidade local. E explica que as origens dos pedidos de preservação são diversas. “Foram agrupados os imóveis que já tinham aberturas de processo, alguns desde 1992, e tratados num tombamento final único porque havia um prazo estabelecido; caso contrário ficariam sem proteção”.
 
Na Rua Dona Inácia Uchoa foram tombados cinco prédios, entre eles o centenário Mosteiro da Visitação de Nossa Senhora e a Igreja Santa Rita de Cássia. Foram preservadas as características externas e internas originais, como ornamentos, pisos e vitrais.
 
Perto dali, na confluência entre as Ruas Conceição Veloso e Manuel Paiva, outro ponto tradicional do bairro foi tombado, o famoso Largo da Caixa d’água e o Reservatório de Água da Vila Mariana. O Conpresp manteve as características do passeio, calçamento em paralelepípedo e sua conformação geométrica, e ainda destacou que o local, palco das primeiras ocupações no bairro, possui um grande potencial arqueológico.
 
Antigo Caminho do Mar, a Rua Domingos de Morais ocupa um traçado histórico e fundamental na urbanização do bairro. Às suas margens foram tombados treze edifícios: o Centro de Memória do Corpo de Bombeiros, o colégio Marista Arquidiocesano, o colégio Madre Cabrini e a igreja Nossa Senhora da Saúde, antiga Capela de Santa Cruz.
 
Na mesma rua foram tombados ainda três casarões do começo do século passado, como é o caso do Palacete Mourisco, o famoso ‘castelinho’ localizado no número 775. Na Capitão Calvalcanti, 38, o lendário casarão da década de 1930, construído pelo comerciante sírio Chaker Assad (1884-1976), também foi protegido.
 
Já na Rua Major Maragliano, 241, foram preservadas as características externas e internas das duas edificações do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM). Na metade do século passado o prédio serviu como mosteiro da Ordem Religiosa Padres e Irmãos Paulinos e, mais tarde, abrigou ainda o Hospital Psiquiátrico da Vila Mariana.
 
A área de proteção também se estendeu ao principal símbolo da comunidade germânica no bairro, a igreja São Bonifácio. Projetada em estilo brutalista pelo renomado arquiteto de origem austríaca Hans Broos (1921-2011), ela foi inaugurada em 1964, na Rua Humberto I, 289.
 
“O projeto da igreja São Bonifácio é uma contribuição exemplar ao processo de renovação da arquitetura religiosa brasileira e à arquitetura paulistana”, reconhece Valdir Arruda, especialista em arquitetura religiosa contemporânea.
 
Valdir define a obra como austera e sofisticada. É “um volume fechado e elevado do solo por meio de quatro apoios, criando uma plataforma e liberando o térreo para uma ampla praça aberta. O tombamento evidencia, em muitos sentidos, o pioneirismo dessa obra no panorama religioso, social, cultural e artístico da sociedade paulistana na segunda metade do século XX”.
 
O arquiteto ressalta ainda que o tombamento significa um “conjunto de ações técnicas, administrativas e jurídicas realizadas pelo poder público para preservar bens de valor histórico, arquitetônico, cultural, ambiental e afetivo para a população”, impedindo assim a sua demolição ou descaracterização.
 
Todos os imóveis tombados pelo Conpresp, prossegue ele, “recebem incentivos e benefícios fiscais para a realização de obras de manutenção e restauro do conjunto e/ou de suas partes”.
 
Pelo bairro não são poucos os patrimônios deteriorados no aguardo da restauração; entres eles estão o Teatro João Caetano, da década de 1950, e o Instituto Biológico. Nos espaços públicos ao ar livre a situação é ainda mais grave, como revela o histórico, e hoje abandonado, Largo Ana Rosa, espaço que representa um valor arquitetônico e afetivo muito forte para a comunidade.
 
A relação dos imóveis tombados será encaminhada à Câmara Municipal de São Paulo junto à revisão da Lei de Zoneamento pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU).
 
“Após o tombamento é necessário aguardar a publicação no Diário Oficial e o proprietário tem um prazo para recorrer da decisão se for de seu interesse. A revisão do plano diretor está em andamento, mas não anula os atos e as decisões já tomadas pelo Conpresp”, conclui Valdir.

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