EM TEMPO
26/07/2017 - Edição 173 - Jul/2017
Zaqueu Fogaça

Vamos de Bike?

Quando as primeiras ciclovias foram implantadas no bairro, há cinco anos, muitos moradores e comerciantes se posicionaram contrários à iniciativa. A motivação de ambos era a mesma: a perda das vagas para estacionar o carro. De lá para cá vieram mais ciclovias, mais reclamações, e mais... ciclistas! Crianças, adultos, idosos e famílias inteiras passaram a usar a bicicleta como principal meio de transporte na região, seja para trabalho ou para lazer.

É o caso do empresário Daniel Moral, que readotou a bicicleta como meio de transporte no seu dia a dia. “Andar de bicicleta no trânsito da cidade sempre foi muito tenso. O desrespeito ao ciclista é muito grande. Eu não tinha coragem, mas, agora, com as ciclovias, sinto segurança. Esse espaço para a bicicleta foi uma grande conquista e precisa ser ampliado na cidade”, avalia.
 
Morador do bairro há dois meses, Daniel conta que foi a estrutura cicloviária que o convenceu a deixar a Chácara Klabin e mudar-se para a Rua França Pinto. “Daqui eu me desloco facilmente para qualquer parte da cidade. Se preciso ir até a Avenida Berrini, por exemplo, eu pego a ciclovia na frente de casa, atravesso o Parque Ibirapuera e já acesso a ciclovia da República do Líbano; é rápido”.
 
O vizinho comanda o projeto Pedal Noturno, que incentiva o uso da bicicleta à noite. “Em grupo as pessoas se sentem mais seguras. Muitos querem andar de bicicleta, mas têm medo. O passeio é leve e todos aproveitam muito”. O Pedal noturno sai às 8h30 em frente ao BBC Ciclo Café, na Rua Vergueiro (2757), e é preciso ter bicicleta para participar.
 
Daniel também resolveu empreender e criou o projeto Biketour SP, passeio turístico por sete rotas históricas da cidade. “Cada turma conta com no máximo 10 pessoas e, em cada parada, o monitor dispara um áudio, via mp3, para que todos ouçam as histórias e as curiosidades do local”, explica.
 
Para participar do Biketour basta doar dois quilos de alimentos não perecíveis. A bicicleta e os equipamentos de segurança são disponibilizados pelo projeto aos participantes.
 
“Esse é um trabalho que também tem seu lado social. Por mês recebemos 2 toneladas de doações, que seguem para duas instituições sociais. O nosso objetivo é fazer com que as pessoas, de todas as idades e condições, possam vivenciar a cidade e a andar de bicicleta”.
 
Os passeios acontecem aos sábados e domingos, com saídas das 9h às 15h, que ocorrem de acordo com as rotas. “Até agora mais de 18 mil pessoas já passearam com o biketour”, diz Daniel, que adianta que o próximo passo será implantar uma rota turística pelos patrimônios da Vila Mariana. “Vou apresentar o projeto ao prefeito regional e buscar patrocinadores no bairro”.
 
Para ajudar os ciclistas na hora de um imprevisto, Daniel criou o aplicativo BikeAjuda, que relaciona as mecânicas especializadas e bikes cafés num raio de 5 km. “É uma plataforma de auxílio. Quando fura o pneu, por exemplo, o ciclista ativa o aplicativo e pode escolher entre localizar um mecânico profissional ou pedir ajuda a um ciclista voluntário mais próximo. O objetivo é fortalecer a rede de ajuda entre os ciclistas”.
 
Embora não ande de bicicleta, outra moradora da França Pinto, a produtora cultural Cristina Becker diz que, de sua janela, não se cansa de olhar os ciclistas passando. “Diariamente, no fim da tarde, vejo o trânsito de bicicletas. Na parte da noite são os grupos de ciclistas, são famílias inteiras que usam a ciclovia”, conta.
 
Ela lamenta o fato de perder um lado da rua para que as visitas possam estacionar o carro, mas, isso foi por uma causa maior, reconhece. “A implantação das ciclovias foi um ato visionário. Acho bárbaro! Não podemos entupir a cidade de carros”, diz.
 
As reclamações de que a ciclovia prejudica o comércio são incorretas, rebate Daniel. “Eu ando de bike e sou consumidor. Estudos provam que o público ciclista aumentou a venda nos comércios. Todo ciclista é um cliente potencial, mas o comércio precisa se adequar e colocar paraciclo. Precisamos pensar no futuro. Não podemos ser imediatistas e pensar apenas em nós”.
 
Para o vizinho, quem fala que ciclovia é ruim é porque não usa bicicleta. “A sensação de segurança que o ciclista sente quando entra numa ciclovia é imensa. Elas estão salvando muitas vidas. A cidade tem um sistema cicloviário todo interligado, mas está sendo feito por partes. Há muitas melhorias a serem realizadas e precisamos fazer cada vez mais, mas sem retirar as ciclovias”.
 
Ele aproveita para convidar quem é contrário às ciclovias a dar um passeio em sua companhia. “Os que são contra a ciclovia da Rua França Pinto, como o presidente da Associação de Bares e Restaurantes da Rua Joaquim Távora (ABREJOTA), Claudio Nogueira (que disse ao Pedaço da Vila querer retirar a ciclovia da rua), estão convidados a andar de bicicleta com a gente”.
 
As bicicletas também têm inspirado novos comércios no bairro. É o caso do BBC Ciclo Café, recém-inaugurado na Rua Vergueiro, 2757. Sócio do espaço, Eduardo Chade Castiglioni (45) conta que o BBC é um espaço amigo da galera do pedal. “A gente serve café, comida, e ofereceremos mecânica self-service, ducha, armário, bike parking e espaço de coworking”.
 
Na Rua França Pinto, 421, o ciclista também encontra outro ponto de parada, o Vento a Favor Ciclo Café, que conta com mecânica, cafés e comidas, loja de acessórios e serviços de banho, estacionamento e espaço de coworking. Já no número 1093 da Joaquim Távora está a Base Bike Store, que comercializa bicicletas, acessórios e vestuários. O espaço ainda conta com uma oficina especializada.
 
A energia do pedal
 
Pedalar a bicicleta e produzir energia capaz de recarregar celulares, tablets, notebooks, som... É exatamente isso que move o Pedal Sustentável, pequena empresa especializada em energia renovável comandada pela produtora cultural, cantora e vizinha Filó Silva e pelo professor José Carlos Armelin, inventor da tecnologia. Ele explica que a energia do Pedal é gerada por meio de um aparelho formado por ímãs e fios de cobre instalado na bicicleta. “As pedaladas giram o pneu, que faz o ímã rodar e retirar elétrons dos fios de cobre, produzindo assim a energia”.
 
A capacidade é de 150 watts de potência elétrica e possui uma corrente contínua de 14 volts. As bicicletas que geram energia pelas pedaladas são usadas em salas de aula e eventos dedicados aos mais variados temas: da sustentabilidade ao esporte, do meio ambiente à física. “É um trabalho de conscientização sobre o nosso consumo”, diz Filó.
 
Apaixonados pela bicicleta, Filó e Armelin querem mostrar como a geração de eletricidade é um processo difícil e custoso.  Ele dimensiona: “Se uma pessoa pedalar a bicicleta por 1h durante 30 dias, a energia gerada por ela representará uma economia mensal de apenas R$1,50. É muito pouco; por isso não vendemos as bicicletas, só alugamos para eventos”, diz Filó.
 
O Pedal possui 22 bicicletas, sendo 2 adaptadas para cadeirantes e 2 para crianças. No mês passado foram pedaladas por seis atletas para gerar energia dos equipamentos de som e instrumentos musicais dos artistas que se apresentaram no Energizando, evento que aconteceu no Parque Ibirapuera. Há dois anos as bikes do Pedal Sustentável têm gerado a energia para mover o desfile do bloco no bairro. “Toda a energia foi gerada pelas pedaladas dos foliões. Este ano foram mais de 500 pessoas que participaram do bloco do pedal”, conta a vizinha.
 
 
Para quem não sabe andar de bicicleta ou não se sente seguro no trânsito, outro vizinho, Paulo Roberto Ferreira (71), dá aquele empurrãozinho amigo. Há dois anos ele é voluntário do Bike Anjo, projeto fundado em 2010 para ensinar a andar de bicicleta e oferecer suportes como rotas alternativas, segurança e legislação de trânsito.
 
Paulão, como é conhecido, tem formado ciclistas de todas as idades. “Há pouco tempo eu ensinei uma senhora de 92 anos e na semana que vem irei ensinar uma criança”, conta o ‘anjo’, que disponibiliza a bicicleta para as aulas. Morador da rua Domingos de Morais, sempre pedalou pelo bairro. “Eu andava mesmo sem ciclovia. Mas, entre os carros, é preciso estar bem atento para entender o tempo do trânsito, pois é arriscado. As ciclovias deram mais segurança e precisam ser ampliadas”.
 
As aulas do bike anjo acontecem na Praça Rosa Alves e Silva, na Rua Machado de Assis. “Essa praça é muito boa para aprender a andar de bicicleta, pois tem uma inclinação pequena”, diz ele, e avisa. “Os vizinhos que precisam de uma ajuda para pedalar é só me contatar que ensinarei com prazer”.
 
Há pelo menos seis anos a bicicleta é o meio de transporte diário do vizinho Hélio Fernandes Martins (35). Morador da rua Neto de Araújo, próximo à Lins de Vasconcelos, ele usa a bike para vir trabalhar no pedaço, onde é Dog Walker. “É o meio mais fácil para eu me locomover. Pela ciclovia eu chego aqui em 4 minutinhos”, diz.
 
O ciclista Eduardo Jorge, um dos principais defensores da implantação de ciclovias na cidade durante a sua gestão como secretário do Verde e do Meio Ambiente, em 2005, diz que as “ciclovias bem planejadas, bem construídas e bem mantidas sempre ajudam as cidades”.
 
Apesar de considerar a ciclovia da França Pinto mal construída e carente de manutenção, o vizinho ressalta que ela “tem ajudado no deslocamento de muitas pessoas, principalmente na hora de ida e volta ao trabalho”. E reforça: “As ciclovias são boas para os ciclistas e para a cidade, mas, o mais importante é uma educação de todos nós para o respeito do outro e para a cultura de paz no trânsito”, diz o ilustre morador.
 
A Rua França Pinto é uma das ruas mais importantes do pedaço. Era a via de acesso dos produtos que saiam do Matadouro e seguiam para Rua Domingos de Morais. Também era por ela que as charretes e depois os automóveis seguiam para Santo Amaro. Prova disso é o  Marco de 7 Léguas instalado quase na esquina da Rua Domingos de Morais, um resquício do Brasil colônia. A via, a primeira do bairro a ser pavimentada, é hoje também fundamental aos ciclistas. “É a única que dá acesso ao Parque Ibirapuera”, defende Daniel. 
 
A criadora da página Bike Legal, a jornalista e cicloativista Renata Falzoni (64) concorda com Daniel. Ela destaca que a ciclovia da Rua França Pinto é essencial para a cidade. “Ela liga a Zona Sul ao Centro e ao espigão da Paulista. Precisamos de mais estrutura e incentivo ao uso da bicicleta. Em qualquer lugar do mundo há um enorme esforço nesse sentido!”.

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