EM TEMPO
19/12/2017 - Edição 178 - Dez/2017
Zaqueu Fogaça e Denise Delfim

Canteiro de obras sobre as nascentes
A economia nem bem aqueceu e as construtoras miraram seus canhões para a Vila Mariana. Casarões são demolidos na madrugada, proprietários são coagidos a vender suas casas, sem que haja o estudo de impacto de vizinhança. Conclusão: inúmeros lançamentos espalham-se pelo pedaço. O alvo da vez é a Rua Dr. Fabrício Vampré, via de paralelepípedo por onde passa o Rio Boa Vista. A situação mobilizou os moradores e antecipou a fundação da Associação de Amigos da Vila Mariana (AVM)
 
A verticalização irresponsável, sem estudos de impactos ambiental, urbano e social, está passando por cima da história do bairro a contragosto dos moradores. Casarios que preservam as características do processo de urbanização da Vila Mariana desde o início do século 20, um a um, estão indo abaixo para dar lugar a condomínios cada vez mais altos e luxuosos.
 
Após a construção das três torres de 27 andares na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, a especulação imobiliária desmedida avança agora sobre uma das áreas mais valorosas do pedaço, o bolsão residencial formado pela rua de paralelepípedo Dr. Fabrício Vampré, local onde estão justamente as nascentes do Boa Vista.     
 
Os vizinhos ficaram inconformados quando, no dia 28 de novembro, depararam-se com dois endereços da rua cercados por tapumes e placas anunciando os futuros empreendimentos. O primeiro é na altura do número 116, onde um prédio de quatro andares, uma casa e uma obra inacabada foram demolidos e os terrenos aglutinados para receber o novo condomínio da construtora Exto.
 
O segundo endereço, o que mais preocupa, é no final da Rua Coronel Artur de Godói, onde a casa do número 10 já está com os dias contados e sua vizinha vendida recentemente. A casa está com um tapume e exibe a placa da incorporadora Constrac. As investidas da incorporadora na tentativa de comprar novas casas para ampliar o terreno têm sido frequentes, revelam os moradores. 
 
O Pedaço da Vila teve acesso a uma das propostas apresentadas pela Constrac. Nela, a incorporada diz que está dando uma oportunidade aos vizinhos e afirma já ter terreno suficiente para começar a construir. O valor ofertado chega a R$ 7.500 por metro quadrado (hoje, o M² no pedaço chega a mais de 10 mil reais). Na proposta, uma parte do pagamento é feita em dinheiro, em até dez prestações, e a outra em forma de permuta de um imóvel fora do bairro. Feita a negociação, o morador tem o prazo de seis meses para desocupar o imóvel.
 
EM DEFESA DA VILA
 
A notícia da chegada desses novos edifícios na região das nascentes do Rio Boa Vista mobilizou um grupo de moradores preocupados com a pressão das construtoras, que decidiu, o mais rápido possível, fundar, a Associação de Amigos da Vila Mariana (AMV), com o objetivo de atuar em defesa da região situada entre a Avenida 23 de Maio, ruas Sena Madureira e a Domingo de Morais.
 
Entre os objetivos estabelecidos pelo estatuto da AVM está também: promover trabalhos em parceria com a iniciativa privada e pública para atender às demandas dos moradores em áreas como saúde, segurança, limpeza urbana, mobilidade, transporte, infraestrutura, lazer, educação, meio ambiente e de bens públicos e naturais.
 
Na primeira reunião, no dia 4 de dezembro, ficou definido o conselho administrativo da Associação. Para presidente foi eleito o geógrafo Giuliano Saraceni Issa Cossolin (40), morador da Rua Alice de Castro. “A associação nos dará o que não temos hoje, força para preservar a história ambiental, arquitetônica e cultural do pedaço. Não podemos permitir a construção de prédios em áreas que precisam ser protegidas, como é o caso da Rua Dr. Fabrício Vampré, repleta de nascentes”, afirma.
 
Já o vice-presidente da AVM, o médico Paulo Lázaro (37), morador da Rua Morgado de Mateus, diz que a AMV será importante para criar pertencimento aos moradores, e destaca: “Os impactos da verticalização são muito profundos tanto no solo quanto nas relações humanas. Precisamos nos aproximar das riquezas de nosso bairro. Não precisamos de prédios; pelo contrário, queremos preservar o pouco que ainda nos resta de nossos patrimônios“.
 
A revisão da Lei de Zoneamento, aprovada em 2016, incorporou o bolsão residencial da rua Dr. Fabrício Vampré ao raio de 400 metros da Zona de Eixo de Estruturação da Transformação Urbana (ZEU) do Plano Diretor, o que permite a construção de edifícios residenciais e não residenciais com densidades demográficas e construtiva altas.
 
“De acordo com a Lei de Zoneamento, a construção nesse raio pode ser de até 4 vezes o tamanho do terreno. A altura vai depender do tamanho e do quanto será construído. Se ele tem 1 mil metros quadrados e foi construído 50%, por exemplo, pode-se subir em torno de 12 andares”, projeta a arquiteta Eliana Maria Barcelos Menezes (48), moradora da Rua França Pinto e eleita a segunda tesoureira da AVM, 
 
Diretor de Meio Ambiente da AVM, o engenheiro agrônomo e conselheiro participativo municipal Ricardo Fraga ressalta que a aprovação da Lei de Zoneamento antes de debater o Plano Regional retirou dos moradores o direito de apontar as áreas que podem e as que não podem ser verticalizadas. “Não ouviram os moradores e nem fizeram um estudo da área. Agora, precisamos entrar com um pedido para alterar esse Zoneamento da Rua Fabrício Vampré, o que não será fácil”. Ele fala com experiência, pois foi o responsável pelo movimento O Outro Lado do Muro, que tentou, sem sucesso, proibir a construção das 3 torres da Av. Cons. Rodrigues Alves, uma obra que segundo ele “estuprou” o bairro, gerando inúmeros problemas no entorno.
 
Morador da Vampré, o psicólogo Ney Alvares terá a sua casa emparedada pelo novo empreendimento da Constrac e diz temer os impactos provocados no entorno. “Esse pedaço já é pequeno e não suporta mais prédios. A verticalização impactará em tudo: nas nascentes, no esgoto, no número de carros, na convivência dos moradores, até nos pássaros que vivem aqui”.
 
A primeira secretária da AVM, a arquiteta Denise Sotiropulos, moradora da Av. Conselheiro Rodrigues Alves, ressalta que os moradores não podem ficar sujeitos às imposições econômicas. “A mudança faz parte da modernização, mas ela não pode atropelar a história do bairro como vem acontecendo. Em áreas caracterizadas como bolsão residencial não há cabimento construir prédios. Não podemos permitir”.
 
A chef Maria Helena Serrano, primeira tesoureira da AVM, que também é moradora da Rua Fabrício Vampré, onde mantém o Café Bistrô Quinto Pecado, revela que a vizinhança está abalada com as mudanças que estão por vir e diz que é preciso tomar posição. “Não podemos nos calar diante dessa especulação. Mais do que nunca precisamos pensar no nosso bairro, em nossos filhos e lutar para preservar o local onde vivemos”.
 
O presidente da AVM adianta que irá pedir um estudo de mapeamento dos bolsões residenciais do pedaço para garantir a preservação por meio do tombamento nas esferas municipal, estadual e federal. “Não podemos ficar apenas lamentando enquanto o bairro é descaracterizado pela verticalização. Chegou a hora de nos unirmos para ter uma associação forte e participativa e poder escolher o futuro que nós queremos para o nosso bairro, e não o que as incorporadoras ambicionam”.
 
A diretora cultural da AVM, Denise Delfim,  editora do jornal Pedaço da Vila e moradora da Rua Maestro Callia, informa que um site e uma página no Facebook estão sendo criados para conectar os moradores interessados em se associar à AVM: “Só com representatividade poderemos lutar pela preservação das características do bairro. Enquanto as incorporadoras só pensam nos lucros, sem oferecer nenhum tipo de contrapartida em nosso benefício, vamos trabalhar unidos pela qualidade de vida das futuras gerações”, conclui.
 
Nota da história
 
Antigamente chamada Villa Kotska, em homenagem ao santo polonês Estanislau Kotska, que viveu no século XVI, a Rua Dr. Fabrício Vampré começou a ser alterada de modo mais intenso no começo do século passado. Até então era formada por muitas chácaras, a mais famosa era a Chácara das Jaboticabeiras. Com 5.500 m², ela começou a ser loteada em 1924 para dar lugar a 47 lotes. Em um anúncio publicado em 1925 no jornal O Estado de S.Paulo, o responsável pelo loteamento da Villa das Jaboticabeiras, a Levem Vampré, anuncia a área como uma das mais modernas do bairro, com calçamento e destaca as riquezas hídrica e ambiental do endereço. A Rua foi aberta para uso comun e recebeu o nome de Dr. fabrício Vampré em 13 de fevereiro de 1926, com a Lei no 2946.
 
 
A Associação
 
A diretoria da Associação de Amigos da Vila Mariana (AVM): Presidente: Giuliano Saraceni Issa Cossolin; Vice-Presidente: Paulo Lázaro; Diretor de Meio Ambiente: Ricardo Fraga Oliveira; Diretora Cultural: Denise Delfim, 1ªSecretária: Denise Sotiropulos; 2ª Secretária: Márcia Cristina; 1ª Tesoureira: Maria Helena Serrano; 2ª Tesoureira: Eliana Maria Barcelos Menezes. Assessoras Jurídicas: Luciana Cabariti e Patricia Basile

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