UMAS E OUTRAS
15/03/2018 - Edição 180 - Mar/2018
Zaqueu Fogaça

A partida

"Aqui eu me senti em paz”, “daqui levo muito amor”, “te amo vila!”. Essas e outras declarações de afeto podem ser lidas nas paredes, portas e janelas das casas da década de 1930 que formam a vilinha da Av. Conselheiro Rodrigues Alves (281).

Elas foram escritas pelos moradores num gesto de despedida do local. Em agosto de 2017, receberam uma carta pedindo a desocupação dos imóveis porque serão demolidos. “Como não éramos os proprietários, não tivemos alternativa”, lamenta a atriz e diretora e ex-moradora, Ana Petta (41).
 
Ana conta que morou na vilinha por 14 anos. “Foi nela que nasceram os meus dois filhos. Ali havia uma amizade muito forte entre os vizinhos. Era uma convivência diária de brincadeiras, de um cozinhar para o outro. E essas relações foram interrompidas"
 
Enquanto os vizinhos foram partindo, Ana fez questão de ser a última a entregar as chaves. Pelo período de três meses, sua família foi a única a habitar a vilinha. Foram meses de despedida, de resistência e de ensinamentos, diz.
 
“Eu fiquei mais tempo para ensinar aos meus filhos, Maria e Pedro, como é errado destruir a história de um lugar, de uma cidade, das pessoas; queria que ficasse gravado nos corações deles tudo o que viveram nesse espaço que amam muito”.
 
 
A última noite na vilinha foi num acampamento embaixo da querida amoreira. “É a árvore que ensinou aos meus filhos as estações do ano, a colheita, o gosto da fruta no pé, o prazer de subir no seu tronco. Todo ano, o vizinho Renato fazia geleia de amora com as crianças e distribuía a todos os moradores”, recorda-se.
 
As palavras de afeto escritas nas casas foi o último gesto da família antes de partir, revela Ana. "Eu pedi aos meus filhos que escrevessem o que estavam sentindo naquele momento. Logo em seguida, outros moradores também escreveram. São mensagens de amor e de agradecimento a esse lugar".
 
Além da forte ligação com as casas, árvores e as plantas, Ana ressalta as relações humanas construídas no espaço. “Era uma relação muito forte, algo que só é possível num ambiente que tem solidariedade entre as pessoas; e isso nós tínhamos ali. A gente saiu da vilinha, mas a vilinha continua com a gente”.
 
Hoje a vilinha está com o acesso bloqueado por uma corrente enquanto aguarda a demolição, que não deve tardar. O Pedaço da Vila apurou que ali será construído um prédio que servirá de moradia de freiras. Na última semana, o jardim foi limpo e as plantas já foram  retiradas.
 
Nas árvores, os pássaros ainda resistem, mas o canto já parece prenunciar que a sua vez de partir também se aproxima.

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