UMAS E OUTRAS
25/08/2017 - Edição 174 - Ago/2017
Zaqueu Fogaça e Denise Delfim

Banco Imobiliário

A Vila Mariana, menina dos olhos da especulação imobiliária, é a mina para abastecer os cofres públicos. Há dois anos, a área de 15.450m² localizada na Avenida Dante Pazzanese, 295, que pertencia ao estacionamento do Detran, foi rifada pelo Governo pelo valor de 39 milhões. No local será construído um condomínio horizontal de altíssimo padrão entre bens tombados do bairro: o Instituto Biológico de um lado, o MAC e o Parque Ibirapuera de outro

No final de 2016, a incerteza sobre a permanência do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Vila Mariana (CAISM) no terreno de 11 mil m² da Rua Major Maragliano, 287, também acendeu o alerta vermelho sobre o destino da área.
 
Mais uma área do Governo do Estado, esta de 5.300m², localizada no número 822 da Rua Joaquim Távora despertou a cobiça financeira. Antes ocupado pelo Laboratório Clímax, o local está ocupado pelo Instituto Geológico desde setembro de 2014, que foi ‘despejado’ de sua antiga sede no Parque da Água Funda.
 
Depois de gastar 5 milhõesuncionando ainda de modo improvisado enquanto aguarda o término da primeira fase das três reformas programadas, O IG já gastou 5 milhões.“E agora a obra foi paralisada”, lamentam os funcionários.  As reformas foram interrompidas pelo secretário de Meio Ambiente Ricardo Salles, em setembro do ano passado. “Sem ninguém explicar o motivo”.
 
Neste mês, a notícia de que o Governo está negociando a venda do local caiu como uma bomba entre os funcionários do instituto. No último orçamento do imóvel, feito em 2015 pela Companhia Paulista de Obras e Serviços (CPOS), ele foi avaliado em 16.880 milhões.
 
O interesse de passar a área adiante foi denunciado este mê pelo site investigativo Direto da Ciência. A documentação obtida por meio da Lei de Acesso à Informação revela uma tentativa de permuta do espaço entre a Forticorp Desenvolvimento Imobiliário e a Secretaria do Meio Ambiente (SMA). O IG então passaria a ocupar outro prédio por dez anos, no Centro, e a Forticop pagaria o aluguel mensal de 125 mil, mais 5 milhões divididos em 36 parcelas. Na proposta, que foi aceita pela SMA, o imóvel seria vendido por 20 milhões.
 
A Consultoria Jurídica da própria SMA considerou o negócio um ‘risco inaceitável para o patrimônio público’. O Ministério Público do Estado de São Paulo então instaurou um inquérito para investigar “eventual prática de improbidade administrativa” por parte de Ricardo Salles.
 
Apesar disso, o desejo de alienar o imóvel é prioridade da SMA. Segundo o secretário, a ideia é obter recursos para a fusão do IG a outros dois institutos da pasta, o Florestal e o de Botânica. 
 
A proposta é descabida, dizem os pesquisadores do IG. “As missões desses três institutos são bem distintas e lá não há espaço para nos abrigar. E precisa fazer outra longa reforma”, observam.
 
Nos três anos de bairro, o Instituto Geológico investiu recursos próprios para reformar o prédio e para a conclusão das obras estão estimados pelo IG mais 10 milhões. “Não será usado qualquer recurso do tesouro. Se nos obrigarem a sair daqui,  esse dinheiro que o instituto já investiu será jogado no lixo”, afirmam.
 
Para seus funcionários, o IG vive uma situação muito grave. “Quando fomos obrigados a sair da antiga sede, o nosso acervo foi espalhado pela cidade até que esse espaço estivesse adequado para recebê-lo. Os pesquisadores estão sendo prejudicados, pois estamos improvisando aqui e ali. Só queremos o fim das obras para podermos trabalhar”.
 
A importância do IG é incontestável. É o centro de pesquisas de geociência mais antigo do Estado de São Paulo, com 131 anos de história, Ele abriga um acervo raro formado por pedras, fósseis, mapoteca, litoteca, periódicos e uma biblioteca com 140 mil títulos que guarda a história da geociência desde o Segundo Império.
 
Sem uma posição sobre o impasse, os funcionários criaram uma petição no site AVAAZ.ORG para pedir a permanência do IG no local. O documento conta com mais de mil assinaturas e será endereçado ao governador Geraldo Alckmin, ao secretário de Meio Ambiente Ricardo Salles e ao presidente da Assembleia Legislativa Cauê Macris.
 
“Essa situação nos entristece muito, pois dese-nhamos uma sede muita linda para esse pedaço do bairro, prevendo atividades abertas à comu-nidade, rodas de conversa, biblioteca, exposi-ções, salas de estudos. O IG tem recursos e quer concretizar tudo isso aqui, mas está sendo impedido. O que você prefere ter perto da sua casa: mais um prédio ou um centro de ciência?”.
 
Para assinar a petição pela permanência do IG no pedaço, clique aqui.

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