UMAS E OUTRAS
27/06/2017 - Edição 172 - Jun/2017

Crack: menos ideologia (e menos hipocrisia)

Por: Jorge Tarquini

  Vira-e-mexe, a Cracolândia volta aos noticiários. E, automaticamente, surgem do nada, principalmente nas redes sociais, os “especialistas instantâneos”. E, claro, junto aos palpiteiros de plantão, que conseguem resolver todos os problemas do mundo em posts e textões autorais no Facebook, reportagens sem fim colocam o assunto nas manchetes por dias a fio.

E, mais do que apenas fazer bom jornalismo, dá-lhe “reportagens” que são contra ou que são a favor – seja do que for: de uma ação atrapalhada da polícia, do novo programa que a prefeitura ou o governo do estado criaram, dos viciados, dos traficantes, da polícia… Ideologia como resposta. 
 
Não sou um especialista no assunto. Não sou médico, não sou terapeuta, não estudo drogas. Não sou sociólogo – e nem psicólogo. Eu sou simplesmente um jornalista e escritor. Escrevi um livro, chamado Vinte Mil Pedras no Caminho, no qual conto a trajetória de vida de um ex-viciado em crack, que passou 26 anos da sua vida envolvido com as drogas, sendo seis deles com o crack.
 
A primeira coisa que me chama a atenção nessa gritaria geral é que a Cracolândia é apenas um lugar. E o vício, por mais que possa parecer, não fica restrito àquele lugar. Portanto, por mais visível que seja a situação ali, com imagens realmente chocantes, é apenas um lugar onde se vende e se consome o crack.
 
Já se perguntou por que não existe uma maconhalândia, uma cocalândia, uma heroinalândia? Essa pergunta poderia ajudar, tantos os “especialistas de Facebook” quanto os ideólogos de plantão, a entender que o problema é maior do que isso. E que não se restringe ao quadrilátero do centro velho de São Paulo. Eis o primeiro passo para nos despirmos dessa visão limitante.
 
Crack é o primeiro vício/droga que tira a pessoa de sua casa: não dá tempo para sair, comprar a pedra, voltar para casa e fumar. A escravidão vem do escravizante moto perpétuo conseguir-dinheiro-comprar-a-pedra-fumar-conseguir-dinheiro-comprar-a-pedra-fumar…
 
O “barato” dura muito pouco: de dois a cinco minutos. O que vem a seguir é o que chamamos de “noia”: os pensamentos persecutórios, a apatia, a “ressaca”. E a única coisa que pode parar esse processo aterrorizante é… consumir outra pedra.
 
Então, como não sou especialista, não tenho receita mágica e nem solução para apontar. Lamento… Mas divido aqui algumas das coisas que penso, a partir do meu mergulho no universo do crack para escrever o meu livro. 
 
Para acabar com a ideologia: o problema do crack não é um problema… São MUITOS problemas. De saúde, física e mental, dos dependentes. De polícia, pois o tráfico se mistura ao “movimento” para garantir a escravidão cotidiana e constante dos dependentes – e por ele ser protegido (covarde, mas real, não?). De política pública, como a de se criar, por exemplo, um lugar seguro e distante do tráfico, onde se pudesse controlar de alguma maneira o uso, para dar alguma dignidade àquelas pessoas (estejam elas “vivendo”na Cracolândia ou em alguma outra rua). De acolhimento das famílias. De oferta real de tratamento. E, por que não, de resgatar os casos mais urgentes, evitando a morte certa. Não vou dizer que internação compulsória sirva para todos. Assim como programas mais lights também não (menos ideologia e menos hipocrisia, lembra?).
 
Se você já passou por alguma dieta restritiva, por motivos de saúde ou outro, sabe como é complicado lidar com compulsões. Experimente tirar o chocolate, massa, açúcar, cigarro, álcool ou qualquer outro “vício”, lícito ou ilícito, de sua rotina. Já fumei e sei que sou chocólatra. No primeiro caso, experimentei a abstinência e a vontade desesperadora de acender um cigarro. No segundo, só eu sei o que é dizer não para um chocolate…
 
Em ambos os casos, porém, contei com a ajuda do entorno: pedi aos amigos ainda fumantes que evitassem fumar perto de mim, enquanto a família não deveria comprar chocolate ou comê-lo perto de mim. No caso da Cracolâncdia, isso é meio impossível, não? 
 
Como disse, não tenho solução. Nem vim aqui para pregar A ou B. Mas deixo o convite do título: menos ideologia e menos hipocrisia. Entender melhor esse universo será um bom começo. O começo do fim do problema.

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