UMAS E OUTRAS
08/02/2018 - Edição 179 - Fev/2018
Cacá Bloise

A Vila do Guarnieri e do Eles Não Usam Black Tie

Essa garoa que não para... eu me lembro como se fosse hoje quando a dona Elza Martinengui Guarnieri, para nós a dona Elza, apareceu no terraço da casa da Rua Áurea, nº 75, e pediu gentilmente para que eu e o (Milton) Levy parássemos com a gritaria do futebol na rua, em frente à casa, porque ela precisava estudar harpa e o Gianfrancesco, que estava escrevendo, pudesse se concentrar.

É lógico que eu e o Levy não gostamos nem um pouco desse pedido de interrupção do nosso esporte bretão, mas não poderíamos nem imaginar que, naqueles momentos, estávamos bagunçando a vida do Gianfrancesco Guarnieri, um dos maiores dramaturgos e autores de teatro brasileiro, que estava escrevendo — nada mais nada menos — um dos maiores sucessos do teatro e do cinema no mundo “Eles não usam black tie”.
 
Pois era verdade.  Na Rua Áurea, 75, na Vila Mariana, nasceu “Eles não usam black tie”, a peça que era a cara do povo brasileiro. Há quem a considere um divisor de águas da dramaturgia brasileira no seu modo de criar, entender e fazer teatro. Uma joia que até hoje é estudada nos cursos de teatro e nas universidades.
 
A peça foi encenada pelo grupo do Teatro de Arena pelos atores Gianfrancesco Guarnieri, Zé Renato, Mirian Mehler, Milton Gonçalves, Eugenio Kusnet, Lélia Abramo, Flávio Miliaccio, Chico de Assis, Henrique Cesas, Riva Nimitz, Oduvaldo Vianna Filho, entre outros.
 
O filme “Eles não usam black tie” foi estrelado por Fernanda Montenegro, Gianfrancesco Guarnieri, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Flávio Guarnieri, Bráulio Pedroso, Milton Gonçalves, Anselmo Vasconcelos entre outros grandes atores. Eles não usam black tie é uma obra prima do mundo da arte.
 
Para nós, eu e o Levy, ainda crianças, o Gianfrancesco era aquele amigo de rua mais velho que, quando passava, dava um chute na bola para brincar com a molecada e sempre tinha uma história pra contar sobre grandes aventuras. Era um cara legal a ponto de comprar balas na venda do seu Nicola, meu pai, e distribuir para a garotada nas tardes de garoa.
 
Aquela casa da Rua Áurea respirava arte. O pai do Gianfrancesco, o maestro Edoardo de Guarnieri, estudava regendo orquestras na sala; a dona Elza, harpista de excelência de grandes orquestras, tocava no quarto. O tio Marcello, violinista, o primeiro luthier da Vila Mariana, que foi nosso professor de música, estudava violino pela casa e o Gianfrancesco escrevia no seu quarto e no quintal, que dava para a rua, onde sempre o víamos nos dias de sol. 
 
É lógico que os anos de ditadura marcaram aquela casa, onde vivia o autor de peças teatrais que falavam de liberdade e eram severamente proibidas. A censura nunca deu tréguas ao Guarnieri. Por tempos ele desaparecia do pedaço e depois aparecia novamente. Com o passar dos anos eu e o Levy, já adultos e no meio artístico, entendemos as “sumidas repentinas” do Gianfrancesco. Ele não tinha liberdade de vida e de arte.
 
Por aquela casa diariamente passavam artistas, intelectuais, músicos e brasileiros importantes que se reuniam para discutir arte, política e o Brasil. Eu e o Levy lembramos muito bem quando o Gianfrancesco começou a namorar a Cecilia Thompson, a jornalista bonita e moderna que morava na Travessa Humberto I. Eles passeavam por ali de mãos dadas e sumiam de vez em quando e, de repente, voltavam para o bairro. A vida seguiu seu destino e logo nasceram o Paulinho e o Flavinho, essa dupla amada de guarnieris que viveu e convive comigo e com o Levy até os dias de hoje, mesmo sendo mais novos do que nós dois. A arte e a música nos uniram diversas vezes em projetos maravilhosos pela vida.
 
São inesquecíveis as festas juninas na rua, as idas a pizzaria Venite com o seu Nicola e a dona Luiza, meus pais, o Gianfrancesco e a Cecilia Thompson, o maestro Guarnieri, dona Elza, o tio Marcelo e o Jô Soares, que era nosso vizinho. Eu e o Levy sempre juntos.  Íamos a pé, descendo a Rodrigues Alves. As crianças brincando pela rua com os bondes que passavam. 
 
Lembrar, aqui, de um pouco da história do Gianfrancesco Guarnieri na Vila Mariana, na rua Áurea, 75, é uma homenagem que eu, o Levy, meus irmãos Maria Luíza, Inês e Nico, fazemos como um ato de amor ao bairro e às famílias da Vila Mariana. 
 
A família Guarnieri era assim. Teve filhos famosos e ilustres, mas sempre foi simples como são os vilamarianenses.
 
Não tem mais Gianfrancesco Guarnieri e já não há mais garoa! 
Saudades!

Comentários
Inclua um comentário











 
Todos os direitos reservados - Pedaço da Vila - 2018