ENTREVISTA
15/07/2016 - Edição 161 - Jun/2016
Zaqueu Fogaça e Denise Delfim

Angela Alonso

O antigo casarão da rua Morgado de Mateus, 615, conserva uma história importante sobre o pensamento brasileiro. Construído pelo livreiro Eugéne Gazeau em 1930, o espaço se tornou reduto de intelectuais e, em 1969, a sede do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), instituição independente que desenvolve pesquisas e produz conhecimento crítico sobre diversos aspectos da realidade brasileira. Pesquisadora da casa desde 1993 e atual presidente, a professora livre-docente do Departamento de Sociologia da USP, autora dos livros “Joaquim Nabuco” e “Flores, Votos e Balas” (Companhia das Letras), Angela Alonso, falou ao Pedaço da Vila sobre os  47 anos da instituição, o atual cenário político do país, a intolerância, a corrupção, os movimentos sociais, e revelou uma parte da história sobre a libertação dos escravos que permanecia à sombra: a do movimento abolicionista

 

Pedaço da Vila: O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) foi fundado em 1969 por um grupo de professores durante o regime militar. Ele nasceu com que objetivo?
Angela Alonso: O nome Cebrap foi criado para que não significasse muita coisa e não houvesse a possibilidade de que o Regime Militar o considerasse uma atividade política ou subversiva. O que o Cebrap sempre fez, desde sua origem, foi pesquisa e intervenção no debate público. O nome já tinha o objetivo de tornar politicamente seguro esse ambiente. Entre seus fundadores estavam professores aposentados compulsoriamente pelas universidades e pesquisadores independentes. Durante os anos do Regime Militar, as atividades daqui eram vistas como perigosas. Sua antiga sede, na Rua Bahia, chegou a ser bombardeada, e os presidentes do Cebrap foram levados para averiguações. Foi um momento em que o funcionamento da casa ficou bem complicado. Essa origem deu ao Cebrap duas características que ele tem até hoje: o engajamento no debate público — pois era um grupo heterogêneo de filiações partidárias. E o fato de ter sido fundado no contexto da Ditadura nos deu a interdisciplinaridade, pois os professores vinham de diferentes áreas, o que acontece até os dias de hoje. Temos demógrafos, antropólogos, sociólogos, historiadores, cientistas políticos, ou seja: uma variedade de áreas que é incomum numa universidade. Essa é uma característica importante da casa, e que fortalece nossa independência.
 
Pedaço da Vila: Como o Cebrap consegue manter essa independência?
Angela Alonso: Temos um problema grave que é o financiamento, porque a independência depende muito da independência financeira. Por não sermos vinculados a nenhum partido ou governo, isso torna a nossa sobrevivência muito problemática. A gente vive correndo atrás de recursos para as nossas atividades. Durante a Ditadura, fundações internacionais ajudaram instituições como o Cebrap. A Fundação Ford, por exemplo, ajudou a casa e a outras instituições similares, centros de resistência intelectual à Ditadura. Uma vez entrando na normalidade democrática, esse tipo de recursos desapareceram. O que temos atualmente são financiamentos de pesquisas, mas eles são específicos. Agora, por exemplo, estamos concorrendo a um grande edital alemão, mas é uma competição, e tentamos ganhar... A sobrevivência é muito mais difícil nesse contexto. Fazemos consultorias para empresas, prefeitura, governo, mais por demanda; não temos uma fonte fixa de recursos. Muitos pesquisadores trabalham aqui voluntariamente, como é o meu caso, na presidência. Meu  colegas são professores da USP, Unicamp, GV, UFABC, pessoas que têm seu assalariamento em outro lugar, mas desenvolvem pesquisas aqui porque é um ambiente único de trabalho, um espaço pequeno onde todos se interagem — o que não ocorre na universidade, grande e especializada.
 
Pedaço da Vila: As áreas de pesquisas foram muito alteradas nestes 47 anos de atuação?
Angela Alonso: Desde a fundação até 2002, as nossas áreas de atuação eram amplas: cultura e política, sociedade e política. Hoje, elas são mais específicas: política, movimentos sociais, relações internacionais, cultura, religião, entre outras. Ocorreu uma especialização das áreas. Também temos aqui o Centro de Estudos da Metrópole, que desenvolve pesquisas sobre a cidade de São Paulo. Mas ao longo desses seus 15 anos, ele foi se ampliando. Agora, esse centro faz pesquisas comparadas com outras metrópoles, do país e estrangeiras. É um centro dentro do centro, porque ele não envolve apenas pesquisadores do Cebrap, tem relações com outras instituições, e com trabalho que tem uma relação direta com a cidade; enquanto o Cebrap é voltado para o debate público, com o que é contemporâneo. 
 
Pedaço da Vila: A política é uma das suas áreas de atuação. Como vê a polarização da sociedade perante o cenário político?
Angela Alonso: A polarização aparece de vez em quando e não é uma característica exclusiva do contexto contemporâneo. No momento da abolição da escravidão, por exemplo, teve uma polarização muito parecida: radicalização dos dois lados, eventos públicos, confronto. Quando olhamos melhor a história, vemos que o Brasil é um país que criou uma narrativa sobre si mesmo de um povo pacífico. Mas a história não é bem assim, ela é de muito conflito. O que está acontecendo agora na política soa de uma forma exacerbada porque estamos vivendo essa situação. Mas se for olhar para o que aconteceu durante o Governo Jango, o contexto pré-suicídio do Getúlio Vargas, o governo do Floriano Peixoto, durante a Regência, são situações parecidas. Você tem dois lados que se destila uma grande intolerância pela posição do outro, em que a corrupção é um tema. Somos imersos à contemporaneidade e isso nos dá a impressão de sermos especiais; mas há uma radicalização de posições atualmente. Até porque a gente se acostumou, no final da Ditadura — e nas últimas décadas — a ver manifestações por expansões de direitos de movimentos sociais de esquerda. Agora, estamos vendo movimentos que se organizam também com outra pauta, a de defesa de certos valores morais, uma pauta reativa, contra o aborto, contra as drogas, pela redução da maioridade penal. Isso também tem produzido mobilização. 
 
Pedaço da Vila: No livro Flores, Votos e Balas  você revela um lado deconhecido da história da abolição: a do movimento abolicionista.
Angela Alonso: As explicações que apareceram para a abolição por muito tempo foram ou na linha da dádiva da Princesa Isabel, que concedeu a abolição da escravidão num ato magnânimo; ou nas explicações de corte marxista, que se preocuparam mais com a dimensão econômica do fenômeno e a incompatibilidade entre a escravidão e o capitalismo. Mais tarde, sobretudo a partir dos anos 1880, começou uma preocupação com a participação dos escravos na abolição. Essas três narrativas resumem, muito grosseiramente, um século de produção sobre o assunto, em que uma estava olhando para as instituições, outra para a economia e a terceira para os escravos. O que eu fiz foi olhar para o que estava acontecendo no espaço público. Quando escrevi sobre a vida de Joaquim Nabuco, que foi um abolicionista, fiquei surpresa ao perceber a quantidade de eventos pela abolição que ocorriam a céu aberto. Descobri uma enorme quantidade de associações fundadas, eventos de propaganda, e daí, resolvi escrever o livro contando essa história totalmente desconhecida.
 
Pedaço da Vila: Como o movimento abolicionista se articulava?
Angela Alonso: O livro tem esse nome, Flores, Votos e Balas, porque são as três estratégias que o movimento usa durante as duas décadas de campanha. No início, por meio de eventos públicos, com um caráter artístico e político ao mesmo tempo, chamava-se conferência concerto e contava com cantoras de ópera. Durante as apresentações, libertavam alguns escravos no palco — era uma grande dramatização da escravidão e pelo fim dela. Ao final,  lançavam flores nos escravos e nos aboli-cionistas. Por isso eu chamei essa primeira fase de Flores. Era uma campanha artística e pacífica, com muita música, literatura, eventos de caráter festivos. Com elas, os abolicionistas  pressionaram o sistema político e conseguiram uma façanha: por meio de uma campanha conseguiram libertar escravos de uma província inteira: a do Ceará. Eles pediam doações, de porta em porta, para comprar as alforrias dos escravos e pediam aos proprietários para que libertassem os seus. Esse efeito político foi muito importante, pois a vitória do movimento pressionou o governo. E, em 1884, um governo parlamentarista, simpático ao abolicionismo, propõe a abolição gradual da escravidão e a concessão de terras para os ex-escravos. Contestado pelos escravistas, esse governosofreu um voto de desconfiança e, como acontece no sistema parlamentarista, convocaram eleições para que ele permanecesse. Por isso eu chamei esse período de Votos, pois todos os abolicionistas se candidataram, mas foram derrotados. E aí, entra a última fase, que são as Balas: depois da derrota eleitoral, assumiu um gabinete escravista que passou a perseguir os abolicionistas. O governo mandou a polícia ou a milícia, à paisana, desmantelar os eventos de flores e prender os abolicionistas, que migraram para uma estratégia mais extrema: a desobediência civil, agindo na clandestitinidade, ajudando e incentivando os escravos a fugirem, levando-os para o Ceará, onde já não havia mais escravidão. Eles constroem rotas de fugas e sociedades secretas. Isso vai erodindo a sustentação da escravidão no mundo público. Os abolicionistas não conseguiriam apoio sem a repressão tão desmedida do governo, que fez com que a população urbana se simpatizasse com o movimento, ajudando nas fugas. Ao final, o aboli-cionismo contou com o apoio da população urbana e com a recusa do exército em perseguir os escravos. No final de 1887, a escravidão desmorona.
 
Pedaço da Vila: Nesses últimos anos, a corrupção no Brasil ganhou destaque. Como analisa esse cenário?
Angela Alonso: Há um foco excessivo na corrupção. Supor que não exista corrupção é supor a bondade humana. Sempre há corrupção, em qualquer lugar do país e em qualquer momento da história. O problema não é a existência dos corruptos, é a maneira como eles são punidos. Hoje, o que tornou visível o fenômeno da corrupção é que ele passou a ser judicializado. As pessoas estão sendo denunciadas e sendo presas. Por isso, dá a impressão de que se tem muita corrupção. Por exemplo: o gabinete do João Alfredo, que fez a abolição, caiu devido ao escândalo dos irmãos loiros, empreiteiros com os quais o governo fazia falcatrua. Havia uma relação promíscua entre o Estado e os empresários, relações de família, relações de governo... O João Alfredo caiu como hoje tem gente indo para a cadeia. Então, tem menos a ver com o crime em si e mais com o fato de que agora ele ficou visível e está sendo punido. É claro que existem países que dificultam a corrupção mais do que outros. Aqui mesmo, o escândalo dos anões do orçamento, que a gente já esqueceu, gerou em seguida uma ação legislativa para dificultar a corrupção no orçamento. O que vemos hoje é que a corrupção se deslocou. Ela acontece muito no âmbito das campanhas eleitorais. Os bandidos estão aí e vão migrando de arena.  
 
Pedaço da Vila: Muitos pastores têm conquistado espaço no ambiente político. Qual o motivo?
Angela Alonso: Os pentecostais desenvolveram um ativismo político muito forte. São várias denominações pentecostais que estão em diversos partidos. Esse fenômeno, por um lado, tem a ver com a capacidade de organização e com o ímpeto deles de participar ativamente da política. Por outro lado, há uma ressonância encontrada na sociedade, eles foram eleitos. É preciso considerar que na democracia quem tem voto, leva. Há uma parte do país que acredita nesses valores e os apoia. Todos os setores têm direito de ter representação. Devemos pensar é por que a esquerda perdeu espaço. Esse parlamento, pelo que vimos na votação do Impeachment, é majoritariamente moralista. O que apareceu na votação foi: Deus, a família e a localidade — “ pela minha cidade”. Por que essas pessoas ganharam mais espaço do que as que estão falando em direitos de um modo geral, liberdades pessoais de bandeiras mais universalistas? A esquerda perdeu voto! Existem aí muitas coisas a serem pensadas, e não é somente o crescimento da direita. A esquerda encolheu, pois teve uma grande dificuldade de renovação de lideranças, um fenômeno difícil em qualquer área, até mesmo aqui no Cebrap. Como passar de uma geração para outra? Temos 47 anos de existência e foi preciso fazer essa transição aqui. Eu, por exemplo, nasci no ano em que o Cebrap foi fundado e, no meio do caminho, surgiram pessoas que pensaram nessa sucessão. No caso dos partidos de esquerda, essa transição vem demorando, não apareceram lideranças que tenham ressonância; as que surgiram foram setoriais, de certos nichos e falam com uma militância específica. Há essa dificuldade de comunicação geracional. A nova geração não está aí para ficar escutando megafones, não foram as pessoas que frequentaram as passeatas dos anos 1980. É uma geração conectada à internet, que pensa e vive de outra maneira, e que precisa ser acessada politicamente. Não tem nenhuma liderança de esquerda que tenha conseguido se comunicar bem com esse público, ainda. Essa é uma geração que cresceu durante os governos do PT, não sabe o que é Ditadura, inflação; sabe que o PT é o status quo e não está satisfeita com isso, mas também não vê alternativas. 
 
Pedaço da Vila: Como analisa a participação dos movimentos sociais hoje na política?
Angela Alonso: Existem dois grandes campos. O de mobilização mais à direita, que não era vista como um movimento; que também está se diversificando: uns mais reacionários e outros mais liberais. E o da esquerda, com a velha esquerda sindical, socialista, dos anos 1980, e esses novos grupos mais autonomistas, de caráter anarquista. Essa união dos movimentos sociais acontece em muitos lugares do mundo, há uma confluência de pautas. No século 21, a tendência é desses movimentos irem se combinando e dando origem a novas causas. Por enquanto, o que vemos é uma diversidade do debate, mas é uma novidade... O debate sobre movimentos sociais nos anos 1980 era muito em torno da pauta da desigualdade econômica. Hoje, a pauta forte é em torno do direito à diferença, mas sem que a pauta econômica tenha desaparecido. Essa diversificação é muito positiva.

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