CIDADÃO DO MUNDO
28/11/2017 - Edição 177 - Nov/2017

Deserto Multicores

Por Cecília Montesanti

A viagem ao deserto de Atacama foi, sem sombra de dúvidas, uma das experiências mais marcantes de minha vida. Já fui ao Chile por três vezes e, definitivamente, sou apaixonada por aquele país exótico, com a deslumbrante e imponente Cordilheira dos Andes delineando-o de norte a sul. Ao Deserto do Atacama, porém, foi minha primeira vez em setembro passado.

Apaixonei-me por ele em 2013, ao assistir a minissérie José do Egito, toda gravada lá. O cenário era escandalosamente surreal, mas não podia imaginar que ao vivo era tudo aquilo e muito mais!
 
O deserto de Atacama está localizado ao Norte do Chile e se estende até a fronteira do Peru. Com aproximadamente 1000 km de extensão e mais de 100.000 km2, é o mais alto e também o mais árido do mundo, pois as correntes marítimas vindas do Pacífico não conseguem alcançar a região, devido à altitude.
 
Ficamos numa pitoresca cidadezinha em meio ao deserto chamada San Pedro de Atacama. Para chegar até ela, voamos de Santiago para Calama e de lá, fomos conduzidos por uma Van por pouco mais de 100km, mais ou menos 1 hora e meia, até o hostel no qual nos hospedamos.
 
Com altitude de 2.400m e uma população de quase 5 mil habitantes, Calama fica na região de Antofagasta, próxima à divisa entre Bolívia e Argentina. Suas rústicas construções são típicas de regiões desérticas. Utilizam adobe, barro de rochas vulcânicas alteradas e madeiras provenientes até de cactos secos. As casas baixas e as ruas sem asfalto — não são permitidas construções de edifícios para preservação da imagem de aldeia pré-colombiana. Há uma agradável e arborizada praça onde abriga uma linda igreja colonial. No mais, como a cidade é movida pelo turismo, há inúmeras agências, restaurantes, hostels e lojas de artesanato. Ah, não poderia deixar de mencionar as sorveterias artesanais e seus variados e exóticos sabores, feitos com ingredientes regionais, como rica-rica, ayrampo (cacto), algarrobo (alfarroba), chanar, quinua, entre outros. Na Heladería Babalu encontramos todos esses sabores. Gostei muito do sorvete de lúcuma. O povoado, na verdade, é o ponto estratégico para se ex-plorar o deserto e seus multifacetados cenários.
 
Em virtude do clima desértico, a amplitude térmica é bastante acentuada, de modo que a temperatura é elevada durante o dia, com quedas bruscas à noite, podendo variar de 10 a 15°C. A cereja do bolo é a visão que se tem, como pano de fundo do vilarejo, do imponente vulcão Licancabur, perfeitamente cônico, com seus 5.916m de altura.
 
O Atacama possui cultura milenar. Habitado por culturas pré-incaicas que se adaptaram contra todas as condições climáticas do local. Os tours pelo Deserto de Atacama, os mais variados possíveis, atendem a todos os tipos e gostos, dos mais radicais a quem curte fotografia ou arqueologia, por exemplo. 
 
Há lugares, no entanto, que não se pode deixar de conhecer, como as Lagunas Altiplánicas e Piedras Rojas, o Valle de La Luna, Salar de Atacama, Salar de Tara, os Geysers Del Tattio e Termas de Puritama. Cada qual com suas cores, aromas, características e indescritíveis belezas. Somente estando lá para compreender a verdadeira dimensão da natureza e sentir-se conectado ao Universo.
 
O deserto surgiu juntamente com a Cordilheira dos Andes, quando houve o choque entre as placas tectônicas de Nazca e do Continente Sul-Americano. Cadeias menores de mon-tanhas também se ergueram, juntamente à majestosa Cordilheira dos Andes. Assim, temos a Cordilheira da Costa, ao lado do Pacífico e a Cordilheira de Domeyko (entre a Cordilheira da Costa e a dos Andes), onde estão localizadas as maiores concentrações de cobre da região.
 
Entre as Cordilheiras (da Costa e Domeiko) encontra-se o Plano Central. Caracteriza-se por uma depressão  geológica, retida entre as cordilheiras pré-andinas. 
A cadeia vulcânica da Cordilheira dos Andes é de tirar o fôlego. Alguns vulcões ainda encontram-se ativos, como o Lascar, cuja última erupção foi em 2015. Podemos até observar fumarolas esvaindo-se das crateras de alguns. Turistas mais aventureiros e em condições físicas satisfatórias podem se arriscar à escalada de alguns vulcões. Algumas agências em São Pedro de Atacama oferecem o tour.
 
O magma e as cinzas liberados formaram o Altiplano Andino, também chamado Puna. A beleza do panorama impõe sua majestade. Há, ainda, a Cordilheira de La Sal, formada predo-minantemente por argila, gesso e sal, que adquirem formas peculiares devido à ação do vento e da chuva. Realmente, não parece que estamos na Terra. Nela encontram-se o Valle de La Luna e de La Muerte e a Pedra do Coyote. Passeios imperdíveis. O Salar de Atacama é caracterizado por uma depressão geológica. Há, no local, precipitações, as quais ficam represadas pela existência de montanhas ao redor. Quando a água evapora surgem os salares e lagunas. Aliás, uma das experiências mais peculiares de minha vida foi na Laguna Cejar. Imagine uma lagoa tão salgada, tão salgada, que você não consegue afundar. Sim! Apesar dos 15°C de temperatura da água, não pude deixar de desfrutar daquele momento ímpar!
 
O tour aos Geysers Del Tattio, situados a 4.300m de altitude, deve ser feito após alguns dias de aclimatação. Valeu a pena assistir ao amanhecer no campo geotérmico, com os raios solares incidindo sobre os geysers, mesmo enfrentando a temperatura de -17C.
 
Outro passeio fantástico é o Salar de Tara, situado na Reversa Nacional de Los Flamencos. Fica há 140km de San Pedro de Atacama e a 4.400m de altitude. Caminhamos por entre as inúmeras formações rochosas a fim de apreciá-las de perto. Verdadeiras obras de arte da mãe natureza, esculpidas pelas erupções vulcânicas. Uma delas são os Monjes de La Pacana.
Definitivamente, trata-se de um lugar incrivelmente energético e sagrado. Não encontro definição para tanta beleza! 
 
As Termas de Puritama é o tipo de passeio ideal para relaxar e recuperar as energias.  Elas ficam a 30km de San Pedro de Atacama e a uma altitude de 3.300m. Possui  nove pequenas piscinas termais, abastecidas por águas que brotam do lençol freático a uma temperatura de 33°C. São indicadas para o tratamento de reumatismo, estresse e cansaço.
 
No percurso dos passeios éramos, por vezes, flagrados pela presença de animais típicos da região. Por nossa sorte, os motoristas, sempre solícitos, davam uma paradinha para que pudés-semos fotografá-los. A fauna é formada por camelídeos (lhamas, guanacos, vicunhas e alpacas), raposas, belas e exóticas aves, como os flamingos, animais de pequeno porte, como cobras, lagartos, ratos e viscachas (tipo de coelho). Outros animais, com o tempo, foram se adaptando ao clima, como os burros selvagens.
 
Outro passeio fascinante é o tour Astro-nômico.Tem coisa melhor que contemplar as estrelas num local considerado como o céu mais bonito do mundo? O único porém é que o tour não acontece em noites de lua cheia, pelo fato da claridade prejudicar a visibilidade do céu.
 
Em relação à vegetação, pude observar consi-derável aridez em alguns locais, como no Salar de Atacama. Já nas regiões altiplânicas, notei a existência de vegetação esparsa, com presença de cactos e arbustos de pequeno porte, ervas e gramíneas. Há ervas muito apreciadas e abundantes como a bailahuén, estimulante das funções digestivas, principalmente fígado e vesícula, e a rica-rica, uma planta com propriedades calmantes, e ainda utilizada para melhorar a circulação.   Em San Pedro de Atacama, a  bailahuén é utilizada como tempero, no pisco- sour e é sabor de sorvete. Trouxe um pouco de ambas e apreciei seus aromas e sabores.
 
Para aliviar os efeitos da altitude, é costume nas regiões altiplânicas tomar o chá de coca ou chachamona, que não são alucinógenos e reduzem bastante os efeitos desagradáveis do mal da montanha, como tontura, dor de cabeça, falta de ar e cansaço. As folhas são vendidas em feiras de artesanato e em mercados e são mastigáveis. Encontramos também na forma de balas e sorvetes. 
 
Não poderia deixar de mencionar a hidratação. Por se tratar de local com extrema aridez, é recomendável ingerir muito líquido, assim como hidratar generosamente as vias nasais e olhos. Protetor solar, chapéu e óculos escuros também não devem ser preteridos, pois o sol do deserto é, realmente, escaldante.
Gostaria de voltar ao Atacama a fim de ex-plorar outros lugares, como o ALMA, por exem-plo. Trata-se de um observatório europeu — Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) — o maior projeto astronômico do mundo. Um telescópio de última geração que estuda a radiação produzida por alguns dos objetos mais frios do Universo. Fica instalado a uma altitude de 5.000m, entre alguns vulcões. E para visitar o local é preciso fazer reserva com antecedência de um mês!

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