ENTREVISTA
28/03/2016 - Edição 158 - Mar/2016
Zaqueu Fogaça

ENTREVISTA: Leandro Lopes Resende

Depois de passar pelos teatros municipais Alfredo Mesquita, Zanoni Ferrite e Leopoldo Fróes, Leandro Lopes Resende assumiu, há um ano, a coordenação do Teatro João Caetano, na Rua Borges Lagoa. Morador da Vila Mariana, ele recebeu o Pedaço da Vila para falar sobre o atual momento do teatro municipal, a urgência de uma reforma estrutural e os trabalhos que estão sendo realizados para aproximá-lo dos moradores e das escolas do bairro. E adiantou os espetáculos imperdíveis que entrarão em cartaz. “É tudo gratuito!”

Pedaço da Vila: O Teatro João Caetano completa 62 anos em 2016. Conte um pouco sobre a história dele... 

Leandro Lopes Resende: Uma coisa que deixa a gente muito triste — e isso também acontece com outros teatros da prefeitura —, é encontrar muitas lacunas na história do Teatro João Caetano. Esse é um erro recorrente da cultura brasileira; é uma falta de memória organizada. O Teatro João Caetano foi inaugurado em 1952 e presta homenagem ao grande ator carioca que dá nome ao espaço. O João Caetano, assim como os demais teatros distritais, foi construído para levar cultura aos bairros. Em seus primeiros anos, o teatro abrigou muitos espetáculos musicais, espetáculos de escolas; foi um espaço que reuniu muitos intelectuais do Brasil e do Mundo. Em 1956, estiveram aqui Jean Paul-Sartre e Simone de Beauvoir.

 
Pedaço da Vila: Ao longo desses anos, o Teatro João Caetano passou por muitas alterações em sua estrutura física?
Leandro Lopes Resende: Ocorreram pequenas modificações. O palco era diferente, construído para receber orquestras — mas isso foi alterado. Infelizmente, o registro dessas modificações foram perdidos. A única referência que temos desses 62 anos de história do teatro é uma reforma, não muito feliz, realizada em 2000. Nessa intervenção foram instaladas estruturas metálicas, construído um anexo e ampliado o número de camarins — o que foi muito bom e nos possibilitou receber grandes produções. Também foi construída uma plateia superior, com mais 38 lugares — hoje temos 438 lugares. Mas isso já faz 16 anos e a nossa plateia também já está precisando de uma reforma, pois as cadeiras estão desgastadas pelo uso e pelo tempo. Está na hora de o teatro passar por uma boa reforma, mas, por falta de recursos, isso ainda não aconteceu. Todos os teatros públicos da cidade passaram por reformas, menos o João Caetano. As medidas paliativas já não dão mais conta; pois o teatro continua a ter uma programação constante.
 
Pedaço da Vila: Qual é a estrutura do teatro e o que necessita ser reformado?
Leandro Lopes Resende: O teatro conta com dez camarins — 8 em um anexo e 2 sobre o palco —, um saguão e um belíssimo jardim ao fundo. Precisamos resolver nossas calhas, que sempre apresentam algum problema, os assentos da plateia precisam ser substituídos, as paredes precisam ser reformadas e fiação é antiga. São coisas que precisam ser repostas. A reforma de 2000 não foi uma reforma pequena, mas também não foi estrutural, foi dada uma cara moderna ao teatro apenas. A nossa fachada foi tombada e está precisando ser restaurada, como o mural na parede de entrada, assinado pelo renomado artista Clóvis Graciano, que é tombado, mas está danificado pelo tempo e precisa ser restaurado. O secretário de Cultura de São Paulo, Nabil Bonduki, ficou preocupado ao ver o estado em que o mural se encontra. Os próprios frequentadores lamentam ele estar assim.
 
Pedaço da Vila: A situação melhorou após a escolha de Nabil Bonduki como secretário de cultura?
Leandro Lopes Resende: Eu assumi a direção do teatro João Caetano em janeiro de 2015. Mas já trabalho na prefeitura, em outros teatros, há 10 anos. A mudança é sensível. A administração Nabil Bonduki e Fernando Haddad foi uma grande revolução. Hoje temos uma ampla programação que movimenta espetáculos na cidade, em teatros, casas de culturas e bibliotecas públicas. Está sendo muito bom, pois o Circuito Cultural gira todo final de semana e os espetáculos são exibidos em diferentes espaços de São Paulo. A população, que estava acostumada com temporadas, começou a entender o circuito; ela sabe que tem aquele final de semana para ver a peça e se programar. É muito bom ver a classe artística tendo muitos espaços e trabalhando bastante. Nesse modelo de circuito, a divulgação é feita de modo muito rápida, e estamos aprendendo ainda a melhor maneira de trabalhá-la. Alguns espetáculos ainda estão muito vazios. 
 
 
Pedaço da Vila: Como é a relação do Teatro João Caetano com as escolas da região?
Leandro Lopes Resende: Até o momento ainda não retomamos os projetos com as escolas, com espetáculos infantis durante a semana. A apresentação no meio da semana facilita que as escolas possam trazer seus alunos para ver as peças. Voltando um pouco no passado, em algum momento os teatros perderam um pouco essa função distrital e se distanciaram das escolas e grupos artísticos de seu entorno. Hoje, a nossa inserção nas escolas da região e nas entidades tem sido dificultosa. Por onde tenho passado, nesses últimos três anos, tenho feito essa aproximação, que é um trabalho que iremos intensificar, aqui, na Vila Mariana, com isso, todos ganham: o teatro, as escolas, as associações, grupos artísticos, orfanatos... 
 
Pedaço da Vila: O Teatro João Caetano tem quantos funcionários?
Leandro Lopes Resende: Há uma deficiência grande de funcionários na prefeitura. Hoje, contamos com três técnicos, um funcionário administrativo, um técnico de palco e dois jovens monitores. São sete pessoas trabalhando aqui. Eu penso que entre 10 e 15 pessoas
 
Pedaço da Vila: Além da falta de funcionários, qual é a maior dificuldade que você encontrou ao chegar no João Caetano?
Leandro Lopes Resende: A nossa ferida é a questão da divulgação. Seria muito bom se tivéssemos mais  pessoas fortalecendo a relação com os moradores e os demais aparelhos culturais e educacionais da região. Recentemente, com a chegada dos  monitores culturais, o teatro ganhou ar fresco, eles têm ajudado muito. Esse é um programa que oferece aos jovens um estágio de um ano. Um projeto que visa instrumentá-los para serem futuros agentes culturais. E está dando muito certo, pois um dos requisitos para integrá-los é morar na área local. Por serem moradores da região, conhecem a melhor maneira de se comunicar com a vizinhança. Eles estão trabalhando bastante, tornando o Teatro João Caetano cada vez mais conhecido e mais acessível. Não tínhamos uma página no Facebook e os jovens monitores a criaram. Eles fazem um excelente trabalho na divulgação online, em redes sociais, e isso tem sido fantástico. 
 
Pedaço da Vila: O Teatro João Caetano dispõe de recursos?
Leandro Lopes Resende: O teatro não tem dinheiro. Tudo que fazemos aqui é pago pela Secretaria de Cultura municipal: estrutura, materiais, serviços — como limpeza e segurança — e funcionários. Dinheiro para investirmos não há.
 
Pedaço da Vila: A região conta com muitos artistas e grupos de teatro independentes. Qual seria o caminho caso eles queiram se apresentar no Teatro João Caetano?
Leandro Lopes Resende: Uma proposta deve ser encaminhada para a divisão de programação da Secretaria da Cultura da cidade, que fará a mediação entre o artista e o teatro. Os artistas e grupos também podem vir até aqui, e eu mesmo encaminho para a Secretaria. Nosso trabalho visa esse perfil para que os artistas tenham seu espaço nos equipamentos do município. Ainda hoje, há aquele preconceito do teatro público ser menor... Isso aconteceu porque houve um momento em que as produções que oferecíamos não eram tão boas. Mas, nos últimos cinco anos, a qualidade de nossos espetáculos não deve a nenhum outro teatro particular de São Paulo.
 
Pedaço da Vila: Toda a programação do Teatro João Caetano, dentro do circuito cultural, é gratuita? Quais são os espetáculos imperdíveis da programação?
Leandro Lopes Resende: Essa programação, que iniciou em fevereiro, vai até junho deste ano. Ainda não sabemos como será no próximo semestre. No ano passado, houve uma mistura de temporada com o circuito cultural — essa mescla foi muito interessante. Até junho, teremos excelentes apresentações, entre elas Maria Gadu, Denise Fraga, com a peça Galileu-Galilei, a grande montagem de Simbá, que está fazendo um grande sucesso. Teremos ainda Urinal, um dos musicais de maiores sucessos da Broadway dos últimos anos, com uma temática sobre a água. Teremos muitos espetáculos de circo e dança, que são fantásticos. É uma programação bem diversa, e para todas as idades. A nossa ideia, para breve, é trazer também espetáculos de música clássica no João Caetano. É uma programação bem diversificada.
 
Pedaço da Vila: E isso é bom para o teatro?
Leandro Lopes Resende: Eu acho interessante o teatro ter essa cara mais plural. É lógico que a gente tem mais facilidade em trazer o público infantil, esses espetáculos estão sempre cheios. Antes recebíamos a programação do dia para a noite, mas agora isso tem sido feito de modo muito eficiente. Essa programação ampla me agrada muito. Antigamente, o público não conseguia ter muito acesso ao que estava em cartaz sem vir ao teatro. A parte de divulgação melhorou muito!  
 
Pedaço da Vila: O Teatro João Caetano também oferece aulas de teatros gratuitas. Quem quiser participar, onde deve se inscrever?
Leandro Lopes Resende: Esse projeto é um trunfo da prefeitura há 12 anos, que tem aproximado o teatro da população, pois ajuda a formar profissionais. São cursos que duram um ano, de teatro, dança, artes plásticas e música, em espaços da prefeitura. Aqui no João Caetano, após três anos, retomamos, no ano passado, o projeto vocacional só para linguagem de teatro, por enquanto. As inscrições desse ano irão começar agora em abril e para fazê-la é só vir nos procurar no teatro.
 
 
Pedaço da Vila: Como morador da Vila Mariana, qual é a importância do Teatro João Caetano para a vizinhança?
Leandro Lopes Resende: Isso é uma coisa que me deixa muito triste aqui no bairro, ver o número de pessoas, contemporâneas minhas, que não conhecem o teatro. A Vila Mariana é um bairro muito estranho nesse aspecto, pois ainda temos muitas pessoas para atingir. Isso pode estar ligado a formação histórica de cada um, que talvez não tenha tido o costume de ir ao teatro. Eu estou muito feliz de estar no João Caetano, pois, sendo vizinho, é muito bom esse convívio próximo do público. 
 
Pedaço da Vila: Como experiente coordenador de teatros públicos, o que mudou nos teatros municipais com o Circuito São Paulo de Cultura?
Leandro Lopes Resende: Hoje, o grande trunfo dos teatros públicos da cidade, e em particular do Teatro João Caetano, é essa pluralidade de nossa programação, que é capaz de agradar a todos. O João Caetano está com uma excelente programação inteiramente gratuita e aberto para os moradores da Vila Mariana!

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