ENTREVISTA
28/11/2017 - Edição 177 - Nov/2017
Denise Delfim e Zaqueu Fogaça

Entrevista: Fernanda Teixeira
Diretora da escola Capítulo 1, a psicóloga e pedagoga Fernanda Teixeira lançará no dia 9 de novembro, das 14hàs 17h, na Loja Idearia do Shopping VM, o livro "Coaching para pais - estratégias e ferramentas para promover a harmonia familiar". A obra, escrita por 25 profissionais ligados à educação, é baseada nos ensinamentos da britânica Lorraine Thomas e promove uma reflexão sobre o fortalecimento de vínculos entre país e filhos
 
Pedaço da Vila: A tecnologia alterou profundamente o desenvolvimento das crianças. As escolas também estão mudando?
Fernanda Teixeira: As famílias estão mudando, as crianças estão mudando e as escolas têm que se adaptar a essas mudanças — as escolas que resistem a essas mudanças estão ficando para trás. Hoje as crianças estão muito mais ligadas aos meios de comunicação e já chegam à escola com muita informação. Não são mais aquelas crianças que não sabiam nada; hoje, elas sabem muito e não querem mais aquela sala de aula tradicional, com livro, lousa e ‘decoreba’. Elas querem interagir com as coisas que são do mundo delas. Então, se não trouxermos esse mundo para o ensino e a escola não tiver uma comunicação próxima, essas crianças vão se desinteressar pelo estudo. Despertar o interesse é o grande desafio que temos hoje, pois o mundo fora das escolas está muito  interessante.
 
Pedaço da Vila: A Capítulo 1 segue a filosofia das Escolas Transformadoras. O que caracteriza uma escola transformadora?
Fernanda Teixeira: As Escolas Transformadoras têm um olhar diferenciado para o aluno. Elas vêm surgindo em diversas culturas, como em Portugal, com a Escola Ponte, do professor José Pacheco. Foi ele quem trouxe o projeto Ancora aqui ao Brasil, para um grupo de educadores que se uniram por acreditar nessa transformação da educação. As escolas que estão embarcando nessa educação prezam pela formação de seres humanos. Elas não oferecem apenas a formação acadêmica à criança, mas uma formação cidadã. O objetivo é formar crianças para que respeitem, para que tenham empatia, para que saibam se comunicar e dialogar. Antigamente só se pensava na formação acadêmica; hoje, isso é apenas uma parcela da formação: a que forma uma pessoa especialista, mas não como ser humano. A escola transformadora olha para criança como um ser pensante, que tem emoções, que se relaciona com os outros, que pode interagir com seu potencial para mudar o mundo.
 
Pedaço da Vila: Como a competição é abordada dentro do princípio das Escolas Transformadoras?
Fernanda Teixeira: Existe uma competição que é saudável, a que mobiliza a criança a crescer e a seguir em frente. O objetivo das Escolas Transformadoras é trabalhar a cooperação, a união. Para isso, a escola precisa entender a individualidade e o ritmo de cada aluno. Não adianta competir apenas para saber quem é o melhor. O importante é a compreensão de que um tem uma habilidade e o outro tem outra. E, se unirmos essas habilidades, cresceremos juntos. Precisamos quebrar a premissa de que a criança e o adulto têm que competir todo o tempo; no sentido de derrubar o outro para conseguir alguma coisa. O que mostramos é que eu posso conseguir junto com o outro, cada um no seu ritmo e com suas diferentes habilidades.
 
Pedaço da Vila: A empatia e a criatividade podem ser ensinadas na escola?
Fernanda Teixeira: Elas podem ser despertadas e trabalhadas. Tanto a escola como a família podem incentivar e mobilizar a criança a essa empatia e a essa criatividade. Como? No aspecto da criatividade, ao perceber a habilidade de cada um: a individualidade, o tempo, o que gosta de fazer. Precisamos despertar os interesses do aluno com coisas que têm significados para ele. E quando você faz isso, o aluno tem voz mais ativa dentro da escola e se torna ainda mais criativo. Temos que propiciar um ambiente que permita que as crianças tenham relações saudáveis e que possam se colocar no lugar do outro. Essa troca e esse exercício são muito importantes para despertar a empatia.
 
Pedaço da Vila: O grande desafio atualmente no ambiente escolar é acabar com o Bullyng. Como trabalhar isso?
Fernanda Teixeira: A criança não nasce maldosa, mas ela aprende a ser através do meio em que vive, através do desenho na televisão, através dos Youtubers... O ato de se colocar no lugar do outro é fundamental para trabalhar o Bullyng dentro das escolas. É preciso questionar: e se fosse com você, como se sentiria? Precisamos cada vez mais falar de emoções. As crianças são repletas de emoções, mas não sabem nomeá-las. A escola e a família precisam nomear essas suas emoções. Está com raiva? Não precisa xingar o amigo, tem outras formas de resolver. Vamos buscar outras formas juntos? Precisamos devolver à criança essa responsabilidade. Falar apenas que não pode, sem explicar o motivo, não adianta, pois a criança não compreende. Na nossa época era assim: vai ficar de castigo porque xingou o amigo! Hoje, esse novo perfil de aluno não aceita esse ‘não pode’. Ele questiona. Um exercício muito bom dentro das escolas é a realização de assembleias. Estamos com um problema dentro da sala, vamos resolver todos juntos? A gente faz uma roda, a professora senta junto e expõe o problema. Cada aluno dá a sua opinião e, juntos, construímos soluções e relações. A escola tem a obrigação de fazer esse trabalho.  
 
Pedaço da Vila: Na escola a criança se depara com a diversidade. Porém, há ainda muita dificuldade para abordar os gêneros. Qual é o papel da escola nessa questão?
Fernanda Teixeira: Dia desses eu estava na natação esperando a minha filha e, ao meu lado, um grupo de mães jovens falava o quanto achava absurdo falar de gêneros dentro da escola. Diziam que na época delas não tinha nada disso. Sempre que ouço esse tipo de coisa, me vem a frase: que filhos deixaremos para o mundo? Somos tão egocêntricos que sempre pensamos: que mundo vai sobrar para os nossos filhos? Eu acho que a pergunta é ao contrário: que filhos vão sobrar para este mundo? Por que do jeito que estamos nos encaminhando, se não tivermos esse olhar, teremos adultos piores do que temos hoje. A consequência de nosso trabalho é o que vamos deixar para o mundo. E o que a gente quer para esse mundo? Precisamos cuidar disso agora! Como não falar de gênero dentro da escola se esse é o ambiente onde a criança mais encontra diversidade? A escola tem a obrigação de tratar essas questões para que tenhamos adultos mais humanos. Nem o mercado de trabalho quer mais apenas pessoas especialistas; ele quer seres humanos que saibam se comunicar, ter empatia, respeitar as diferenças e a se colocar no lugar do outro.
 
Pedaço da Vila: No dia 9 de novembro você lançará, na loja Idearia, do Shopping VM, o livro Coaching Para Pais: estratégia e ferramentas para promover a harmonia familiar, escrito por diferentes profissionais. Como nasceu esse livro?
Fernanda Teixeira: O livro surgiu após uma formação com a diretora do The Parent Coaching Academy (UK), autora e palestrante Lorraine Thomaz, que foi uma das consultoras do filme Divertida Mente. A Lorraine esteve no Brasil e formou um grupo composto por educadores, psicólogos, advogados, entre outros. Juntos, pensamos no livro com o objetivo de oferecer um suporte às famílias. É claro que não existe receita, e não é esse o nosso objetivo. É um livro que compartilha propostas e técnicas de pessoas que já vivenciaram na prática — em suas famílias, consultórios, escolas e empresas —  as dificuldades nessa busca pela harmonia familiar, seja em relação à educação ou às relações sociais. O livro é dividido em capítulos que podem ser lidos de acordo com o momento vivido em casa ou na escola. Ele não é um livro técnico para especialista, foi escrito para toda a família ler: pai, mãe, avós, tios, educadores. E ajuda a família a entender essa criança que está chegando. A gente precisa fazer um trabalho de base — e a base é a família. Com essa harmonia familiar, a criança estará mais estruturada para o mundo.
 
Pedaço da Vila: No livro, você aborda a empatia. Quais aspectos podem ser trabalhados para estimular a empatia nas crianças?
Fernanda Teixeira: Aspectos como o respeito e a tolerância são primordiais. Nisso, também entra a cooperação, a solidariedade, a compaixão. Esses valores fazem parte da empatia. Dentro de casa precisamos trabalhar a questão de se colocar no lugar do outro. O livro ensina algumas técnicas e dá ideias de como fazer isso. No meu texto, eu falo sobre como trazer esses valores para o âmbito familiar e dou alguns exercícios que podem ajudar a família e que podem ser feitos de diferentes maneiras, como, por exemplo, ao assistirmos a um filme com os nossos filhos. Nessa oportunidade, temos que conversar com ele, nomear algumas emoções durante o filme e provocar uma reflexão. Esse tempo junto com a criança, escutando-a e dialogando, é fundamental.
 
Pedaço da Vila: A falta de tempo dos pais para acompanhar a vida escolar dos filhos ampliou a responsabilidade da escola?
Fernanda Teixeira: Hoje a escola não tem apenas a responsabilidade de ensinar. Ela educa, forma e, muitas vezes, faz o papel da família. Mas não podemos trocar os papeis. A escola não pode dar conta de tudo sozinha; até porque ela nunca irá substituir o pai e a mãe. A escola, hoje em dia, tem um papel fundamental na vida das crianças, pois a maioria delas fica o dia todo na escola — mas a família precisa exercer o seu papel. Nossa cultura ainda não está preparada para as Escolas Transformadoras, por isso, elas não são a maioria. As escolas construtivistas, como a nossa, são poucas. A gente percebe que, até a Educação Infantil, as famílias gostam de nossa metodologia, porque a criança aprende a se colocar, a criar... Mas quando essa mesma criança muda de nível e vai para o Ensino Fundamental, a família diz: “agora ela vai ter que estudar”. Isso quer dizer que na Educação Infantil ela não estava aprendendo? Uma escola totalmente tradicional não dá conta desse novo aluno e vai achar que tem alguma coisa errada com a criança, vai encaminhá-la para uma psicóloga. Precisamos perceber as particularidades dessas novas crianças e temos que buscar ajuda, caso contrário, não daremos conta.
 
Pedaço da Vila: As famílias estão conse-guindo dar conta dessas crianças?
Fernanda Teixeira: Percebo que muitas famílias estão buscando ajuda para isso. Os professores também estão buscando formação. A família precisa buscar recursos para se preparar. As crianças estão mudando e algumas famílias estão encarando isso de frente. Mas há muitos pais que ainda não entenderam isso e acabam achando que o filho é um delinquente, um opositor, e estão sempre podando a criança sem ouvir as suas necessidades. Quando a criança não tem esse respaldo da família e nem da escola, ela vai procurar esse respaldo aonde? Na rua, na internet. A gente precisa tomar cuidado com isso porque as crianças estão buscando fora o que poderiam ter dentro de casa.
 
Pedaço da Vila: Como essas crianças estão transformando o ambiente familiar?
Fernanda Teixeira: Ela só o transforma se tiver esse olhar atento do ambiente familiar, senão a criança vai agir no ambiente negativamente. A família vai achar que a ela está ‘fora da casinha’, que está com algum problema, e os pais vão procurar alguma terapia, uma ajuda médica. Mas essa nova criança já está transformando a família, pois está trazendo novas informações, questionamentos, se colocando, está sempre plugada no mundo. Antes não tínhamos com-putador e não sabíamos nem o que estava acontecendo ao lado de casa; que dirá no mundo! Essa nova criança chega repleta de dúvidas, pois têm acesso rápido à informação.
 
Pedaço da Vila: Diante dessas mudanças, como trabalhar a segurança da criança?
Fernanda Teixeira: Os limites que os pais devem colocar no ambiente familiar é o que vai gerar segurança na criança. Os pais costumam dizer que a relação com a criança é de igual para igual, que deixam ela dar opinião. Isso é muito bacana também. Mas há coisas que são negociáveis e outras, não — porque o mundo é assim, repleto de frustrações. E a gente percebe que a família, para suprir a culpa de não estar 100% presente na vida do filho, deixa ele fazer o que quiser, como não comer, não tomar banho... Dessa forma, quando a criança encontra um “não” fora de casa, ela se frustra. E com a frustração vem todos os comportamentos negativos. Só que a sociedade é frustrante, a vida é assim e precisamos nos enquadrar numa sociedade para conseguir se relacionar com as pessoas.
 
Pedaço da Vila: Qual é a importância de impor limites?
Fernanda Teixeira: Temos adultos inseguros porque passaram a vida toda sem limites. Eu brinco dizendo que os pais gostariam que os filhos vivessem dentro de uma bolha. E eu não acho que é culpa deles. Eles estão nesse ritmo frenético e a geração atual vive num meio termo: não quer ser como os pais eram, super rígidos, e também não podem ser muito liberais, porque senão perdem o controle. E cadê o equilíbrio? Encontrar esse equilíbrio é muito difícil. Muitos pais chegam para mim e dizem: ‘meu filho não quer tomar banho e eu não sei o que eu faço’. O que é essencial para a saúde e o desenvolvimento do filho não pode ser negociável. Precisa tomar banho? Então vai tomar banho! No primeiro dia a criança vai xingando, no segundo também, mas no terceiro dia ela vai começar a entender que a gente precisa tomar banho, que a regra da casa é assim. Há coisas que a gente consegue negociar, como, por exemplo, o horário de tomar banho. A grande dúvida da família é até onde negociar. Dou ou não dou limite? Precisamos sempre tomar cuidado com aquilo que a criança suporta carregar. A gente tem que lembrar da idade que ela tem, das características da sua faixa etária. Não podemos misturar os papeis. A criança precisa de limites, pois é o que irá criar a segurança nela. É por isso que as crianças nos testam tanto; para saber se estamos ali junto com elas. E é aí que vamos colocando os limites da vida, pois criamos os filhos para a sociedade.
 
Pedaço da Vila: Qual é a sua visão sobre a Reforma da Educação?
Fernanda Teixeira: Eu acho um grande avanço. Essa nova base lança um novo olhar para esse novo perfil de aluno e para a Educação Infantil, que até então era vista como um depósito para a criança ficar brincando enquanto os pais trabalhavam. Agora, há um novo olhar. Essa nova base fala da música, da arte, de como a linguagem matemática, por exemplo, está envolvida na dança, na expressão corporal. Estão olhando a criança como um ser total, que tem emoções, que cria e que pensa. Isso foi um avanço. Mas não basta apenas isso. Agora precisamos formar os educadores para concretizá-la. Não adianta ter uma boa base se tivermos educadores que ainda pensam como se pensava lá atrás. Se o Governo não der essa formação, essa nova base não servirá para nada. 

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