UMAS E OUTRAS
20/12/2017 - Edição 178 - Dez/2017
Zaqueu Fogaça

A imensidão do olhar
O fotógrafo Mauricio Simonetti e a sua esposa, a artesã Lena Franco
Em dezembro de 2015 e fevereiro de 2016, o fotógrafo, fotojornalista e documentarista Mauricio Simonetti mirou a sua lente para a paisagem mais impactante que já viu: a que se formou após o rompimento da barragem de rejeitos minerais de Fundão, em Mariana (MG).
 
“Em mais de trinta anos dedicados à fotografia de paisagem, nunca fiquei tão impressionado”, revela ele, e adianta que os registros que fez dos destroços de casas, rios de lama, objetos abandonados e árvores retorcidas que restaram do maior desastre ambiental do país irão integrar o seu novo livro: Quanto Vale?
 
A obra, em processo de finalização, também reunirá um relato pessoal no qual descreve a sensação provocada pela paisagem devastada pela lama. “As fotos serão intercaladas com as minhas sensações de estar naquele local. O livro está quase pronto. Estamos aguardando os resultados dos editais para viabilizar a publicação”, diz.
 
Um dos maiores nomes da fotografia documental do país, Simonetti começou a sua carreira em 1980, na Agência F4, onde aprendeu a criar as suas próprias pautas e a defender a profissão na batalha pela criação da lei (9610/98) de direitos autorias. Com uma trajetória independente, também fotografou para grandes publicações, como as revistas Veja e IstoÉ.  
 
Por suas lentes se apresentam paisagens de encher os olhos, registradas em todos os cantos do Brasil. Muitas delas ilustram livros de geografia usados em sala de aula. “Saber que uma criança está aprendendo a partir da minha fotografia é uma grande satisfação”, diz o vizinho, que reúne mais de 25 mil fotografias distribuídas em três bancos de imagens: Pulsar Imagem, Tyba e o Particular. Outras integram os acervos do Masp, do Itaú Cultural e do MIS.
 
Fotógrafo que vivenciou na pele o processo de transição do analógico para o digital, Simonetti diz que a tecnologia democratizou o fazer fotográfico. “No começo eu resisti ao digital, mas logo notei que não dava para ir contra a corrente imposta pelo mercado. O digital tornou a fotografia mais democrática. Só não fotografa quem não quer; todo mundo tem um celular com uma máquina na palma da mão”.
 
Mesmo com a lei de direitos autorais em vigor, todo cuidado é pouco em tempos de internet, alerta ele. “O fotógrafo precisa tomar muito cuidado ao colocar as imagens na internet. Se ela for grande e tiver uma boa resolução, provavelmente será pirateada. Muitas pessoas não respeitam o seu autor. O fato de uma foto estar na web não significa que ela pode ser usada”.
 
No pedaço, Simonetti comanda, ao lado da esposa e artesã Lena Franco, o espaço Fotoforma, que ocupa desde 2002 a casa de número 50 da pequena Rua Alcindo Parreira. “Ele foi criado para abrigar cursos de fotografia, artesanato, exposições e uma minigaleria. Ele também é alugado para eventos culturais. Estamos trabalhando ideias para dinamizá-lo e trazer novos artistas e novas oficinas”, explica Lena, que ministra o curso de bordado.
 
No Fotoforma, Mauricio ministra cursos de fotografias e dá orientações sobre a linguagem fotográfica. “Eu percebo que os jovens fotógrafos sabem montar e desmontar uma câmera, mas falta a eles o entendimento da linguagem fotográfica; não sabem usar a iluminação, o foco, o flash, as cores. Nesse espaço e tenho ampliado essa troca de informações”.
 
A principal atração do Fotoforma é o Estúdio Aberto, evento realizado quatro vezes ao ano que reúne artistas, feirinha de artesões e exposição de fotografia. A ideia é aproximar os artistas e artesões do pedaço, diz Simonetti. “Temos muitos artistas aqui no bairro, mas falta uma integração entre eles. Essa conexão é muito importante e eu quero ajudar a fazê-la”.
 
Após tantos anos registrando a imensidão das paisagens naturais do país, Maurício diz que o seu olhar agora está voltado para outra paisagem que sempre despertou o seu interesse, a urbana. “No momento eu estou fotografando muito mais as cidades do que as paisagens. O ambiente urbano sempre me atraiu muito, pois sofre muitas interferências e muda rápido”.
 
Para quem quiser aprender a fotografar paisagens, Mauricio Simonetti ministrá uma oficina de Fotografia de Paisagem, nos dois últimos finais de semana de janeiro e no primeiro de fevereiro, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF), unidade do SESC localizada no número 285 da Rua Dr. Plínio Barreto, na Bela Vista.

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