UMAS E OUTRAS
20/10/2017 - Edição 175 - Set/2017
Denise Delfim

Yogi Zain

Pela primeira vez no Brasil, Yogi Zain, professor certificado de Iyengar Yoga, irá ministrar dois workshops no pedaço nos dias 2 e 3 de dezembro no Estudyo Iyengar Yoga São Paulo. De Oakland, na Califórnia, Yogi conversou por e-mail com o Pedaço da Vila sobre seus ensinamentos da prática como voluntário no presídio de San Quentin e as expectativas para o seu workshop na Vila Mariana

 

Pedaço da Vila: Por que você decidiu ensinar yoga em uma prisão? Desde quando você está envolvido neste trabalho como voluntário?

Yogi Zain: Aconteceu por destino. Eu estava num evento de meditação comunitária com um amigo e, ao final dele, vi um anúncio procurando um “instrutor de ioga masculino, preferencialmente negro”, para trabalhar na prisão de San Quentin. Como eu me encaixava no perfil e estava interessado em ter minha primeira experiência como professor, resolvi me inscrever. Enviei um e-mail para James Fox, o fundador do Prision Yoga Project. Nós nos conhecemos e ele imediatamente conseguiu uma autorização para eu entrar na prisão e aprender com ele. Ainda lembro-me do meu primeiro dia: fiquei muito ansioso e animado por chegar à prisão e praticar yoga com presos. Todos me trataram com respeito e eu me senti seguro. Durante os primeiros meses, eu praticava junto com eles, enquanto o James dava as aulas. Quando ele ficou mais atarefado com o seu Prison Yoga Teacher Trainings, nos Estados Unidos e em todo o mundo, finalmente me ofereceu sua classe para eu ensinar regularmente. Estou dando aulas lá desde o verão de 2012. Eu decidi ensinar yoga na prisão como parte do meu seva (arte do serviço altruísta) e sadhana (prática). É uma experiência gratificante compartilhar o dom do yoga com um grupo que de outra forma não teria acesso a ela. Lembro de que James Fox nunca foi muito interessado em ensinar yoga nos estúdios e que seu interesse era transmitir o yoga para populações mais vulneráveis e com traumas. Fui muito inspirado pelo seu trabalho e queria continuar a missão que ele começou.

Pedaço da Vila: Como a prática do yoga ajuda os prisioneiros?

Yogi Zain: O yoga ajuda os homens a se centrarem e, con-sequentemente, a terem alguma consciência. A prática do Iyengar Yoga dá vitalidade para o corpo físico, consciência e cuidado para a mente, força e resiliência para o emocional e ajuda a elevar o nível espiritual. O yoga ajuda a reconectar sua mente, coração e corpo para sobreviver melhor ao ambiente da prisão. Os iogues presos têm espaço para resolver seus próprios traumas dentro e fora das paredes da prisão. Uma prática disciplinada de yoga ajuda a começar a respeitar a si próprio e aos outros.

Pedaço da Vila: Como você notou a transformação deles?

Yogi Zain: Ao longo do tempo eu tive um número de

estudantes relatando uma transformação positiva logo após a aula, e, especialmente, após seis meses a um ano de prática. Muitos relatam que o yoga os ajudam a dormir melhor e a lidar melhor com o estresse e a ansiedade que experimentam na prisão. O yoga cria espaço para a autorreflexão. A prática os ajuda a assumir a responsabilidade pelo mal que fizeram aos outros, a eles e às suas vítimas. Os presos mudam ao longo do tempo e se comportam de forma diferente porque são tratados de forma diferente. O National Council on Crime and Delinquency (Conselho Nacional de Crime e Delinquência - NCCD), uma organização americana sem fins lucrativos de pesquisa social, fez um estudo sobre o programa de James Fox em 2012. Eles descobriram que os participantes do programa tinham mais controle emocional, temperamento mais calmo, melhor tomada de decisão racional e alívio de dor crônica. Quando perguntado o que o yoga traz para eles, a maioria responde: paz e tranquilidade.

Pedaço da Vila: O que você aprendeu com este trabalho voluntário e que tipo de aulas você passa para seus alunos regulares?

Yogi Zain: Aprendi muito com os iogues na prisão. Também aprendi a agradecer minha vida e ao privilégio de que todos nós temos de estar fora de uma prisão. Muitas vezes criamos nossas próprias prisões mentais e escravidão emocional. Temos a sorte de ter a prática da mente/corpo do yoga para nos ajudar a aliviar o sofrimento. Trabalhar com os presos em San Quentin me dá tempo para minha própria reflexão e minha sadhana. Isso traz um propósito mais profundo para o meu trabalho aqui neste planeta.

Pedaço da Vila: O que trará para o seu workshop no Brasil?

E Yogi Zain: Estou levando a alegria e a magia da prática do yoga Iyengar como aprendi com mentores e professores seniores. Será aberto a todos os estudantes, não apenas aos praticantes do Iyengar yoga. Os ensinamentos de BKS Iyengar e da família Iyengar tiveram um efeito profundo em minha mente, corpo e espírito durante um curto período de tempo. Espero despertar esse interesse de autotransformação e crescimento espiritual em outras pessoas no Brasil. BKS Iyengar dizia que “o yoga é uma luz que, uma vez acesa, nunca diminui. Quanto mais você pratica, mais a luz brilha”. Estou muito desejoso de ir para o Brasil!

 


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