ATITUDE
09/02/2018 - Edição 175 - Set/2017
Denise Delfim

Posições celestiais
Convivendo com uma severa escoliose desde sua adolescência, a professora de Iyengar Yoga Márcia Monroe chegou à maturidade com agilidade, liberdade e sem dores. Em outubro, estará no Estudyo Iyengar Yoga para  compartilhar seus estudos, experiências e as posturas celestiais do Yoga Kurunta que aprendeu com o próprio mestre Iyengar e que garantiu a ela viver com qualidade de vida
 
Pedaço da Vila: O que é a escoliose e como ela interfere na saúde?
Márcia Monroe: Escoliose é uma assimetria espinhal que envolve três planos espaciais: o plano vertical (uma flexão lateral ou uma curva para o lado); o plano sagital (antero-posterior, compreendendo padrões de flexão e extensão); e o plano horizontal (o plano de rotação). Devido à trimensionalidade surge a escoliose, considerada uma patologia complexa como também progressiva, o que resulta em problemas não só de origem ósseo muscular, mas, também, dos sistemas respiratório, orgânico e nervoso. A escoliose é classificada como estrutural ou funcional. A  estrutural é quando a assimetria é registrada nos ossos ou vértebras da coluna vertebral. Já a escoliose funcional ou postural, ou os casos de assimetrias, ocorrem fora da coluna vertebral. Sua origem vem de hábitos cotidianos, como: carregar pesos unilateralmente e sentar assimetricamente por muito tempo, o que pode resultar no encurtamento de uma perna, que requer compensações dos músculos pélvicos e posturais. A escoliose mais comum é a idiopática, ou seja, sem uma causa especifica: 85% da população está nessa categoria. Ela pode ter origem na infância, pré-adolescência ou na adolescência, a mais comum. Existem novas categorias de escoliose e assimetrias por causas secundárias, como a degeneração óssea, hérnias de disco e osteoporoses.
 
Pedaço da Vila: Como você conseguiu atenuar sua escoliose?
Márcia Monroe: Fui diagnosticada na adolescência; minha tia notou uma discrepância no contorno das minhas costas. A partir daí, começaram as várias visitas a ortopedistas: usei colete de Milwaukee, feito na ABBR, no Rio de Janeiro. Durante a maior parte do dia sentia restrição corporal e respiratória e desisti do uso do colete, devido aos sinais de piora enviados pelo meu corpo. Depois, sugeriram a intervenção cirúrgica. Mas, após ouvir o relato do ortopedista sobre o procedimento cirúrgico e o pós-operatório, decidi viver com a escoliose e tentar entender e conviver de forma inteligente com um corpo assimétrico, mas, funcional. Segui linhas de tratamentos não tradicionais abrangendo biomecânica, terapias somáticas com Feldenkrais e Body Mind Centering. Nessa época, colocava o Yoga em outro espaço, talvez metafísico, vendo a escoliose como um aprendizado para minha própria evolução. Grande parte de minha vida foi dedicada aos estudos constantes sobre as assimetrias e o Yoga, e aprendi a adaptar minha prática de acordo com a maturidade. Em Nova York, onde resido, sou convidada por fisioterapeutas especialistas em escolioses, associados aos melhores hospitais ortopédicos em NY, para explicar esse modelo em cursos especializados na técnica de Schroth e SEAS. Atendo às conferências médicas cientificas, como também apresento imagens das posturas de Iyengar Yoga e Reeducacao somática de movimento para a escoliose. Tudo isso sempre atribuindo meu trabalho e aprendizado ao mestre BKS Iyengar, com quem aprendi na prática a trabalhar com as curvas escolióticas. Pratico Yoga diariamente. 
 
Pedaço da Vila: A senhora vive normalmente?
Márcia Monroe: Apesar da significante escoliose que carrego, sinto liberdade, agilidade, e não tenho dores. Consegui atenuar minha escoliose através do sexto sentido, intuição ou propriocepcão que foram gerados pelas posturas. A sabedoria que o Yoga oferece é subjetiva às palavras, que são limitadas. O corpo, a mente e o ser sentem os espaços criados através das posturas e da respiração. Esse processo, somado à experiência da prática, leva o estudante a integrá-la no seu dia a dia.
 
Pedaço da Vila: De que forma adaptou essa experiência para ajudar outras pessoas com o mesmo problema em suas aulas de Iyengar Yoga?
Márcia Monroe: Através de uma vida de estudos, viagens anuais à Pune, Índia, onde o Instituto de Iyengar Yoga está localizado, e à pratica – estes são os frutos que transmito aos meus estudantes. No sistema de Yoga Iyengar usa-se acessórios ou suportes que facilitam ao praticante experimentar os diversos benefícios das posturas. No caso da escoliose, as posturas são modificadas e adaptadas através de vários tipos de suportes que variam de acordo com o padrão escoliótico do indivíduo. Isso resulta em sentimentos de simetria, expansão, bem-estar e equilíbrio. Ofereço workshops para professores e alunos portadores de escoliose e ainda escrevi o livro Yoga for Scoliosis a healing journey,  que está em inglês, e que foi traduzido para o chinês e coreano.
 
Pedaço da Vila: O que pretende apresentar no workshop Posturas Celestiais que irá fazer em outubro em São Paulo?
Márcia Monroe: No sistema de yoga Iyengar, a mesma postura pode ser modificada através de vários apoios e acessórios, criando assim possibilidades e aprendizado para o praticante. Nesse workshop serão ensinadas posturas introdutórias, modificadas através do Yoga Kurunta (yoga com cordas fixadas na parede). Denomino Postura Celestial pelo fato de que as cordas proporcionam trações passivas, gerando um sentimento de espaço e expansão, e maior fluxo respiratório. Peço aos praticantes que queiram participar deste workshop que tenham experiência de seis meses em Yoga e que estejam com boa condição física para explorar os benefícios do Yoga Kurunta. O mestre B.K.S Iyengar, de quem recebi ensinamentos direto, dizia: “The body is my temple, and the asanas are my prayers” (Meu corpo é meu templo e minha respiração minha oração). Ele mencionava, informalmente, nas práticas de grupo de estudantes, incluindo a família Iyengar, assistentes e professores, certas famílias de posturas como celestiais ou aristocratas. Durante as aulas ou na prática pessoal, por exemplo, ouve-se constantemente o comando para “abrir o peito”, e certas famílias de posturas oferecem essa abertura e sentimento de expansão, coragem, e possibilidades de novos horizontes. Através da prática imprimimos em nossa percepção corporal novas possibilidades de ascensão, espaço interno, liberdade e divindade. O Yoga Kurunta – ou o uso do apoio das cordas – através de certas sequências, ajuda a quebrar bloqueios mentais, transcender sentimentos de dualidade e a vencer medos. Com a prática, acessa a liberdade corporal, amplifica a orientação espacial e a fluidez. O Yoga Kurunta, com as cordas, e todos os outros acessórios usados no sistema Iyengar, são utilizados para proporcionar as posturas terapêuticas, beneficiando as diversas faixas etárias e os casos especiais. São janelas que se abrem para o céu desvendando a luz do Yoga.

Comentários
Inclua um comentário











 
Todos os direitos reservados - Pedaço da Vila - 2019