ENTREVISTA
03/08/2017 - Edição 173 - Jul/2017
Denise Delfim

Marco Antonio Dario
O delegado titular do 36º DP, Marco Antonio Dario, iniciu sua carreira em 1988, trabalhou em diversos distritos da capital e comandou a divisão de homicídios do DHPP. Responsável pela área de segurança do Parque Ibirapuera e parte da Vila Mariana e Paraíso, ele encontrou uma região onde não há crimes como homicídio e latrocínio, mas onde crescem os delitos como roubos, furtos e estelionatos. A seguir, ele fala sobre o trabalho da Polícia Civil na região, destaca a importância do Conseg no combate ao crime e avalia o programa Vizinhança Solidária: “A informação é uma ferramenta fantástica na mão de qualquer um”, destaca
 
P.davila: Fale um pouco sobre sua experiência profissional.
Marco Antonio Dario: Tenho 57 anos e nasci na cidade de São Paulo. Eu cheguei na Vila Mariana no começo de março e, antes de vir para cá, eu era assistente do seccional, fiz o mesmo trabalho em Franco da Rocha, Guarulhos, Carapicuíba. Iniciei a carreira de delegado em 1988. Trabalhei por muito tempo na Grande São Paulo, em Guarulhos, Arujá, Francisco Morato, Caieiras, Franco da Rocha, Barueri, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes; depois voltei para a capital e comandei a divisão de homicídios do DHPP, naquele período em que o PCC começou a atacar policiais militares. Depois disso, voltei a ser delegado e a trabalhar em diversos distritos da capital, 39.o, 38.o, 17.o. Atualmente também respondo pelo 16º DP, porque o delegado de lá está de férias. Se eu tirar férias, é preciso um delegado da primeira classe para me substituir. Eu não tenho esse tipo de profissional aqui, no distrito, mesmo trabalhando com ótimos colegas, mas eles não são da classe necessária para substituir um delegado titular... 
 
P.davila: Qual foi a primeira impressão ao chegar no 36.o DP?
Marco Antonio Dario: Aqui é uma área de subgênero. A maior área é a do Parque Ibirapuera. Na região não temos crimes como homicídio, latrocínio... Existem roubos, furtos e estelionatos, delitos que são constantes por aqui. Temos um bom arquivo de reconhecimento fotográfico, desenvolvemos investigação num trabalho direcionado para o crime patrimonial. Nem sempre se consegue sucesso porque os elementos que dispomos para a investigação são pagos, mas continuamos insistindo. Quando se esclarece um crime se chega a outro por conta da similaridade da forma de agir. 
 
P.davila: O senhor considera o trabalho de inteligência da polícia mais importante do que as ações de rua?
Marco Antonio Dario: A inteligência sempre foi importante, mas isso não torna desnecessário a atividade de rua, inclusive, a PM colabora muito. Às vezes o capitão Squiavo me liga para falar sobre um caso interessante. Vou dar um exemplo: a PM deteve um sujeito que se sabia que praticou um furto, mas a qualidade da filmagem não permitia identificar a motocicleta furtada e, ainda, não tinha queixa. Então, quando não se tem vítima, você não sabe o que foi furtado e não tem como prender o culpado.Um dia ele foi levado para o 27.o DP, e o capitão me ligou. Consegui identificar através do relato de uma outra pessoa quem seria a possível vítima. Ele já foi preso por isso. O trabalho de rua é fundamental e é a base do policiamento comunitário, pois a partir do momento em que as pessoas veem a PM na rua, se estabelece uma relação de confiança.
 
P.davila: As faculdades atraem delinquentes para o bairro?
Marco Antonio Dario: Qualquer concentração de pessoas atrai o crime.  Na última reunião do Conseg comentamos que havia um forte policiamento nas ruas, na região da Rua França Pinto devido a todos os tipos de incidência criminal, furto, roubo, drogas, tráfico. O capitão está fazendo um trabalho excelente no meu ponto de vista. Eles conseguiram reduzir o índice e efetuaram várias prisões em flagrante.
 
P.davila: Como o senhor vê o programa Vizinhança Solidária?
Marco Antonio Dario: O Vizinhança Solidária é feito pela PM e surte efeito. Mas é evidente que tem que haver um certo filtro. Algumas pessoas precisam entender o alcance do programa, pois começam a reclamar de bobagens que não são problemas de segurança. Mas, desde que bem administrado, é muito bom. Da vez que eu respondi pela titularidade do 16.o DP, eu vi que em alguns locais funciona muito bem. O programa ajuda a polícia e as pessoas. A informação é uma ferramenta fantástica na mão de qualquer um. 
 
P.davila: Quais foram as dificuldades que o senhor encontrou ao chegar na delegacia da Vila Mariana?
Marco Antonio Dario: Para o volume de crimes, temos uma carência de pessoal. O Governo abriu recentemente mais concursos, pois há a necessidade de reposição; a polícia vai envelhecendo e as peças devem ser repostas. A polícia precisa reciclar. 
 
P.davila: Quantas pessoas trabalham no 36º DP?
Marco Antonio Dario: Temos neste DP quatro escrivães, o chefe e o pessoal do cartório central, equipe de investigação para o plantão e para a chefia; mas, por motivos estratégicos, não divulgamos quanto. Não é o ideal, mas dá para trabalhar! São cerca de dez viaturas.
 
P.davila: A Comunidade Mãos Unidas, na Rua Dr. Mário Cardim, é motivo de ocorrência? 
Marco Antonio Dario: Em primeiro lugar, aqui, nós não rotulamos ninguém; nós provamos uma conduta ilícita. Meu pessoal não persegue ninguém por condição social ou econômica. Quanto ao tráfico, nós já fizemos dois flagrantes e eu vou fazer tantos quantos eu conseguir identificar. Lamentavelmente, pegamos menores de idade. Apreendemos, mandamos para a vara da infância e juventude e aí a decisão é deles, não é mais nossa. O capitão também tem feito o seu trabalho, entre eles com as pessoas que se instalam embaixo do viaduto Cebolinha. Fizemos essa operação, pois quando chega a notícia, vamos checar! Aqui todo mundo é tratado com a mesma educação. A minha obrigação é prender e não maltratar!
 
P.davila: Como o senhor avalia o Conseg?
Marco Antonio Dario: Ele é o conselho de segurança comunitário e tem como objetivo principal tratar dos problemas de segurança de uma determinada área, de uma determinada comunidade. Não significa necessariamente que os problemas serão resolvidos em uma reunião do Conseg. Significa que eles serão um meio de comunicação entre a população da comunidade e as autoridades, polícia militar e polícia civil. É evidente que certos problemas, que não são de segurança, podem ser trazidos ao Conseg, mas, lamentavelmente, muitas vezes se confunde Conseg como local para reclamação de pleitos juntos à municipalidade; aos órgãos de trânsito, por exemplo. Como às vezes a reunião do Conseg é uma porta aberta que existe entre a comunidade e as autoridades, nós acabamos tolerando. De certa forma, deixando acontecer esse tipo de coisa. A pessoa vem à reunião para reclamar de uma faixa de ônibus que atrapalha o comércio dele, de um ponto de ônibus mal coloca-do, de que tem uma árvore que precisa de poda, um problema de iluminação pública...
 
P.davila: Mas, a falta de iluminação não gera falta de segurança?
Marco Antonio Dario: Não necessariamente. Pode-se usar como pretexto tudo. É aquela história de que um buraco na rua é problema de segurança, porque alguém pode tropeçar e cair. Temos que ter uma certa limitação em relação a isso.  Uma árvore que necessita de poda não é um problema de segurança necessariamente... pode ser ou pode até vir a ser.
 
P.davila: Essas reclamações fora do contexto de segurança atrapalham a dinâmica da reunião?
Marco Antonio Dario: Muitas vezes toma-se muito tempo com esse tipo de problema, e os verdadeiros assuntos do Conseg acabam não sendo discutidos adequadamente. Na minha opinião, eu repito, esse é o local onde as pessoas devem trazer aquilo que está incomodando e também é o local onde as autoridades policiais podem transmitir aquilo que está acontecendo, que é o que eu procuro fazer em todas as reuniões. Eu procuro dizer, olha, está acontecendo tal golpe, porque eu sempre peço, a cada um que comparece ao Conseg, que seja um propagador da informação. Na realidade, na medida que consigo que essa pessoa, presente na reunião, informe os outros participantes como um golpe está sendo aplicado, por exemplo, posso evitar de ter mais uma vítima. Ou seja, eu terei uma vítima a menos, que é uma constante. Na última reunião, comentei sobre o golpe dos bancos, onde o cara liga dizendo que o cartão foi clonado. É um absurdo, mas quando a pessoa recebe a notícia, elas ficam desesperadas e fornecem tudo: número de documentos e senhas. Ás vezes, há pessoas menos precavidas que tentam desligar a ligação do estelionatário para ligar em seguida para o banco, e elas não percebem que está falando com a mesma pessoa, achando que é do banco. Agora, as pessoas precisam saber que o banco não manda ninguém buscar cartão em casa. O conseg é esse tipo de coisa.
 
P.davila: O golpe do bilhete voltou a acontecer na região?
Marco Antonio Dario: Infelizmente tem acontecido sim. Eu canso de orientar. Nós conseguimos identificar, e estamos na captura de duas pessoas. Já temos uma identificada e que está com mandado de prisão preventiva. 
 
P.davila: A ação da prefeitura contra a cracolândia teve reflexos no bairro?
Marco Antonio Dario: A ação espalhou os usuários. Nos sentimos muito aqui na Vila Mariana, por que há pessoas de coração bom, que estão sempre ajudando. Mas, como devemos lidar com esse tipo de coisa? Eu, particularmente, sou apolítico, então não critico nenhum partido.  Eu entendo que do ponto de vista policial, a ação foi boa, porque tem que se fazer alguma coisa; não se pode deixar do jeito que está. Mas, é evidente que na medida que você elimina um centro, pode haver a dispersão dos usuários, e alguns viciados já perambulavam por aqui. Do ponto de vista social, para quem quer ajudar, não me parece adequado dar dinheiro; alimento, às vezes. Mas, acho, que isso não trará nenhum benefício efetivo para essas pessoas. Eles precisam de ajuda mais especializada, porque o vício é um problema de saúde e o tráfico é um problema de policial. Hoje em dia não se prende mais o viciado, que é submetido a tratamento ambulatorial, se ele quiser. 
 
P.davila: Muitas pessoas têm medo de fazer o Boletim de Ocorrência, pois sabem que serão chamadas para o reconhecimento...
Marco Antonio Dario: Eu faço questão de explicar no Conseg que isso não existe! Isso é lamentavelmente propagado de forma indevida!  Na realidade, o que acontece é o seguinte: em primeiro lugar, ao fazer o Boletim de Ocorrência, o bandido não estará sabendo, porque ele não fica aqui. Segundo, o reconhecimento é feito em sala própria e o bandido não vê que a pessoa está o reconhecendo. Terceiro, temos um provimento da Justiça que possibilita a exclusão dos dados qualificativos da pessoa no inquérito, que é mandado à parte para o juiz. Temos que acreditar no sistema, o judiciário e a polícia trabalham. Às vezes a notícia é divulgada de forma errada e isso gera medo e desconforto. Quem vier fazer queixa será ouvido e a imagem e a identidade da pessoa serão preservadas.

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