ENTREVISTA
03/05/2017 - Edição 170 - Abr/2017
Denise Delfim

Entrevista: Lara Freitas

Membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável  (CADES/VM) e do Ecobairro, a arquiteta e urbanista Lara Freitas é uma das principais lideranças das ações sustentáveis da cidade. Na entrevista a seguir, ela fala sobre os trabalhos realizados pelo Conselho para ampliar as áreas verdes na região, explica o que é a ação Plantio Global, que nasceu no bairro e ganhou o mundo, e avisa: “A Vila Mariana está abaixo da média da cidade nos índices de áreas verdade”

 

Pedaço da Vila: Essa gestão do CADES da Vila Mariana está mais atuante do que nunca! Qual é o motivo?

Lara Freitas: O CADES evolui muito nos últimos anos e a atual composição está mais madura. Os conselheiros estão conectados com as propostas, o que nos possibilita começar o diálogo num nível mais alto e mais qualificado. O básico já é ponto pacífico; quase não temos divergências e, dessa forma, conseguimos avançar mais rápido. Acho que o fator determinante desse CADES é a combinação das habilidades dos membros, que se complementam e não se sobrepõem. Um conselheiro tem vivência em legislação, outro em permacultura, outro em empreendedorismo... E essas vivências, combinadas, são extremamente construtivas. Isso não quer dizer que todos concordem um com o outro em tudo; mas todos atuam unidos. Um desenha, outro articula, outro organiza, outro dá apoio...  Essa forma de trabalho fortalece a atuação.

 

Pedaço da Vila: Como está o bairro ambientalmente?

Lara Freitas: Ao lado de Moema, a Vila Mariana está abaixo da média da vegetação da cidade. O bairro não está bem na fita como a gente pensa... Em nosso distrito, apenas o bairro da Saúde possui índices melhores de vegetação. Historicamente, há uma perda muito significativa de vegetação nas áreas tomadas por comércios e serviços. As árvores são mais preservadas em áreas residenciais. No ano passado, durante as reuniões sobre o Plano Regional, tivemos acesso aos dados sobre as áreas verdes da região, informações muito importantes para criar ações. Está claro que o bairro carece de plantios e, no momento, estamos estudando umas onze áreas no bairro para fazê-los.

 

Pedaço da Vila: As árvores que o CADES plantou na Praça Soichiro Honda crescem firmes e fortes!

Lara Freitas: Essa ação foi um sucesso! Foram plantadas 110 espécies nativas. O CADES de Pinheiros nos inspirou a plantar na Vila Mariana e isso abriu um diálogo com outras regiões. Há tempos que queríamos fazer um plantio de árvores nativas no bairro e todos abraçaram a ideia. De início, analisamos as áreas disponíveis e suas características para abrir o diálogo. Um longo caminho foi percorrido até chegarmos a área definitiva: a praça Soichiro Honda. Foram muitas reuniões envolvendo o Conpresp, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, a prefeitura regional. Para plantar não basta apenas o ativismo...

 

Pedaço da Vila: Quando surgiu a ideia de fazerem um plantio global?

Lara Freitas: Foi durante uma conversa entre o conselheiro Sérgio Shigeeda, responsável pela Horta Comunitária da Saúde, e André Nogueira, ativista do interior de São Paulo, no dia do plantio da praça Soichiro Honda. Queríamos expandir a ideia e surgiu a proposta para fazermos plantios simultâneos em toda a cidade. E então veio a pergunta: por que não no mundo todo? A cada ação todos saem encantados, é uma experiência que reverbera nos participantes e cria novas redes de conexão. Em termos de comunicação tudo ficou mais fácil, pois temos uma rede de contatos no mundo inteiro. No fim do ano passado desenhamos algumas diretrizes de boas práticas para orientar como plantar. E toda rede de contatos abraçou a ideia!

 

Pedaço da Vila: O Plantio Global tomou grandes proporções. Como ele foi realizado?

Lara Freitas: Trabalhamos para que tudo fosse feito dentro de uma boa técnica e que fosse bacana para todas as pessoas envolvidas. Além disso, queríamos plantar espécies nativas e cada ação deveria respeitar o contexto de cada local e fazer as pessoas serem depois responsáveis pela ação. Tudo foi feito de maneira adequada e descentralizada para ser uma ação conjunta. Para plantar é preciso percorrer um longo caminho. Esse primeiro plantio global, por exemplo, era, no início, para ser feito na Lapa. Os técnicos aprovaram a área, mas uma parcela pontual da comunidade não queria. Tentamos dialogar com esses moradores, mas não teve jeito. E escolhemos outro local, no parque municipal Chácara do Jockey.

 

Pedaço da Vila: Quantas cidades e países a iniciativa envolveu?

Lara Freitas: A ideia era de que a ação pudesse fortalecer plantios locais, fosse ele para plantar uma, dez ou cem árvores. Incentivamos todos a criarem os seus eventos locais e a ação alcançou uma dimensão muito maior do que imaginávamos! Foi realizada em setenta cidades de 17 países, como França, Bélgica, Japão, Londres, Bélgica, Austrália, Quito...  Ainda estamos fazendo o balanço completo. Criamos um espaço online para conectar todas as pessoas e orientar como plantar, com explicações sobre cada espécie arbórea. Foi uma riqueza de conteúdo que nos surpreendeu. E deu tão certo que o Plantio Global entrou no calendário oficial do município. Ele será realizado próximo ao dia 19 de março, o Dia da Água. Para o CADES é primordial que os envolvidos entendam qual é a proposta, quais as funções que o plantio cumpre; entender que, após a ação, todos têm que cuidar das árvores, e que isso pode ser feito pelas crianças, jovens, idosos, poder público, sociedade civil... Todos conectados.

 

Pedaço da Vila: São muitos os trâmites para encontrar áreas para plantar na cidade?

Lara Freitas: Existe uma série de etapas a serem cumpridas e muitas questões para serem pensadas. É preciso alinhamento entre todos os envolvidos na ação: prefeitura regional, conselheiros comunitários, população, secretaria do Verde e do Meio Ambiente, Fórum de Sustentabilidade. Durante o processo há muitos fantasmas: o entendimento da legislação, a área adequada para receber o plantio, a permissão do poder público, a aprovação da comunidade. No dia do plantio ainda dar toda a estrutura adequada aos participantes, como água, banheiro, ferramentas. É necessário um conjunto de elementos para dar condição de plantio no local escolhido e, na maioria das áreas, existe algum porém. É preciso cavar para ver a qualidade da terra... Um dia, em um terreno, encontramos asfalto embaixo da terra! Enterraram o asfalto e isto abre uma série de diálogos sobre locais que estão cumprindo efetivamente a função de área verde permeável. Quando puxamos o fio da meada para plantar, vem muita coisa junto, é com muita emoção que plantamos!

 

Pedaço da Vila: Os CADES das outras prefeituras regionais também estão conectados?

Lara Freitas: Em suas atribuições já está prevista a articulação entre os conselhos. Atualmente estamos aprimorando essa troca de saber. Nessa nova gestão, rapidamente fomos ao encontro do secretário do Verde e do Meio Ambiente Gilberto Natalini, para apresentar nossas propostas, que foram ao encontro das dele. Os CADES da cidade devem se apoiar, já abrimos relação com o da Lapa e de Pinheiros. Precisamos fazer juntos, ampliar e empoderar a todos.

 

Pedaço da Vila: Qual seu olhar sobre o Corredor Verde da Av. 23 de Maio?

Lara Freitas: A ação na Av. 23 de Maio é um chamado para um olhar mais amplo sobre o que é a compensação ambiental, prevista na Lei. É um cálculo de quantas árvores foram retiradas de um determinado local para orientar a plantação em outro lugar. Essa compensação pode ser feita plantando árvores ou num montante de recursos monetários para outras ações, como, por exemplo, as paredes verdes. Mas em termos de compensação de carbono, as paredes verdes não cumprem a mesma função das árvores, pois uma coisa não substitui a outra. Uma coisa é você deixar a cidade menos árida e cinza, o que tem um custo, outra, é você suprir a cidade efetivamente com os benefícios que as árvores oferecem. Esse corredor verde envolve processos de outra ordem e também recursos públicos para a irrigação, adubação, manutenção... O que não pode acontecer é dizer que ele substitui as árvores. Precisamos amadurecer o que é área verde, pois os CADES têm muito para fazer em todas as regiões da cidade.

 

Pedaço da Vila: Quais as prioridades do CADES da Vila Mariana neste ano?

Lara Freitas: Um dos nossos objetivos é justamente melhorar a performance de número de árvores por quilômetro quadrado na Vila Mariana e efetivar novas formas de plantios, como em calçadas. Estamos fazendo um mapeamento para propor novas ações, mas queremos que as pessoas entendam a importância disso. Vamos intensificar o diálogo com os demais CADES e o poder público para que possa ser viabilizado. Queremos também fazer um Plano Regional, mapeando toda a região para aumentar a arborização. O CADES Vila Mariana quer dar bons exemplos, pois as pessoas aprendem mais assim do que com muito falatório e grandes teorias. Talvez não consigamos fazer tudo o que a gente deseja como conselheiros, mas, se conseguirmos plantar boas sementes na população, já estamos avançando em nossa missão!


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